A marca americana Chrysler foi fundada em 1925 por Walter Percy Chrysler, utilizando como suporte a extinta Maxwell Motor Company. Seguindo o estilo de divisões, a Chrysler incorporou a marca Plymouth, a DeSoto e a Dodge Brothers, valorizando este conglomerado também com a Imperial. O que mais marcou a Chrysler ao longo dos anos foram sua tecnologia inovadora e a criatividade, DNA de seu fundador.

Como exemplo, em 1934, a Chrysler introduziu o modelo Airflow, futurista para a época, cujas características aerodinâmicas eram notórias. Quem sabe por suas linhas tão inovadoras não tenha sido bem aceito no mercado. Por outro lado, as linhas Dodge, Plymouth e DeSoto, mais tradicionais, continuavam com grande aceitação, mantendo vivas, as finanças da companhia.

Chrysler Airflow duas-portas,  propaganda da época

A Chrysler apresentou várias novidades tecnológicas ao longo dos anos. Citando algumas, motor com pistões de alumínio, freio com acionamento hidráulico nas quatro rodas, filtros de ar e óleo substituíveis, suspensões com menor peso, incorporando eixo dianteiro com perfil tubular, carroceria monobloco, acionamento  elétrico dos vidros, controle automático de velocidade e ações de aerodinâmica e reduções de massa de maneira geral, visando menor consumo de combustível.

A Chrysler também foi uma das pioneiras a adotar rádio totalmente transistorizado, o Philco 914, no modelo Imperial em 1955. Como destaque, o lendário motor V-8 Hemi de 300 hp que impulsionou um dos modelos mais carismáticos da marca, o Chrysler 300 C entre 1955 e 1957, que inclusive se destacou nas corridas da Nascar, vencendo metade das competições de que participou.

O nome “Hemi” é uma feliz abreviação de Hemispherical Combustion Chamber, câmara de combustão hemisférica, mesmo com comando de válvulas no bloco, a principal característica deste V-8.

A série 300 continuou com as versões “D”, “E”, “F”… “L”, a última até 1965. Creio que a década de 1960 tenha sido a mais bem-sucedida da fabricante, com o Dodge Dart, o Dodge Charger e o Plymouth em suas varias versões, o Barracuda, o Road Runner e o GTX, entre outros.

Plymouth Barracuda 1965, com seu vidro traseiro enorme, ícone eterno

 

Motor Chrysler V-8 Hemi, histórico e cultuado até hoje em dia pelos seus admiradores

A Chrysler contribuiu também com inúmeros veículos conceituais que marcaram com seus detalhes construtivos e que mesmo não tendo saído do papel e/ou protótipos, muitos deles acabaram servindo de base para os modelos de série da marca.

Chrysler TurboFlight: carro-conceito com o teto basculante para facilitar a entrada dos ocupantes e o detalhe dos “rabos de peixe” servindo suporte para aerofólio traseiro

Os anos de 1970, particularmente de 1975 em diante, foram difíceis para a Chrysler, principalmente com a crise do petróleo de 1973, o que a levou a uma grave crise financeira. Foi salva da falência com um empréstimo de 1,5 bilhão de dólares, concedido pelo governo americano. Esse empréstimo foi histórico e deveu-se ao carisma do seu novo presidente-executivo Lee Iacocca, contratado em 1980. A vultosa importância foi integralmente devolvida antes do prazo de seis anos.

Continuando com sérias dificuldades administrativas, também na década de 1980, a Chrysler foi adquirida por US$ 35 bilhões de dólares pela Daimler-Benz em 1988, formando-se a DaimlerChrysler AG, o que contribuiu para valorização da marca, já iniciando a década de 1990 com grande estilo com o lançamento do Dodge Viper.

Dodge Viper RT/10, 1992

Em 2001 chega o Chrysler PT Cruiser, um modelo compacto com estilo “vintage”, prova de que o espírito de ousadia da marca estava mais vivo do que nunca. Ficou em produção até 2009 com extremos tipo “ame-o ou odeie-o” por parte do consumidor. Na realidade o modelo traduzia mais uma vez o espírito criativo e inovador da marca Chrysler, herança de seu fundador.

PT Cruiser,  linhas vintage, herança da ousadia e criatividade Chrysler, sem dúvida o DNA de seu fundador

Em 2007 a Daimler AG vendeu o negócio Chrysler para o Grupo Cerberus LLC, dos EUA, por US$ 7 bilhões, a marca continuou existindo, até  que a Fiat SpA aos poucos começou a adquirir capital da Chrysler para, em 12 de outubro de 2014 absorvê-la totalmente. No processo, formou-se a uma nova fabricante, a Fiat Chrysler Automobiles (FCA), deixando de existir as fabricantes Chrysler Corporation e a Fiat SpA. Mas a linha Chrysler, que compreende as marcas Chrysler, Dodge, Ram, Jeep e Mopar, bem como toda a linha Fiat, continuaram e continuam a existir.

