Semana passada contei a minha experiência de chegar perto da Alemanha Oriental com um amigo da matriz da Volkswagen, em Wolfsburg. Ele me levou até a fronteira, ao ponto onde era permitido, do qual pude ver um soldado do exército da Alemanha sob domínio soviético em sua moto com um pastor alemão no sidecar, no mais perfeito clichê dos filmes de guerra.

Na reunião da qual participei em 1982 conheci pessoas do mundo inteiro, todos representantes da Volkswagen em seus respectivos países.Também tive a oportunidade de conhecer colegas da matriz que me davam muito suporte, principalmente técnico, para o desenvolvimento de soluções de problemas do campo. Era o pós-vendas, a verdadeira Assistência Técnica, já naquela época com foco global.

Foi nesta mesma reunião anual que conheci, dois anos depois também na Alemanha, não em Wolfsburg, mas na sede da Audi AG, um alemão de nome Klaus Hirt, para em pouco nos tornarmos grandes amigos. A sede da Audi é em Ingolstadt, distante 85 quilômetros ao norte de Munique e a aproximadamente 135 quilômetros ao sul de Nuremberg. Nesta cidade é onde você tem como prato principal, nos melhores restaurantes, a legítima e verdadeira salsicha alemã, a Bratwurst, aqui conhecida por ser uma salsicha branca.

A história de hoje é uma homenagem ao supersimpático e alegre Klaus Hirt, que depois veio várias vezes ao Brasil e se autodenominava o mais brasileiro dos alemães. Ele infelizmente teve morte precoce, um infarto fulminante quando na Alemanha, junto de sua família. Senti muito perdê-lo.

Como dito na matéria da semana passada, eu tinha o hábito de sair do Brasil na sexta-feira e chegar à Alemanha no fim da manhã de sábado.

Peguei um avião em Guarulhos, se não me engano da Varig, com destino a Frankfurt com conexão para Munique (Lufthansa), onde me esperavam Willy Saalman, aquele que me recepcionou em 1982 quando estive na Alemanha pela primeira vez, e o seu colega da Assistência Técnica, Klaus Hirt. Fomos de carro até Ingolstadt onde o programa de sábado era praticamente o mesmo: check-in no hotel, depois passear pela cidade e, logicamente, almoço, que terminou por volta das 3 da tarde.

Do restaurante para o hotel para um merecido descanso e o acerto para novo encontro, agora um agradável jantar regado a “vinho nacional” — alemão é claro. Durante este jantar marcamos novo encontro para as 9h00 de domingo para um programa-surpresa, e desta vez meu guia seria o Klaus Hirt, porque o Willy tinha que acabar de preparar sua apresentação. Willy, ao sair, ainda fez uma importante observação: “Não se atrasem para o jantar de abertura da reunião, a diretoria detesta atrasos.”

Como combinado, Klaus me aguardava na recepção do hotel às 9 em ponto. Com alemão é assim, 9h00 são 9h00, nem um minuto a mais.

Somente quando estávamos na estrada foi que o Klaus me disse para onde estávamos indo. Iríamos a Berlim Ocidental, uma viagem de  aproximadamente 4 horas de viagem, 480 quilômetros deveriam ser percorridos até próximo à fronteira com a Alemanha Oriental, onde almoçaríamos. Meu Deus, será que dará certo? Tenho mulher e filhos para criar no Brasil, e se me prenderem lá por qualquer motivo, sei lá? Passa de tudo na sua cabeça quando se está nesse tipo de desconhecido.

Depois do almoço logo chegamos à fronteira com a Alemanha Oriental, descemos do carro para o devido controle de passaportes para deixar a Alemanha Ocidental. Não houve maiores problemas, e policial nos avisou que em território alemão oriental a velocidade máxima era de 70 km/h, recomendando-nos ficar atentos. Adeus à velocidade livre… Três quilômetros adiante e nova verificação de passaportes, agora para entrar na Alemanha Oriental. A liberação foi mais rápida do que eu esperava e rodamos cerca de 30 quilômetros para chegar à divisa da Alemanha Oriental com Berlim Ocidental.

