Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas FUSCAS VETERANOS – PARTE 2 – Autoentusiastas

FUSCAS VETERANOS – PARTE 2

Na Parte 1 começamos a desvendar os segredos dos Fuscas Veteranos com base na incrível coleção particular do Richard Hausmann, de Erlangen, Alemanha. Esta coleção é exemplar e didática e nesta Parte 2 vamos acompanhar uma das restaurações em detalhes. E mostraremos detalhes de outro que desvenda outras características. São mais de 100 fotos.

Por anos ficou escondido no celeiro

Quando o Richard estava realizando a sua grande aventura com Fuscas Veteranos, que foi a Vintage Volkswagen Challenge, de Erlangen na Alemanha até Pequim, capital da China, feita exclusivamente com Volkswagens veteranos, realizada em 2009, ao passarem por Moscou, na Rússia, foi encontrado este KdF 82e, de maio de 1943, também produzido durante a Segunda Guerra Mundial. Este tipo de carro tinha o chassi de um jipe leve (“Kübelwagen”) e a carroceria de um Fusca. Portanto ele tinha uma suspensão mais alta devido aos redutores nas rodas traseiras, redutores estes que acabaram sendo herdadas pelas primeiras Kombis.

Este KdF passou a ser apelidado de “Russo” e foi originalmente fornecido em para o Heereszeugamt Kassel – Centro de logística de equipamentos do Exército, da cidade de Kassel, em 21 de maio de 1943. Este centro era o que ficava mais próximo da fábrica de Wolfsburg e recebia os jipes e carros que depois eram enviados para outros centros ou diretamente para as respectivas unidades. Este carro acabou em Moscou onde foi resgatado em 2013. Os russos, depois da guerra, levaram o que puderam para a Rússia, fábricas inteiras foram desmontadas e levadas como compensação de guerra. Como eles não tinham como refazer as fundações de máquinas pesadas elas foram cortadas em blocos, como um grande quebra-cabeças, levadas para a Rússia para posterior remontagem. Na foto de entrada se pode ver este carro em seu “esconderijo” moscovita.

Algumas fotos do resgate deste carro. É interessante observar que também neste foi feita a modificação dos faróis, visto que não se tinha acesso a peças de reserva (Fotos: Richard Hausmann):

O trabalho de restauração foi confiado ao mundialmente renomado mecânico, artesão e especialista em Veículos Volkswagen Veteranos polonês, Jacek Krajewski, de Varsóvia. Foi mais um tremendo desafio fazer voltar às condições de origem um carro com toda esta carga histórica e bastante depredado pelos usuários anteriores e pelo tempo.

O Jacek Krajewski está no centro ladeado por dois artesãos funileiros de sua equipe; atrás, um dos KdF do Richard sendo restaurado: ele está segurando o “nariz” do porta-malas do lado esquerdo do carro (Foto: Richard Hausmann)

Uma das metas neste tipo de restauração é manter o maior número possível de itens originais do carro, em especial nestes KdF que tinham o número da carroceria puncionados em várias partes dela, incluindo as portas. Isto representa um grau maior de dificuldade, pois não se trata só de ir trocando peças.

O que será apresentado adiante certamente será de interesse especial para aqueles que já enfrentaram um processo de restauração de um veículo antigo, e servirá como termo de comparação. O tipo de restauração aplicado pelo Jacek e sua equipe é muito profissional.

Na “autópsia” inicial do carro foram sendo levantados os problemas, que não eram poucos. Seguem algumas fotos desta fase inicial dos trabalhos (Fotos: Richard Hausmann)

A autópsia, como era de se esperar, apontou uma série de problemas, mas o quadro geral dos trabalhos já ficou mais claro. Os trabalhos prosseguiram com a retirada da tinta e uma pintura de fundo protetor para continuar o trabalho. O processo de restauração da lataria foi “indo mais a fundo” e a desmontagem das peças continuava (Fotos: Richard Hausmann):

O que se pode ver é que é necessário um conhecimento profundo destes carros veteranos para saber onde estavam as nervuras, como era o desenho original e como recuperar todas estas características originais numa chapa muito castigada. Coisa para profissionais de grande capacidade. A tampa do motor é um item bastante complexo, pois estes carros tinham um ressalto onde era aplicada a placa traseira.