A marca Chrysler permanece forte e presente em mais de 120 países ao redor do mundo. Com seus seis Centros Técnicos, suas 14 fábricas mundiais e uma rede com mais de 4.000 concessionárias, a Chrysler-marca continua sendo um paradoxo, fazendo veículos modernos e de qualidade, porém nunca saindo do seu terceiro lugar entre as “Três Grandes” nos Estados Unidos. Na realidade, os automóveis da Chrysler sempre foram parte do tripé dos carros mais vendidos nos Estados Unidos, junto com a Chevrolet e a Ford, estas duas se revezando continuamente entre os dois primeiros lugares em vendas.

O emblema “Blue Pentastar” marcou a imagem da Chrysler durante muitos anos e nunca deveria ter sido descontinuado.

O Pentastar azul, símbolo que identifica eternamente a marca Chrysler

Destaque para a Mopar, marca registrada Chrysler e divisão de peças da fabricante, que fornece peças e acessórios para o grupo, fazendo 80 anos este ano. A Mopar foi adotada pelo consumidor como imagem da Chrysler, sendo mundialmente reverenciada.

Miss MoPar, propaganda antiga dos acessórios e peças originais Chrysler; o nome Mopar era grafado com o “P” maiúsculo

Como destaque, em outubro de 1999 foi inaugurado o Walter Chrysler Museum em Auburn Hills, Michigan, em homenagem ao fundador da fábrica americana. As marcas Chrysler, Dodge, Jeep, Plymouth, DeSoto, Nash, Hudson e Willys, entre outros, recordam os bons tempos em que os veículos americanos reinavam praticamente sozinhos no mundo do automóvel. Infelizmente o rico museu deixou de existir em dezembro último.

Walter P. Chrysler Museum, acervo da empresa com a maioria de seus modelos preservados como novos,  mas que não existe mais

De Soto, com suas linhas aerodinâmicas e grade exuberante, ilustração-retrato de uma época

A marca Chrysler no Brasil

A Chrysler, durante a década de 1950, montava os veículos Dodge e Plymouth no Brasil em regime CKD, através do Grupo Brasmotor, sempre vislumbrando oportunidades para a expansão de seus negócios na América do Sul. Em 1951 a Brasmotor passou a montar o Volkswagen, até que a fabricante alemã se instalasse no Brasil em 1953 e assumisse a montagem. Nesse período as concessionárias Chrysler vendiam e davam assistência técnica aos VW sedã e Kombi.

Demorou mas aconteceu, quando em 15 de agosto de 1967 a Chrysler absorveu a francesa Simca e suas instalações em São Bernardo do Campo e, mais ainda, no final deste mesmo ano adquiriu a fábrica de caminhões  International  Harvester Máquinas S/A e suas instalações na cidade de Santo André.

Fábrica da Simca em São Bernardo do Campo (Foto: www.simca.com.br)

Os veículos da Simca continuaram em produção, porém com a forte ênfase de serem produzidos pela Chrysler. Na realidade, somente o Esplanada, último projeto da Simca, é que foi o início de tudo para a Chrysler do Brasil. Com grande investimento em qualidade visando identificar e corrigir os modos de falha do modelo, o Esplanada começou a cativar o público pouco a pouco, com forte ajuda da garantia de dois anos ou 36 mil quilômetros para o veículo. Com motor V-8 Emi-Sul de 2.414cm³ e 130 cv, o Esplanada tinha excelente aceleração, com velocidade máxima de 160 km/h.

Note-se que a Chrysler adotou um novo comando de válvulas que aumentou consideravelmente a potência em baixas rotações, melhorando a dirigibilidade e facilitando partidas em rampa. O conforto e a estabilidade eram pontos de destaque do Esplanada, com carroceria bem isolada acusticamente e passando qualidade percebida ao consumidor. No Salão do Automóvel de 1968 a Chrysler do Brasil apresentou o modelo 1969, incluindo sua versão de tons esportivos, o GTX.

Chrysler GTX 1969 sendo testado pela revista Quatro Rodas

O GTX era dotado de câmbio de quatro marchas e alavanca no assoalho, conta-giros, volante esportivo Walrod, console central, bancos dianteiros individuais reclináveis, duas falsas entradas de ar no capô, teto de vinil, faixa preta pintada na parte inferior das portas acompanhando toda a lateral do carro, rodas mais largas com pneus radiais e faróis de longo alcance instalados no para-choque. Particularmente eu gosto muito do GTX e creio ser ele um dos ícones dentre os veículos já produzidos no Brasil.