Como ficou a Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial (Imagem: viajepordois.wordpress.com)

Complicado? Explico para o leitor ou leitora. É que quando a guerra terminou a Alemanha ficou dividida em Ocidental e Oriental. Uma cidade, justamente a capital da Alemanha até a guerra acabar, Berlim, ficou na Alemanha Oriental. Berlim, por sua vez, por acordo entre os Aliados vencedores, ficou dividida em ocidental e oriental, esta de domínio da União Soviética. A ocidental ficou dividida entre Estados Unidos, Inglaterra e França.

Berlim ficou dividida em Ocidental e Oriental (Mapa: imagohistoria.blogspot.com)

Uma situação muito estranha e que levou à criação, pelos americanos, da ponte aérea de Berlim para viabilizar o transporte de passageiros e mercadorias entre a Alemanha Ocidental, capital Bonn, e Berlim Ocidental. Esclarecido o estranho quadro, continuo a falar da viagem.

A ponte aérea, ou Berlin Airlift, foi a única maneira de transportar passageiros e mercadorias da Alemanha Ocidental para Berlim Ocidental; o avião é um Douglas DC-4 da Força Aérea Americana (Foto: youtube.com)

Sair da Alemanha Oriental e entrar em em Berlim Ocidental não apresentou problema, para meu alívio — em termos. Passeamos um pouco por Berlim Ocidental, zona americana, mas nossa ideia era entrar em Berlim Oriental. Pronto, nova “fronteira”, agora dentro da cidade.

O marco divisório dos dois lados era o Portão de Brandemburgo, uma obra imponente, um pórtico gigante. No controle de passaportes (ocidental) as perguntas de praxe, motivo da viagem, etc. Tudo certo? Tudo, mas não recebi o passaporte de volta; o Klaus, por ser alemão, recebeu o dele. E o meu??? Fiquei ainda mais tenso. A sistemática era colocar o passaporte dentro de um canudo metálico, este ser colocado num tubo que, por ar comprimido, seria empurrado até o ponto de controle de entrada em Berlim oriental, ponde eu pegaria meu passaporte. Mais preocupação, isso vai dar m…, pensei.

O muro de Berlim antes do Portão de Brandemburgo; a placa avisa “Você está deixando Berlim Ocidental agora” (Foto: maosdevaca.com)

Rodamos aproximadamente 1,5 km e chegamos à barreira do outro lado. Preciso dizer que nesse percurso havia duas pistas e forte divisão com arame farpado entre elas. A coisa começava a ficar mais feia e eu lá no meios cheio de medo.

Descemos do carro e fomos em direção ao posto policial. Eu estava apavorado, mas o Klaus me acalmava dizendo que com turistas eles são compreensivos, e eu tinha que acreditar, não havia alternativa.

Entrei em um corredor e ele em outro, ele como alemão e eu como estrangeiro.

Quem conhece fazenda e o corredor por onde os bois passam para tomar banho de carrapaticida, havia uma grande semelhança. O corredor era estreito e com espelho na parede de um dos lados. O policial no guichê me atendeu e logicamente em alemão me perguntou: “o que você veio fazer aqui?” Enquanto falava que trabalhava na VW do Brasil, estava na Alemanha a serviço ele olhava meu passaporte, conferia a foto e olhava muito no espelho onde ele podia me ver de costas, dos pés à cabeça. Perguntou de onde e como eu falava alemão praticamente sem sotaque. Disse que havia aprendido em casa com meus avós e meus pais e praticado na empresa.

Ainda perguntou quanto dinheiro eu tinha trazido e eu sabia que não podia ser mais de 50 marcos que eram só para almoçar. Fui informado que como turista não poderia fazer compras e o visto que estava me dando tinha validade de 6 horas. Entregou-me o passaporte e desejou um bom dia, de forma bem até bem educada, para minha surpresa.

Ao final deste corredor encontrei-me com Klaus e ele me perguntou por que eu estava pálido. Eu disse que era fome, havia tomado café muito cedo e já haviam se passado horas desde então. Foi o que eu inventei; deveria ser por nervosismo e medo.

Entramos na Berlim Oriental. Casa destruídas, ruas esburacadas, prédios com marcas de balas da guerra propositadamente não restauradas para mostrar o mal que os outros haviam feito aos moradores daquela cidade — a guerra terminara há 39 anos! Carros nas ruas, parecia mais Montevidéu e, principalmente, Havana, só coisa velha.