Aí começam a aparecer os itens acabados e o trabalho de recuperação da carroceria foi chegando ao fim. O chassi fica pronto e parece recém ter saído da fábrica (Fotos: Richard Haussmann):

Como o chassi ficou pronto, está com as suspensões dianteira e traseira instaladas, sistema de direção, freio e motor operacionais, então que tal fazer um teste com ele? Assistam ao vídeo do teste, enviado pelo Richard Hausmann:

 

Os trabalhos na carroceria também foram progredindo e o resultado foi aparecendo como podemos ver nas fotos abaixo. Comparando com as fotos de quando o carro foi resgatado a diferença é enorme; um item que chama atenção é a recuperação das portas (Fotos: Richard Hausmann):

Seguindo no detalhamento desta restauração vamos ao ponto no qual a carroceria já foi pintada na cor característica dos veículos do Deutsches Afrikakorps, ou Afrika Korps, que foi o conjunto de forças alemãs na Líbia durante a Campanha do Norte da África na Segunda Guerra Mundial, para dar apoio às forças de Mussolini. O resultado após dos preparativos da pintura e da pintura em si podem ser vistos nas fotos abaixo de Richard Hausmann:

Agora temos a carroceria pronta e o chassi também, chegou a hora do casamento que é a união destes dois componentes formando o carro. Neste caso esta atividade é manual e o procedimento foi registrado neste vídeo:

O trabalho prosseguiu com a parte elétrica, estofamento e detalhes. O carro vai ficando pronto e nós vamos ver alguns destes itens nestas fotos de Richard Hausmann:

Depois de concluídos os trabalhos em Varsóvia, o KdF 82e foi transportado para Erlangen num reboque e entregue na casa do Richard. Na foto abaixo o momento da entrega do carro restaurado:

Mais um carro da coleção do Richard

Vamos apresentar mais um dos carros da colação do Richard. Este eu vi em ação, pois foi com este carro que ele foi participar do 10º Encontro Internacional de Volkswagens Veteranos de Bad Camberg em 2015 e nós cruzamos na estrada e no evento em si. Ele faz questão de ir aos eventos rodando, afinal alguns de seus carros foram até Pequim!  Acabamos chegando praticamente na mesma hora no Hotel Taunus Residence em Bad Camberg, que eu, aliás, recomendo. Uma foto deste encontro em Bad Camberg:

Da esquerda para a direita: eu, Ighör Tóth (amigo e fuscamaníaco brasileiro que veio ao evento) e Richard Hausmann; atrás de nós o Fusca que estamos tratando em foto na entrada do Hotel Taunus Residence (Foto: Nicole Tóth)

Trata-se do Fusca standard tipo 11, de agosto de 1946, que foi fornecido em 28 de agosto de 1948 para as Forças de Ocupação Francesas; é um dos primeiros carros do pós-guerra feito durante a ocupação inglesa. Como vários outros carros desta coleção, este carro tem motor, chassi, carroceria, câmbio e eixo dianteiros com “matching numbers”, ou seja, com a numeração original de fábrica! O carro foi adquirido em 2013 e pertencia a uma coleção. Como o Richard estava muito engajado profissionalmente do outro lado do mundo, seu amigo Thomas Turnwald foi quem fez a inspeção do carro e sua compra.

Placa de identificação do “Gendarmerie Française”

O próprio Thomas foi encarregado da restauração do chassi e da carroceria, o que ele fez em sua oficina. Após a desmontagem do carro seguiu o trabalho de limpeza da chapa, mas como se pode ver pelo que se acumulou no chão da oficina o trabalho foi difícil até se chegar na chapa:

A carroceria do “Gendarmerie Française” sendo trabalhada na oficina do Thomas Turnwald (Foto: Richard Hausmann)

Mais alguns detalhes da reforma de funilaria deste carro (Fotos: Richard Hausmann):

Os componentes mecânicos, eixo dianteiro completo, câmbio com eixo traseiro e motor, foram enviados para o Roman, da cidade de Ponzán, Polônia. Ai vão fotos do eixo dianteiro e do câmbio com diferencial prontos (fotos: Richard Hausmann):

Este carro ficou espetacular e está exatamente como ele era durante o seu serviço militar nas Forças de Ocupação Francesas do pós-guerra. As fotos abaixo mostram alguns detalhes deste carro:

Esta placa é temporária e é fácil de tirar, abaixo está a placa histórica que é aplicada na chapa. Detalhe para a luz de placa improvisada pela fábrica (Foto: autor)

O carro foi pintado na cor que as Forças de Ocupação Francesas usavam, e recebeu o correspondente letreiro e decoração de época; como é um modelo standard, os aros dos faróis são na cor do carro (Foto: autor)

