Na Alemanha há dois eventos de Fuscas que têm renome mundial. Ambos ocorrem de quatro em quatro anos, mas de uma maneira defasada, assim que a cada dois anos um destes megaeventos está na berlinda. São os eventos de Bad Camberg (None oficial: “Internationales Bad Camberger VW-Veteranen-Treffen”) e de Hessisch Oldendorf (Nome oficial: “Internationale Volkswagen Veteranentreffen in Hessisch Oldendorf”).

Na foto tirada em Hessisch Oldendorf 2017, da esquerda para a direita: Marcus Lotterman, filho do falecido Heinz Willy Lottermann, iniciador do evento de Bad Camberg; Michael Lotterman, tio do Marcus e Gizi, esposa do Michael (foto Shin Watanabe)

Ambos foram criados por importantes colecionadores, cujo renome ultrapassou as fronteiras da Alemanha. O de Bad Camberg foi iniciado pelo amigo Heinz Willy Lottermann, falecido no ano 2000; hoje seu irmão Michael Lotternann, com a colaboração de seu sobrinho Markus Lotterman, filho do Heinz Willy, estão tocando este evento. Já o evento de Hessisch Oldendorf é organizado pelo também grande colecionador Traugott Grundmann, que conta com a ajuda de seu filho Christian.

Estes eventos giram em torno dos Volkswagens antigos, mas têm características bastante diferentes. O evento de Bad Camberg é realizado num antigo campo de futebol e tem uma quantidade de veículos participantes limitada a cerca de 300, fabricados até 1955; e é especializado em veículos veteranos, de 1938 a 1950, com ênfase aos originais. É um evento que podemos considerar como sendo purista. A quantidade de público costuma ser grande, mas nada que atrapalhe a curtir o evento com conforto.

Já o evento de HO – Hessisch Oldendorf não tem muitas limitações quanto a idade ou originalidade do carro, o que atrai uma gigantesca quantidade de visitantes, a ponto de ser muito mais lotado, percentualmente falando, e este ano, em sua sétima edição, teve o recorde de 900 inscritos de muitos países, dos quais aproximadamente 400 carros antigos, mas não necessariamente originais. Um dado impressionante é que, no total, vieram carros de 28 países, mas ainda não participou nenhum carro vindo do Brasil.

[AG-91-Foto-02 – O evento em HO ocorre no centro da cidadezinha numa área central com ramificações em ruas adjacentes. No mapa indicamos a St. Marien Kirche (Igreja Luterana de Santa Maria) que marca o centro dos acontecimentos (fonte Google Maps)]

 Outra diferença fundamental, é que em HO o evento ocupa praticamente todo o centro de uma cidadezinha que fica bloqueado por três dias. A maioria dos moradores e comerciantes demonstra um grande senso de participação, pois não há como tirar os carros da garagem e a balbúrdia em frente das casas é considerável e vai até à noite, quando DJ’s animam uma megabalada. Certamente há dissidências daqueles que se sentem incomodados com tudo isto. Mas até hoje tem corrido tudo bem. A estimativa de público deste ano é de 45.000 visitantes.

Traugott Grundmann, criador do evento de Hessisch Oldendorf, conduzindo a entrega de prêmios no domingo pela manhã no palco central do evento (foto Jornal DEWEZEIT)

Um vídeo preparado pela página da internet do jornal DEVEZT dá uma geral deste grandioso evento:

Uma área livre próxima à cidade foi transformada num camping gigante que foi tomado pelos visitantes do evento, como mostra a foto abaixo. Aliás, a questão de hospedagem é crítica nestes dois eventos, tanto que as reservas costumam ser feitas com mais de um ano de antecedência.

Foto aérea do camping de HO, que fica no Horstweg, próximo ao centro da cidade (foto Jornal DEWEZEIT)

Normalmente é uma área que fica vazia, mas para este evento ela recebe a infraestrutura necessária e visitantes do evento (fotos Jornal DEWEZEIT):

Dentre as milhares de cidades na Alemanha, estas duas se destacam mundialmente entre os aficionados por Volkswagens veteranos, antigos e não tão antigos assim no que se refere a eventos de destaque. Eles além de renome, trazem um forte acréscimo de renda para os municípios, sendo que os prefeitos costumam participar dos eventos para demonstrar seu apoio.

Este ano, meu amigo Ighör Tóth esteve em HO e providenciou um fartíssimo material fotográfico, uma pequena parte será apresentada nos textos e outra será colocada à disposição na Parte 2 sob a forma de um link para um álbum no Flickr. O Ighör teve que madrugar todos os dias do evento para poder pegar a cidade vazia, antes da invasão da multidão de visitantes, pois depois de uma certa hora já não se podia mais chegar perto dos carros, muito menos tirar fotos “limpas” como estas que ele conseguiu fazer.

Da direita para a esquerda: o Ighör Tóth e o Achim, com o seu segundo VW SP2 (foto Nicole Tóth)

Como o primeiro VW SP2, violeta Pop, do Achim tem a assinatura do Márcio Piancastelli, ele decidiu pará-lo definitivamente, como uma homenagem a este grande designer que faleceu em junho de 2015; eu recebi a notícia durante o evento de Bad Camberg.

