Essa história se passou quando eu era consultor técnico em uma concessionária Chevrolet. Mas antes de continuar creio ser interessante contar ao leitor do AE como me tornei um consultor técnico.

Tudo começou com um amigo que trabalhava na concessionária VW da cidade. Ele me perguntou se eu queria trabalhar testando carros após os serviços realizados, pois ele sabia de minha aptidão para dirigir. Eu disse que sim, e ele fez a ponte com o gerente da empresa. Poucos dias depois eu estava trabalhando e já conquistado boa parte dos mecânicos em razão do meu bom trabalho. Mas fiquei pouco tempo nessa empresa. Tive uma discussão com o diretor, motivos não faltaram para eu ficar insatisfeito e aborrecido.

Mas logo em seguida outro grande amigo e mecânico, — o Madruga, como era conhecido — me indicou para o gerente de serviço da tal concessionária Chevrolet e lá fui eu fazer a entrevista, acabando sendo contratado.

Inicialmente meu trabalho de consultor técnico foi receber o cliente e dar entrada nas ordens de serviço, passar orçamentos, etc. Havia dois líderes de equipe incumbidos de testar os carros.

Chegou um momento em que os líderes viram que não estavam dando conta de dar suporte às suas equipes nos testes. Aí entra em cena novamente o meu grande amigo, o Madruga. Ele não gostava de ficar parado, era superativo e se cansou de esperar seu líder para testar um carro. Caminhava de um lado a outro, até que veio na recepção e me chamou para testar o carro. Disse-lhe que não tinha autorização, mas ele insistiu, “você testa carro melhor do que eles”, referindo-se aos líderes de equipe.

O Madruga havia trabalhado comigo na concessionária VW e foi me puxando em direção ao carro, “vamos, vamos preciso de um diagnóstico mais preciso da falha desse carro”. E lá fui eu.

Quando passamos pela recepção da oficina o gerente de serviço me viu saindo dirigindo o carro. Não fez nada, apenas olhou. No retorno do teste o Madruga foi falar com o gerente de serviço e explicou o fato. O gerente então me procurou e disse que quando os líderes não conseguissem dar conta do serviço eu poderia testar os carros. Não levou mais que um mês para que praticamente todos os mecânicos se reunissem para pedir que somente eu testasse os carros. Não fiquei surpreso, pois eu sabia da preferência deles por mim para esse trabalho.

Daquele dia em diante fiquei responsável pelo teste de todos os carros com passagem pelo departamento de serviço. Em casos de falhas ou problemas relatados no carro pelos clientes, eu fazia também o teste antes do serviço. Todo carro era testado e somente entregue perfeito. Eu também testava todos os carros 0-km após a revisão de entrega. O controle de qualidade estava literalmente em minhas mãos. Eu trabalhava com entusiasmo, apaixonado pelo que fazia.

Eu tinha quatro trajetos predeterminados para os testes. O primeiro tinha pouco mais de seis quilômetros, com ruas asfaltadas e de pedras irregulares. O segundo era um pouco mais longo, de aproximadamente 15 quilômetros, com diversos tipos de pista. O terceiro trajeto, com cerca de 30 quilômetros, já permitia um teste mais apurado do desempenho geral do carro. O quarto trajeto era específico para testes de desempenho e de falhas intermitentes, com mais de 50 quilômetros em boas estradas. Na prática, eu podia fazer alterações nos trajetos caso fosse preciso para um melhor resultado do teste.

Para o leitor ter uma noção da atividade, cheguei a testar mais de 100 carros num único dia, entre novos e os revisados ou reparados. Era comum estender a jornada de trabalho para dar conta de entregar todos os carros em perfeita ordem e limpos aos clientes.

 

“Não passa de 200 km/h”

Certo dia, uma recepcionista me chama e diz: “O cliente está reclamando que o carro não passa de 200 km/h”. Fui à recepção e lá estava o cliente e o carro, um Omega CD 3-litros já conhecido meu. Era um carro de uso da diretoria de uma grande empresa. O motorista confirmou-me sua reclamação de que o carro não passava de 200 km/h. Pedi à minha colega de trabalho para abrir a ordem de serviço com a reclamação “Carro não passa de 200 km/h” e o cliente, pelo seu motorista, assinou a O.S. Nesse momento ele me diz que o carro tinha que ficar pronto até o final da tarde.

Olhei para o pátio e vi que estávamos em um dia normal de serviço. Expliquei-lhe que encontrar o problema, passar orçamento e receber a aprovação poderia tomar muito tempo e isso implicaria na possibilidade de não entregar o carro no mesmo dia. Uma ligação e veio a autorização da empresa para fazer o que fosse preciso para entregar o carro a tempo. Não fizeram questão de orçamento.

Para fazer o serviço chamei o Madruga, pois era um mecânico completo. Ele tinha muita experiência em sistemas mecânicos, elétricos e eletrônicos. Não tinha o que ele não consertasse.