Com forte trabalho e com grandes incentivos por parte do governo brasileiro, facilitando a importação das máquinas, equipamentos e componentes, em pouco tempo a fábrica de Santo André já estava produzindo a linha de caminhões Dodge, incluindo o seu grande motoro V-8-318.

Protótipo Caminhão Dodge, foto de estúdio (Acervo do autor)

Já a fábrica de São Bernardo do Campo iniciava a produção-piloto do moderno Dodge Dart. Seu motor era o mesmo dos caminhões Dodge, o moderno e resistente V-8 318, 5,2 litros e 198 HP (potência SAE bruta) que empurrava o veículo a mais de 180 km/h, fazendo o Dart o mais veloz carro brasileiro de produção em série até então.

Dodge Dart SE em teste da revista Quatro Rodas

E foi nesta época, agosto de 1969, que comecei a trabalhar na Chrysler, mesmo ainda não sendo formado como engenheiro. Fui técnico de processos de produção na linha de montagem dos caminhões e também na linha de usinagem, montagem e teste de bancada do motor V-8. Após minha formatura fui promovido a engenheiro de Processos de Produção e fiquei até 1971, quando fui convidado a trabalhar na engenharia do produto da Ford no seu Centro de Pesquisas, no bairro Rudge Ramos, São Bernardo do Campo.

Eu sendo cumprimentado pelo Mr. Patrick, gerente da fábrica da Chrysler em Santo André (Acervo do autor)

Preservando imagem de qualidade e durabilidade, a Chrysler do Brasil lançou outros vários modelos na plataforma do Dart, culminando no Charger que se tornou a imagem lendária da marca no Brasil por suas linhas e seu desempenho. Mesmo com a crise do petróleo em 1973 a Chrysler nunca abriu mão de seu supermotor V8-318, cultuado em prosa e verso pela mídia e principalmente pelos consumidores, mantendo forte imagem de potência e durabilidade.

Dodge Charger, foto de estúdio (Acervo do autor)

E veio o Dodge 1800, apresentado no VIII Salão do Automóvel em novembro de 1972, como modelo 1973. O “Dodginho” foi à versão brasileira do inglês Hillman Avenger com várias adaptações para o nosso mercado, principalmente no seu motor, que teve aumentada a cilindrada de 1500 para 1800 cm³ para compensar a baixa octanagem da gasolina brasileira de então. Oferecido somente na versão duas portas, teve seu desenho interior modificado em relação ao projeto original, revestimentos de porta, painel, volante de direção, manopla de câmbio, bancos, além das lanternas traseiras e da grade dianteira.

Com muitos problemas no lançamento, principalmente no trambulador do câmbio, o Dodge 1800 foi se firmando no mercado através melhorias contínuas de qualidade e mudou de nome no modelo 1976, passando para Dodge Polara, quando foi eleito o “Carro do Ano” pela revista Autoesporte. Até uma pequena perua quatro portas derivada do Dodginho foi idealizada pela engenharia da Chrysler, porém não viabilizada para produção. Em 1978 o Polara passou por facelift, com nova frente, faróis retangulares, novas lanternas traseiras e o brasão da marca na grade frontal. Em 1979 o Polara disponibilizou  o câmbio automático de quatro marchas como opção ao manual, de quatro marchas também.

Dodge Polara, foto de estúdio (Acervo do autor)

Em 1980 a Chrysler do Brasil lançou a última versão do Dodge Polara, a GLS, com vários itens de conforto e também tecnológicos, carburador de corpo duplo, sistema de ventilação com aquecedor, rádio/toca-fitas, antena elétrica e pneus radiais, entre outros. Nesta fase, a Chrysler do Brasil já pertencia à Volkswagen do Brasil e da Argentina, que a partir de 1981 encerrou a produção das linha Polara e Dart, deixando em produção somente os caminhões Dodge, que ficariam até 1983 com o início da produção dos novos caminhões Volkswagen.

Na Argentina, onde começou a ser produzido em 1973 pela Chrysler-Fevre na configuração original Hillman — quatro portas e motor 1.500-cm³ — mudou de nome para VW 1500 em 1982 e ficou em produção até 1991.

Hoje continuo homenageando a Chrysler, que deveria ter tido melhor sorte no mercado mundial, com seus veículos inovadores, às vezes mal compreendidos pelos consumidor.

Dodge Charger 1970, todo perfumado

CM

(1.972 visualizações, 1 hoje)