Três vezes campeão do mundo de Fórmula 1, Sir John Young Stewart tem muito a contar. O livro tem mais de 500 páginas, e os assuntos não se restringem ao automobilismo. Escrito em 2009, Stewart discorre logo no começo sobre como escolheu o título (Vencer não é o bastante), e isso já é curioso e faz o leitor ávido por entender toda a história.

Sua fórmula para o sucesso, tanto nas corridas como na vida,  é simples: vencer (ao longo do tempo) + integridade + cuidado = sucesso

Seu começo trabalhando com o pai no posto de gasolina e oficina, em Dumbarton, Escócia, o despertou para a necessidade de organização em tudo que se faz, além de grande atenção aos detalhes.

Tudo na obra está colocado de uma forma clara, embora as situações pela qual o escocês passou na sua vida tenham sido complicadas e desafiadoras. Seus relatos sobre as mortes dos amigos e colegas de profissão emocionam, e fazem entender perfeitamente sua determinação em aumentar a segurança dos autódromos, muitos deles absolutamente ridículos pelos requisitos de hoje ao se construir e manter as pistas de corrida.

Sua grande capacidade de comunicação falada é notável, tanto em entrevistas quanto para quem o viu pessoalmente, como tive a chance de presenciar num congresso da SAE (Sociedade dos Engenheiros da Mobilidade) em São Paulo alguns anos atrás, quando Barrichello era piloto da equipe Stewart. Essa habilidade nasceu em parte pela sua dislexia, mal que acomete muitas pessoas, e faz com que palavras, letras e fonemas escritos não sejam entendidos ou misturados de forma incompreensível. Crescendo num tempo em que não se conhecia a doença, Jackie era tratado apenas como de intelecto não desenvolvido, e só foi saber o que ele tinha o problema aos quarenta e dois anos, quando seu filho mais novo, Mark, foi diagnosticado com o problema e o médico fez os mesmos testes com o pai.

Isso tudo não o impediu de conseguir tudo que conseguiu, e isso fica como uma lição a todos, sendo o principal, segundo o autor, a atenção às pessoas, não apenas àquelas que nos ajudam a conquistar o que queremos, mas todas ao nosso redor, independente de posição, dinheiro, profissão ou qualquer outro rótulo que lhes seja atribuído.

Na parte das corridas, Stewart conta e presta sua homenagem a todos que o ajudaram e ensinaram, começando pelo irmão mais velho, Jimmy, que o levava para as corridas desde criança, para ajudar na equipe pela qual corria, e depois, o ensinando a dirigir desde os 12 anos.

Outra pessoa de importância gigante foi o construtor Ken Tyrrell, que desafiou a si e sua equipe para entrar na Fórmula 1, obtendo sucesso rápido com a clareza e objetividade ímpares. Jackie aceitou o desafio de ir para a F-1 com Tyrrell, mesmo recebendo ofertas da Cooper,  uma equipe já estabelecida na categoria. Foi um dos grandes amigos de Stewart por toda a vida, assim como os mecânicos e técnicos que com ele trabalharam e depois foram convidados a fazer parte da Stewart Grand Prix, mais de vinte anos depois do seu último título em 1973.

Como muitos sabem, Jackie Stewart ficou conhecido pela suavidade e precisão com que sempre dirigiu e pilotou. Ele explica que é possível andar mais rápido poupando o carro em todos os sentidos, do que sendo bruto e seco com os comandos. Sua finesse ao dirigir o levou a trabalhar como consultor para a Ford dos dois lados do Atlântico por mais de 40 anos, e no livro fala sobre sua parceria com Richard Parry-Jones, ex-piloto de rali e a certo tempo o diretor global de desenvolvimento da Ford. O trajeto usado por ambos para avaliar carros em desenvolvimento e modificações, na Escócia, está detalhado no livro, e Stewart dá o crédito desse percurso ao jornalista Malcolm McDougall, do jornal escocês Daily Record, que lhe mostrou a variedade de tipos de pistas, pisos, relevo e altitudes que o permitiam entender rapidamente o comportamento de qualquer carro, já que pode ser coberto em pouco mais de uma hora e vinte minutos, sem ser necessário andar rápido todo o tempo, como ele deixa claro.

As ações dentro da Ford e sua habilidade e convicção no bom trabalho resultaram em vários modelos ótimos para se dirigir, como o Mondeo, o Ka e o Focus, e ele conta as crises devido à sua insistência em melhorar um problema no sistema de direção do Mondeo, que resultou em atraso no início de produção, mas que evitou que o carro fosse criticado pela Imprensa inglesa, sabidamente uma das mais insistentes nas qualidades dinâmicas de qualquer modelo e marca.