Do lado de lá do muro, uma Berlim bem diferente (Foto:umahistoriadotempo.blogspot.com)

Depois de caminhar pelas ruas do comércio, foi uma pena que eu não poder comprar nada e não queria pedir esse favor ao Klaus. Havia peças feitas em cristal maravilhosas, mas também tinha muitas coisas ruins, malfeitas, mal-acabadas. Lembrei-me e fiquei com saudade da Ponte da Amizade e Porto Stroessner (atual Ciudad Del Leste) na fronteira Brasil-Paraguai.

Achamos um restaurante que nos parecia bom. Subimos uma escada e lá em cima, um enorme salão com muita gente. Sentamo-nos em uma mesa de quatro lugares vaga. Havia garçom, porém pouquíssimas opções de pratos e de bebidas. Logicamente pedimos sucos, embora a minha vontade fosse pedir uma Coca-Cola.

Passados alguns minutos o nosso almoço estava na mesa e neste momento sentava-se à mesa um homem fardado, um soldado, um jovem alemão. Em espanhol, o Klaus me disse que ficasse calmo, era comum em um restaurante lotado as pessoas sentarem-se onde havia  lugar vago e na nossa mesa havia dois.

Papo daqui, papo de lá, nos apresentamos só os sobrenomes como era e ainda é o costume, e o soldado fez o mesmo.

Identificando-nos como turistas de um dia, disse que estava a poucas horas de dar baixa do serviço militar, fez os piores comentários a respeito dos seus últimos três anos. Ouvimos por educação, não fizemos nenhum comentário mesmo porque quem corria perigo de ser “enquadrado” era ele. Ele se arriscou, não sabia quem de fato éramos. Poderia ser preso se houvesse uma delação da nossa parte, o regime não permitia críticas (delação… palavra tão em moda atualmente!). Pagamos a conta com dinheiro oriental trocado na fronteira e seguimos de volta para enfrentar os mesmos controles feitos na entrada.

Um detalhe importante foi fazer o câmbio para não sobrar dinheiro, e não havia cartão de crédito na época. Paguei o nosso almoço e recebi algumas moedas de troco, as quais escondi na meia, e fomos adiante.

Mostramos o passaporte, nenhuma pergunta e saímos do posto de controle, entramos no nosso carro, um Golf, e seguimos viagem até o próximo posto de controle e o passaporte viajando pelo mesmo tubo subterrâneo até chegar a nós — estava de volta a Berlim Ocidental. Ufa, que alívio. Os 30 quilômetros até à fronteira correram sem problema — a 70 km/h…

As autoestradas na Alemanha (Autobahnen) têm velocidade livre, e preocupados com o horário do jantar de abertura, ao qual não poderíamos chegar atrasados, aceleramos o Golf o que era possível e, por incrível que pareça, ultrapassamos alguns carros da Alemanha Oriental, aqueles “supermodernos” Trabants. Brincadeiras à parte, esses veículos com motor dois-tempos de 600 cm³ e 26 cv não passavam de 70~75 km/h, o que era um perigo para os Audi, VW, Mercedes, BMW e outros modernos que andavam bem mais rápido, até o triplo do que andavam os Trabants.

Chegamos ao hotel a tempo de tomar um rápido banho, guardar as moedas tiradas da meia, vestir um terno, gravata, e participar do jantar de abertura do evento. Muitos amigos que havia conhecido na reunião passada estavam lá e alguns novos dela participando pela primeira vez, como eu dois anos atrás.

 

O muro

O processo de unificação das duas Alemanhas começou com a derrubada do chamado “muro da vergonha” em 9 de novembro de 1989.

Construído em 1961, caiu depois de 28 anos separando pessoas, amigos, famílias. Um exemplo a ser seguido, para que  jamais um episódio como este se repita no mundo.

Vimos pelos noticiários que as comemorações naquela noite com muitos fogos foram inesquecíveis. Mais de um milhão de pessoas foi festejar no Portão de Brandemburgo, ponto central da festa.

A queda do Muro de Berlim, 9/11/89  (Foto: angelinawhittmann.blogspot.com)

A queda do muro libertou 78 milhões de pessoas graças ao decreto assinado pelo então Chanceler  Helmut Koln. Em 3 de outubro de 1990 a Alemanha estava unificada, a Oriental anexada à Ocidental, a capital passando a ser Berlim.

Conhecer a Alemanha Oriental e as duas Berlim foi mais uma grande experiência de vida que a longa vivência na indústria automobilística me proporcionou.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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