Hoje a história que achei no fundo do baú nos remete a 1981 e 1982.

Nesta ocasião eu era um recém-chegado (de volta) a São Paulo, transferido do Rio de Janeiro, para trabalhar na sede da VW do Brasil em São Bernardo do Campo.

Como já disse em outras matérias, eu era o responsável pela Assistência Técnica/ Produto e assumi por determinação da diretoria o Departamento de Competições (Volkswagen Motorsport) que até então era de responsabilidade da Diretoria de Relações Públicas.

Foi nesta ocasião que fui chamado a uma reunião na qual recebi a informação de que a equipe Audi Sport estaria vindo com dois carros para o Brasil a fim de  participar de uma prova experimental, para o caso de no ano seguinte o Brasil sediar uma etapa do Campeonato Mundial de Rali (WRC).

Isto foi em 1981 e 1982, a equipe Audi deu um verdadeiro show e a principal figura deste show foi nada mais, nada menos  que a piloto francesa Michèle Mouton e sua copiloto, a italiana Fabrizia Pons, ambas nos seus trinta e poucos anos. Michèle Mouton é até hoje a única mulher a ganhar um Campeonato Mundial de Rali.

Novembro de 1984: Michèle Mouton e Fabrizia Pons em ação no seu Audi durante o RAC Rally na Grã-Bretanha (Foto: Mike Powell /Allsport)

Mas o que quero participar a vocês hoje foi a experiência inesquecível que tive de dirigi um carro destes, um Audi Rally Quattro A2 do Grupo B, de tração integral.

Estava na Alemanha para um evento da matriz e quem foi me buscar no aeroporto em Hannover foi meu colega Peter Wolf, gerente regional do escritório da VW naquela cidade e responsável, como eu, pela Assistência Técnica.

Como ele sabia que eu era fanático por automóveis, já havia participado de competições no Brasil, convidou-me para conhecer seu escritório em Hannover. Como também já disse em outras oportunidades, eu tinha a estratégia de pegar o avião na sexta-feira para chegar na Alemanha no sábado pelo final da manhã. As reuniões começavam na segunda-feira, mas para descontrair, no domingo à noite havia  um jantar de boas-vindas aos convidados.

De volta ao escritório do meu amigo, havia no showroom um belíssimo Audi Rally Quattro A2 do Grupo B igualzinho ao carro da Michèle Mouton e Fabrizia Pons, com toda mecânica de competição, arco de segurança, sistema de extintores, chave-geral externa, enfim, um carro de competição feito pela Audi Sport e que servia para os jornalistas o dirigirem para que sentissem o que é um carro destes.

A caracterização externa não existia, o carro não tinha nenhuma pintura ou nome de eventuais patrocinadores, mas era real e branco para não chamar atenção.

“Meu grande amigo,” perguntou, “quer dar uma volta?” É a mesma coisa que perguntar ao macaco se ele quer banana. Minha resposta lógica foi um enorme e sonoro JA, Danke!!! (sim, obrigado, em alemão; esse Ja pronuncia-se iá).

O Peter abriu as portas do showroom e pediu que eu manobrasse o carro colocando-o na rua. A emoção começa ao dar a partida, ligar a chave-geral interna, ligar as bombas de gasolina elétrica e outros detalhes. O ruído do motor 5-cilindros em linha de 2.110 cm³, turbo, 370 cv, era impressionante.

Estacionei na porta do escritório e sentei-me no banco Recaro de competição do lado direito, com cinto de cinco pontos ajustado e esperei o Peter chegar; ele estava fechando a casa, era sábado e não havia expediente.Quando veio em direção ao carro quis entrar pela porta direita, mas lá estava eu, e aí veio a minha maior surpresa quando ele disse “vá para o volante”.

Claro que eu obedeci, e rapidamente antes que ele mudasse de ideia, se é que isto fosse possível. Sentado ao volante, cinto de segurança ajustado, banco-concha fantástico e lá fomos nós em direção a uma Autobahn.