A chapa de licença provisória foi retirada para mostrar a “original” de época (Foto: autor)

Daí o apelido deste carro, do letreiro “Gendarmerie Française” que aparece na frente e na traseira do carro (Foto: autor)

Detalhe da “bananinha” do lado esquerdo do carro (Foto: autor)

Interior dianteiro do carro (Foto: autor)

Painel de instrumentos tinha o mínimo necessário; detalhe para o botão de arranque abaixo do painel (foto: autor)

Detalhe da pedaleira com a pequena rodinha no acelerador (Foto: autor)

Nestes carros a numeração do chassi ficava no túnel, perto da alavanca de câmbio (Foto: autor)

Parte traseira do interior do carro (foto: autor)

A peculiar dobra na chapa perto da base das vigias traseiras (Foto: autor)

O porta-malas mostra mais alguns segredos, como o tanque pequeno de gasolina e a posição do estepe, que não é mais aparafusado num suporte (Foto: autor)

Detalhe para o cano-guia do cabo do velocímetro numa posição que rouba muito espaço do porta-malas; outro detalhe é a caixa de primeiros socorros (“Verbandkasten”) original de época, em madeira, uma raridade; a fiação original também era assim; na parte inferior da foto, à esquerda da caixa de primeiros socorros se pode ver a manopla da manivela de partida de emergência (Foto: autor)

A partida do motor podia ser feita por manivela, havia provisões para a passagem da sua haste (Foto: autor)

O mancal para a manivela fica preso sobre o para-choque; outro detalhe é o cano único de escapamento a 45 graus para a esquerda do carro (Foto: autor)

Incrível, mas este é o motor original deste carro, numa condição excepcional de restauração (Foto: autor)

Lanternas traseiras, integralmente na cor do carro, sem o arinho cromado (Foto: autor)

O chassi perfeitamente restaurado completa esta série de fotos (Foto: autor)

Na Parte 3 darei continuidade no estudo das características destes carros veteranos que espero deixem de ser solenes desconhecidos dos caros leitores desta coluna.

AG

A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


Sobre o Autor

Alexander Gromow
Coluna: Falando de Fusca & Afins

Alemão, engenheiro eletricista. Ex-presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor dos livros "Eu amo Fusca" e "Eu amo Fusca II". É autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Além da coluna Falando de Fusca & Afins no AE também tem a coluna “Volkswagen World” no Portal Maxicar. Mantém o site Arte & Fusca. É ativista na preservação de veículos históricos, em particular do VW Fusca, de sua história e das histórias em torno destes carros. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

  • joao vicente da costa

    Tão lindo que dá vontade de chorar de emoção!!

  • CignusRJ

    Outra matéria de emocionar os autoentusiastas 🙂
    E posso dizer que pintou uma certa inveja (boa) de você, estava lá viu e tocou nestas preciosidades.

    Agora as minhas curiosidades.
    1 Meu pai dizia que os faróis eram tampados deixando apenas uma pequena fresta para que à noite os aviões não os localizassem pelo brilho emitido por eles. Assim sendo não se tornariam alvos e nem indicariam que ali em baixo havia uma cidade. É isso mesmo? Conversando agora com um amigo meu ele disse que não porque nos EUA os carros também usavam faróis assim e não eram bombardeados.

    2 O que é aquele objeto sobre o para-lamas esquerdo do Fusca Moscou? Parece um tipo de snorkel.

    3 No painel do Fusca Gendarmarie e do Moscou, o velocímetro era da direita para a esquerda, diferente de hoje. Era algo comum na época ou só dos Fuscas? Eu confesso nunca vi ou nunca reparei nisso antes.

    Como sempre eu fazendo um monte de perguntas…

    Obrigado pela sua postagem,
    Abraços

    1
    http://www.autoentusiastas.com.br/ae/wp-content/uploads/2017/05/AG-86-Foto-50.jpg

    2
    http://www.autoentusiastas.com.br/ae/wp-content/uploads/2017/05/AG-86-Foto-70b.jpg

    3
    http://www.autoentusiastas.com.br/ae/wp-content/uploads/2017/05/AG-86-Foto-85.jpg

    • Salve CignusRJ,
      Vamos às respostas:

