Hoje vamos viajar mais um pouco no tempo, mas este não traz absolutamente boas lembranças, é de quando a Alemanha estava dividida em Ocidental e Oriental. Tive oportunidade de conhecer ambas, antes da queda do Muro de Berlim que aconteceu em 9 de novembro de 1989, 28 anos depois de sua construção.

Nos anos 80 eu trabalhava na Volkswagen do Brasil em São Bernardo do Campo e em 1982, sete anos antes da queda do Muro. Eu acabara de ser convidado para participar de uma reunião técnica na Alemanha sobre produtos que contaria com a participação de vários países do mundo VW. Eu seria o representante do Brasil.

Essas reuniões, eu soube, tradicionalmente começavam com um jantar de boas-vindas no domingo à noite. Eu, como sempre muito curioso por conhecer coisas novas, cidades e gente de outros continentes, programei minha viagem para sexta-feira à noite para chegar à Alemanha no final da manhã do dia seguinte.

Já no aeroporto de Hannover, depois de uma conexão em Frankfurt, fui recepcionado por um supersimpático alemão, Willy Saalmann (já falecido) que me levou de carro para Wolfsburg, a 90 quilômetros, cidade-sede da mais famosa e maior fábrica de automóveis da Europa. A minha ansiedade por conhecê-la era mesmo enorme.

Fiquei realmente surpreso com a simpatia e receptividade deste alemão, o Willy, pois alemães sempre me pareceram muito frios e reservados — posso falar porque sou filho de alemães, o primeiro menino da família Berg nascido no Brasil, e sou testemunha destas características de um povo muito sofrido devido à guerra.

Registros no hotel em Wolfsburg, e um pequeno descanso de algumas horas. Marcamos sair para jantar no sábado à noite— diferença de fuso horário nunca foi um problema para mim, a curiosidade sobre o novo sempre foi maior.

Durante o jantar o Willy gentilmente me convidou para um passeio no domingo de manhã para conhecer um pouco mais da Alemanha Ocidental, região de Wolfsburg, que é muito próxima da fronteira com a Alemanha Oriental, coisa de 40 quilômetros apenas.

Saímos do hotel por volta das 9 horas e pegamos a estrada, e que estrada! Fiquei maravilhado com esta Autobahn — via expressa em alemão, em português seria uma autoestrada, tipo uma rodovia dos Bandeirantes aqui de São Paulo, com 4 faixas e excelente sinalização e respeito dos motoristas pelas leis de trânsito. A faixa da esquerda sempre livre, não havia nenhum limite de velocidade na época, ao contrário de hoje em regiões próximas a vilarejos e pequenas cidades e principalmente quando se chega aos grandes centros. Mesmo assim anda-se a 120 ou 130 km/h, não nos ridículos 90 km/h daqui quando aparece a placa Zona Urbana.

O domingo estava ensolarado, raro na Alemanha. Saímos da estrada principal e de lá já se podia ver algumas antenas de radiotransmissão no alto das montanhas no lado oriental, para onde nos dirigíamos. Estávamos indo em direção à fronteira com a Alemanha Oriental, cujo nome oficial era República Democrática Alemã (!) — a outra Alemanha, esta sim democrática, era a República Federal da Alemanha.

Chegamos ao limite até onde podíamos seguir. Eu estava preocupado, curioso, com medo e tudo mais que você pode imaginar.

Paramos o carro debaixo de uma árvore, eu só olhava para a divisa, a fronteira que dividia a Alemanha.

Fomos a pé até um ponto onde a visão era excelente, emocionei-me com o que vi: em vez do muro que eu imaginava haver por pensar no de Berlim, havia a uns 200 metros de onde estávamos vários obstáculos feitos por rolos de arame farpado a perder de vista, que eu soube serem eletrificados. Foi quando vi também um soldado do exército da Alemanha Oriental montado em sua motocicleta com sidecar e, acredite, um pastor alemão companheiro do policial. Note o leitor ou leitora que a foto de abertura é apenas ilustrativa e diferente do que contei aqui.

Minha intenção era fotografar aquele espetáculo terrível por um lado, porém absolutamente novo para mim. Fui recomendado pelo meu “guia”, o Willy, a não fazê-lo, poderia nos trazer complicações. Por esta razão não tenho registro deste importante momento.

Depois de fixar meu olhar por alguns momentos neste cenário, esta curiosidade, experiência e muitos outros sinônimos que poderia expressar para o que acabava de ver, voltamos ao carro estacionado debaixo daquela árvore que comentei acima. Outra surpresa me aguardava.

A ansiedade era tanta para ver a fronteira que não notei que aquela árvore era uma cerejeira — no meio do nada e carregada de frutos. Perguntei ao Willy, “E aí, posso pegar algumas?” Ele respondeu, “Tantas quantas você puder.”

Eu usava na ocasião um boné e este serviu de sacola para uma quantidade enorme de cerejas que catei. Fomos almoçar, e depois que ele me deixou no hotel coloquei as cerejas que sobraram no frigobar, lavei o boné durante o banho e finalmente fui descansar um pouco, porque à noite teríamos o jantar de recepção. Terno e gravata, uma camisa bem passada e lá estava eu pronto para conhecer meus colegas do mundo VW de outros países.

Tenho mais saudade das deliciosas cerejas do que desta reunião. Haveria muitas outras durante este longo período em trabalhei na VW. Posso dizer que por pouco não conheci todos os países da Europa: a cada ano esta reunião se realizava num país.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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