Eu não conhecia o carro, eu não conhecia Hannover, por sorte era sábado e pouco movimento nas ruas. Pegamos a estrada.

Já falamos e muito sobre as condições das Autobahnen na Alemanha, naquela época a velocidade ainda era 100% livre, os mais rápidos andavam na faixa da esquerda, sempre livre e os que tinham mais juízo andavam nas outras faixas disponíveis.

A orientação que me foi dada foi: “Acelere para sentir o carro, esta é uma rara oportunidade, semana que vem ele será exportado e acompanhará a equipe Audi Sport na próxima etapa do rali fora da Europa para que jornalistas convidados o dirijam.”

Audi Rally Quattro A2 do Grupo B (Foto: tech-racingcars.wikidot.com)

Estávamos a mais ou menos a 180~190 km/h, quando vejo no retrovisor do “meu” Audi um logo de Mercedes, a estrela de três pontas parecia estar sentada no banco traseiro do Audi, que sequer existia, bem dentro da minha “bunda” em português bem claro. Liguei a seta, fui para a faixa imediatamente à direita e o Mercedes nos ultrapassou.

Como uma criança quando ganha um brinquedo, o Peter me disse, “Acelera! Acelera!, dê tudo que pode, aqui na Alemanha Mercedes não anda na frente de um Audi, ainda mais este aqui todo disfarçado.”

Não pensei duas vezes, uma mudança de marcha (câmbio de cinco marchas) e uma retomada de velocidade e fui ao encalço do Mercedes.

Em poucos momentos cheguei em sua traseira, liguei a seta para esquerda (pisca-pisca) que na Alemanha, já naquele época, significava “me dê passagem”.

O Mercedes, ao invés de me dar passagem, acelerou. Deve ter pensado o mesmo que o meu colega, aqui na Alemanha Audi não anda na frente de Mercedes...

O painel era o que eu menos olhava, meus olhos estavam fixos na traseira do Mercedes e assim pude observar o olhar do “piloto” que não disfarçava sua surpresa de ver um Audi  naquela velocidade estar pedindo passagem.

Quando olhei rapidamente para o velocímetro estávamos a 260 ou 270 km/h e neste momento não deu mais para o Mercedes, que foi para a direita e seguimos o nosso caminho — reduzindo a velocidade é claro, mas muito mais adiante e assim evitar que o intruso voltasse a nos preocupar.

Meu colega vibrava com a nossa ultrapassagem, parecia fim de uma corrida e nós estávamos em primeiro.

Posso assegurar que este ato, na Alemanha, é mais comum do que se imagina. Hoje temos limites de velocidades em locais próximos a lugarejos, pequenas vilas, mas não temos pedestres atravessando em qualquer lugar. Os demais motoristas também respeitam aqueles que querem andar mais rápido.

Depois de rodar por mais 50 quilômetros pegamos uma “Ausfahrt”, saída em alemão, e consequente ponto para retorno. Neste momento tive a oportunidade de sentir o que eram os freios deste bólido, e sua tração permanente nas quatro rodas.

Voltamos ao escritório regional, coloquei o carro no mesmo salão, na mesma posição como se nada tivesse acontecido. O Peter me parabenizou pela condução segura. Nossa amizade se solidificou a ponto de sua filha ter vindo passar dois meses no Brasil e conhecido Foz do Iguaçu e todo o Norte e Nordeste, ficando por várias semanas hospedada em nossa casa.

Ainda nos encontramos em vários anos nas tais reuniões técnicas e o tema Audi Quattro sempre era lembrado. Será que o susto que dei nele foi grande?

Hoje estamos aposentados, curtindo netos e a família. Da minha parte só posso agradecer essa oportunidade de ouro, uma vez que já se passaram 35 anos e parece que foi ontem.

RB

(1.721 visualizações, 1 hoje)


Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

Publicações Relacionadas