Expliquei tudo a ele e ainda reforcei, “quero este Omega mais rápido do que nunca, olhe tudo, de ponta a ponta.”

No meio da tarde vejo o belo Omega estacionado numa das vagas para os carros a serem testados. Fui em direção ao boxe do Madruga e lhe perguntei se queria ir comigo, pois eu tinha essa opção, levar o responsável pelo serviço. Mas ele foi direto: “Tenho certeza de que vai passar de 200 km/h, e com muita folga”. Explicou-me que havia revisado tudo e o carro estava agora em perfeita ordem para rasgar a estrada.

Nesse caso eu optei pelo trajeto mais longo, pois permitia teste de velocidade máxima na longa reta.

Ao sair com o Omega imediatamente percebi o perfeito funcionamento do motor, e durante os primeiros quilômetros do teste, ainda em zona urbana, tratei de me conectar ao carro, desligando o som e sentindo a reação a cada ação por mim realizada.

Na última lombada antes de deixar a zona urbana, parei o Omega e engatei a primeira marcha. Os 165 cv a 5.800 rpm foram colocados para trabalhar, e o tempo todo na sequência de marchas o C30NE cantava afinado, típico de motor europeu que não tem medo de girar alto, graças a seu pequeno curso de apenas 69,8 mm.

Mas minha alegria acabou quando, ainda em quarta marcha, a pleno, após vencer uma pequena elevação na pista e percorrer pouco menos de um quilômetro, avisto um policial rodoviário estadual com o radar portátil na mão. Por segundos eu não soube o que fazer, mas em seguida fui com vontade ao pedal de freio e freei com tudo. Enquanto os pneus choravam, pude olhar pelo retrovisor e ver o policial com as mãos levantadas gesticulando. Quando o Omega estava quase parando eu o pus no acostamento.

Um novo olhar pelo retrovisor e resolvi engatar e ré. Voltei até onde estava o policial que agora já parecia um gorila esbravejando. Carro parado, abro o vidro e o policial logo vem dizendo: “Está louco? O que pensa que está fazendo?” Nesses momentos é melhor não falar nada e ouvir. Ele pediu meus documentos e o do carro. Aí começou um longo papo, já em tom mais baixo, tranquilo e educado.

Depois de verificar a documentação, ele me mostra o radar. “Está vendo, você estava a 199 km/h, uma loucura, nem sei o que fazer com você!” Então peguei a ordem de serviço, meu crachá e expliquei a situação e o motivo de estar em alta velocidade. O policial chamou pelo rádio seus superiores e eles entraram em contato com a concessionária e com a empresa proprietária do Omega. Quase uma hora depois veio a comunicação para me liberar. Nesse tempo eu já estava praticamente amigo do policial — lembrou-se de mim, pois levava o Opala de serviço para fazer revisões.

O rádio chama, policial atende e vem a resposta para me liberar sem lavrar a multa. No momento de o policial me devolver os documentos, não pude deixar de lhe dizer que meu trabalho ainda não estava terminado. Ele franziu a testa e pediu explicações. Disse-lhe, então, “o carro não passou de 200 km/h” e sorri. Argumentei que era preciso ver se realmente o carro passaria de 200 km/h e ir um pouco acima disso. É claro que no velocímetro os 200 km/h tinham já ficado para trás, mas o fato é que eu ainda não estava satisfeito; queria mais.

Foi a brecha que encontrei para seguir com o teste. O policial pensou um pouco e perguntou se eu ia acelerar na longa reta logo à frente, com mais de 5,5 km. Disse que sim. Então me desejou uma boa tarde e cuidado, muito cuidado. Entrei no Omega e saí normalmente. Estrada livre e motor a pleno.

O “Absoluto”, como ficou conhecido nas propagandas da GM, ganhava velocidade com uma vitalidade incrível. A marca dos 200 km/h ficou novamente para trás e o ponteiro seguia firme e forte. Quando atingi 230 km/h pelo velocímetro percebi que que tudo estava bem, nada mais a reclamar. Fiz o retorno e novamente a reta pela frente, mas agora em velocidade normal, curtindo todo conforto e luxo do grande sedã.

Passei pelo policial, um leve toque na buzina e um acenar de mão foram suficientes para conseguir um sorriso de quem instantes antes havia me parado disposto a me devorar vivo.

De volta à concessionária, carro para lavagem completa e no final do dia entregue ao cliente pessoalmente por mim.

Ele perguntou: “O carro ficou bom?”

Respondi: “Perfeito.”

E assim terminei mais um dia de trabalho, com a certeza de ter feito o melhor.

Dedico esta história ao meu grande amigo e excelente profissional Madruga, ele preferia ser chamado assim. Infelizmente não está mais entre nós, mas a lembrança dos bons momentos juntos ficará para toda minha vida.

Jacson Maffessoni
São José dos Pinhais, PR

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