Stewart teve (e tem) amigos em várias profissões, sendo influente com pessoas de idades , nacionalidades e origens completamente diferentes. Há um capítulo sobre o Rei Hussein, da Jordânia, e o profundo respeito que nutria e demonstrava por essa personagem única, que era um entusiasta dos automóveis e das corridas. Hussein foi comentado no post que escrevi sobre Stan Mott. Stewart conta a alegria de Hussein ao pilotar um Fórmula 1 da equipe Benetton-Ford, parte muito divertida do livro.

Rainha Noor e Rei Hussein, da Jordânia, Paul Stewart no cockpit, o Rei Konstantinos da Grécia e Jackie Stewart, em dia de diversão

Fala também sobre pilotos do passado e de hoje, como o incrível Jim Clark, que foi quem lhe disse para pilotar para Ken Tyrrell pois o futuro de vitórias estava ali, sobre Graham Hill, um cara sempre de bem com tudo e todos, e que salvou Stewart em um acidente do GP da Bélgica de 1966, abandonando sua corrida para ajudar a tirá-lo de um carro todo retorcido e vazando gasolina durante 25 minutos, lembrando que quem atravessou a pista para conseguir uma ferramenta para remover o volante foi Bob Bondurant, o americano que ficaria famoso pela sua escola de pilotagem que funciona ainda hoje. Depois dessa, Stewart passou a levar dentro do carro uma chave de boca para soltar o volante.

Chave de boca presa ao volante com fita, para emergências

Emerson Fittipaldi é lembrado como aquele que diminui muito a tranquilidade de Stewart nas pistas, depois que ele já tinha o título de 1969 e 1971, pois Emerson aprendeu muito rápido e se tornou o grande adversário a ser batido. O companheiro de equipe de Emerson na Lotus, Jochen Rindt, foi o único campeão do mundo póstumo (depois de falecido), e Stewart escreve muito sobre ele, amigo e vizinho na Suíça, uma perda que lhe afetou profundamente e o fez pela primeira vez vislumbrar a aposentadoria das pistas.

Capítulo especial é aquele sobre François Cevert, o francês companheiro na Tyrrell que faleceu na classificação para a última corrida de 1973, quando Stewart já era campeão pela terceira vez. Ao contrário do que se disse à época, Jackie encerrou sua carreira nessa corrida não pela morte chocante do amigo que ele tratava como irmão, mas antes, numa decisão tomada em abril, seis meses antes, e que apenas Ken Tyrrell, Walter Hayes e outro executivo da Ford sabiam.

Sua carreira pós-corridas é notória, com décadas a serviço de empresas variadas, como Rolex, Moët & Chandon, Ford, Royal Bank of Scotland, além de presidente ou sócio honorário de clubes de tiro ao pombo de barro — sua primeira carreira esportiva, ainda antes do automobilismo – e suas ações filantrópicas.

Grande também ler o que ele descreve como um dos maiores desafios de sua vida, a criação de sua equipe de Fórmula 1 junto com a ajuda do filho Paul, que também correu em categorias como a Fórmula 3 e 3000 e andou muito bem, e a incrível peregrinação pelo mundo em busca de patrocínio. Suas técnicas de conversa e de negociação são por ele descritas como a mais direta e rápida possível, sem margem para enrolações ou expectativas falsas. De 1997 a 1999 na F-1, a Stewart Racing foi comprada em 1999 pela Ford, que transformou-a em Jaguar Racing e depois em 2005 passou a ser a atual Red Bull.

Sua companheira Helen, mãe de Paul e Mark é retratada como uma pessoa da mais alta capacidade de cuidar de sua carreira antes dos filhos, e depois, como apoiadora incondicional da carreira do marido, mesmo ao ver morte após morte de outros pilotos e partilhar do sofrimento das esposas destes, várias delas bem próximas da família Stewart.

Paul Stewart, o filho mais velho, foi acometido de câncer já quando adulto, e Jackie buscou o melhor tratamento possível, a Clínica Mayo nos EUA, até que Paul fosse curado. A clínica e seus médicos são descritos de forma direta, explicando que aquele tipo de tratamento não existe no Reino Unido e nem em outro lugar da Europa, com os americanos estando muito à frente nesse campo. Jackie conta que quase em seguida, ele e a esposa tiveram também seus tumores, todos curados, numa inacreditável probabilidade.

Discorrendo sobre o futuro do automobilismo, Stewart fala bastante sobre a importância do Reino Unido com sua enorme quantidade de autódromos, fábricas de carros e componentes, equipes de diversas categorias e deixa claro que não se deve dormir sobre os louros da vitória, fechando o raciocínio com o título que escolheu para o livro, vencer não é o bastante. Sempre deve-se fazer mais e melhor, e com total respeito às pessoas, pois este é o único jeito de viver bem e corretamente.

Um livro espetacular, sem mais.

Para saber mais sobre Stewart, vale ler a matéria do jornal The Scotsman:

http://www.scotsman.com/sport/motorsport/sir-jackie-stewart-on-racing-friends-and-family-1-3060451

JJ

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