O Achim veio ao Brasil em 2016 e comprou este lindíssimo VW SP2 no Rio de Janeiro para ter um exemplar para curtir, se bem que ele tem uma grande coleção de carros antigos, mas os VW SP2 têm um lugar especial na preferência dele. O primeiro VW SP2 do Achim participou do evento de Bad Camberg em 2015 tendo causado grande interesse do público.

O VW SP2 violeta Pop do Achim, brilhando no gramado do evento de Bad Camberg em 2015 (foto do autor)

A cidade é dividida em bolsões conforme os tipos de carros, mas alguns carros se “infiltram” na área de exposição e encontram o seu lugarzinho. Cada bolsão foi definido em função das inscrições e havia indicadores orientando tanto o estacionamento dos veículos, como, depois, orientando o público, veja o exemplo abaixo:

As placas que indicavam o canto dos veículos militares, um dos pontos altos desta edição (foto de vídeo do Jornal DEWEZEIT)

 

Santa dupla de chassis de KdF, com missa e tudo:

Como já é uma tradição neste evento o interior da St. Marien Kirche (Igreja Luterana de Santa Maria) acaba recebendo componentes de carros veteranos, um procedimento que é aprovado pelo pastor e pela comunidade evangélica desta igreja.

No evento de 2009 um raríssimo KdF 1938 foi colocado dentro da igreja, como mostra a foto abaixo:

O KdF 1938 dentro da igreja protestante sendo aceito pelo pastor e pela comunidade (foto www.uraltkafer.de)

Em 2017 o domingo começou com um culto na Igreja Luterana de Santa Maria, onde foram expostos dois chassis de KdF. Neste contexto as palavras da Bíblia “espadas em arados” serviram como símbolo para o fato de chassis construídos em tempos de guerra permitirem hoje que as pessoas de todo o mundo se reunissem para celebrar uma festa pacífica em Hessisch Oldendorf.

Como no caso da carroceria do KdF em 2009, a colocação dos dois chassis dentro de igreja deu bastante trabalho.

O pessoal suando para colocar o chassi do KdF 1944, com tração nas quatro rodas, perfeitamente restaurado, para dentro da igreja (foto Jornal DEWEZEIT)

O culto transcorreu normalmente, com os dois chassis integrados no contexto:

Culto evangélico do domingo, a comunidade canta os hinos na presença dos dois chassis de KdF originalmente fabricados durante a Segunda Guerra Mundial (foto Jornal DEWEZEIT)

Uma foto dos dois chassis antes do culto já dispostos como planejado, ambos são para versões militares do Fusca. O chassi em primeiro plano é de um KdF 1943 tração 4×2, e o de trás é de um KdF 1944 com tração 4×4 igual à do Schwimmwagen:

Prontos para o culto e para a visitação pública, os chassis dentro da Igreja que fica no centro dos acontecimentos deste evento (foto Ighör Tóht)

As fotos dos chassis para mostrar seus detalhes (fotos Ighör Tóht):

 

Muitas Kombis, de todos os anos e de todos os jeitos:

As Kombis são uma unanimidade em todo o mundo e isto se refletiu no evento HO17 também. Desde as originais, passando pelas rebaixadas, envenenadas e enferrujadas, havia de tudo.

Esta Kombi é uma raridade, foi construída na Áustria numa versão muito peculiar de um Samba Bus, seu estado é original sem restauração. Ela acabou ganhando um dos prêmios do evento (fotos Ighör Tóht):

Na Kombi abaixo, que veio da França, destaca-se além de seu estilo rebaixado, o fato de ter um tanque para o transporte de combustível para calefação (fotos Ighör Tóht):

Várias Kombis para serviço de combate a incêndio foram expostas, como este lindo exemplar (foto Ighör Tóht):

Já neste outro exemplar a Volkswagen aparece em dobro, uma vez na Kombi em si e outra no motor estacionário que aciona a bomba especial de alta pressão para combate a incêndio (fotos Ighör Tóht):

Ainda sobre as velhas, mas muito velhas senhoras, coisa que eu não tinha visto em Bad Camberg, em Hessisch Oldendorf apareceram muitas com motores envenenados, alguns exemplos abaixo (fotos: Roberto Palmerini):

Algumas Kombis tinham um tipo de painel diferente que não chegou no Brasil, com espaço para rádio, e que favorecia a execução com volante à esquerda ou à direita, por sua simetria. Alguns exemplos:

Também foram vistas Kombis sem restauração alguma e até em severo estado de degradação, quem sabe estilo “Rat Look”, como ilustram os exemplos abaixo:

Mas também compareceram muitas Kombis originais, restauradas ou não, mas com aparências muito boas, o que só comprova a grande mistura de estilos e condições (fotos Roberto Palmerini):

Chegamos ao fim da Parte 1 desta matéria e ainda há um caminho longo até o seu final.

Navegador entre as partes da matéria “Hessisch Oldendorf 2017”:

Parte 2
Parte 3
Parte 4 Final

 

 

AG

Agradeço à parceira com Ighör Tóth que, com suas fotos e informações, permitiu a elaboração desta matéria. Também agradeço a Manfred Braun, de Nuremberg – Alemanha, pelas dicas e informações.
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