      1) Seu pai está absolutamente certo, estas máscaras de farol com frestas pequenas e calculadas emitem uma luz pouco perceptível visto do alto por um avião inimigo, pois bastava uma luz um pouco mais forte, e visível de cima, para que um comboio inteiro fosse dizimado.
      Quanto aos EUA usarem este tipo de iluminação em carros, diga a seu amigo que os EUA estava em guerra e que “por sorte” e devido à distância do palco das batalhas não sofreu ataques aéreos, mas nada impedia que eles pudessem ter ocorrido, e neste caso um país em guerra que se prezasse deveria esta preparado. Até na Inglaterra os faróis receberam tais dispositivos, que tal em um Jaguar? Veja a foto:
      http://www.1900s.org.uk/1950s-images/car-lamps-masks1.jpg

      2) Trata-se de uma “Lanterna de Blecaute” equipamento para lançar uma luz difusa que não chame a atenção de um avião inimigo que sobrevoe a estrada que o veículo estiver trafegando.
      Apesar da forma um pouco diferente o efeito é o mesmo da ilustração abaixo:
      .
      https://uploads.disquscdn.com/images/98b59b128f500da1cf5d2c17f29e3647cfe107c14471fa40173195265f6568c9.jpg

      3) Os primeiros velocímetros fornecidos pela Volkswagen tinham este layout que só foi mudado em 1953, mas observe que o sentido de movimento do ponteiro é o mesmo nos dois casos, a saber, acelera no sentido horário.

      Saudações

  • Ney Lira Lira

    Sr. Alexander, parabéns, lindo esses Fuscas, e a matéria muito bonita.

  • Salve BlueGopher,
    O trabalho de restauração feito na Europa por oficinas como, por exemplo, estas na Polônia e na Alemanha, são de grande qualidade e o trabalho é muito específico, não há muitos carros para serem restaurados, e não há tanta gente com os dinheiro disponível para custear este trabalho. Mas é muito bom que ainda tem gente capaz de fazer restaurações de alto nível com clientes que têm como pagar a conta.

    Este tipo de macacão de “suspensórios” (também chamado de macacão jardineira) existe aqui também, só que é menos usado que na Europa e nos EUA. Eles costumam ser customizados por especialidade do usuários, através de alças específicas para diferentes ferramentas.
    Este é oferecido pelo Mercado Livre:
    https://http2.mlstatic.com/macaco-jardineira-homens-skiny-jeans-masculino-36-ao-46-D_NQ_NP_991215-MLB25162850980_112016-O.jpg
    Nos EUA e Canadá tem modelos até com faixas refletivas para quem trabalha em estradas:
    http://bigbill.com/sites/default/files/styles/large/public/product_images/W_178BF_NAY.jpg?itok=RovMZbZO
    Mas é verdade, por aqui estas roupas muito práticas não “estão na moda” da indústria…

  • Mr. Car

    Rapaz, QUE azul!!! E se prestar atenção, dá para ver que o interior é clarinho, em bege, he, he! Amei!
    Abraço.

  • Mr. Car

    Diniz, eu não tenho desejo enrustido de comprar um Etios. Eu tenho desejo declarado, he, he! Mais precisamente um XS 1,5 M/T hatch, na cor azul “Journey”. E se o vizinho não gostar, achar que estou enfeando a garagem, não vou bancar o orgulhoso: aceito que me banque a diferença para um Audi A8 ou BMW Série 7, he, he!
    Abraço.

  • Antonio F.

    Alexander, não sei se sonhei, mas lembro de uma reportagem sobre os primeiros Fuscas, que nem luz de direção (setas) eles tinham, era um sarrafo ou tabuinha vermelha na tampa do motor acionada por uma alavanca no assoalho e que indicava a conversão, isso procede? Se sim, poderia levantar essa lebre para nós?

  • Fórmula Finesse

    Tal imóvel mereceria até uma matéria, por lá (li) passaram carros muitos especiais…e com certeza gente de igual quilate também (o amigo e Bob só para começar).

  • Mr MR8

    Seria um Camry transformado em viatura oficial da Marinha?

    • Fórmula Finesse

      Camry híbrido.

  • Humberto

    Modificação muito interessante. Nessas Parati e Saveiro mais antigas, especificamente as “quadradinhas”, o cano que vai do silenciador até a saída do escapamento é comprida demais, que em determinadas rotações, dá um “estralo” bem característico, que no meu gosto pessoal, acho horrível. Tua solução deve ter minimizado muito esse ruído. Deve ser uma delícia escutar o ronco desse carro agora. Solução bastante interessante! Abraços!

    Humberto “Jaspion”.

  • Ganso

    Também não gosto do ronco do meu Voyage ’94, acorda toda a vizinhança de manhã. A entrada do silenciador da Saveiro era da mesma espessura do cano da sua Parati? Foi difícil a adaptação?