A Volkswagen esteve presente na minha família desde que me conheço por gente. Em 1966, ano em que nasci, meu avô comprou seu primeiro Fusca e pelos 25 anos seguintes todos os seus automóveis seriam da marca alemã. A tradição se encerraria em 1987 com a aquisição de um Passat Flash vermelho, que viria a ser seu último carro. Meu pai seguiria em parte essa tradição, mas sucumbiria em 1986 aos encantos do Chevrolet Monza, para, a partir de então, nunca mais retornar aos VW.

Mas a história que quero contar diz respeito ao elo entre um avô e seu neto e ao automóvel que, fisicamente, viria a perpetuar essa relação. Na década de ‘60 meu avô comprou uma casa grande e convidou meus pais recém-casados para morar com ele e minha avó. Assim passei toda minha infância e adolescência nesse rico ambiente familiar, desde muito cedo sempre autoentusiasmado pelos nossos carros e por todos os outros que encontrava em meu caminho.

Aos dois anos, meu programa matinal e obrigatório era assistir à debandada de uma frota de táxis DKW que passavam a noite guardados em um estacionamento na minha rua. Em janeiro de 1973, meu pai me presenteou com minha primeira Quatro Rodas e, a partir de então, mensalmente eu devorava os testes e as notícias sobre o meu assunto preferido. Com o tempo, as outras publicações especializadas passariam a fazer parte da leitura. O sonho do carro próprio só crescia e, ao completar 18 anos, ele finalmente se materializaria.

Outubro de 1984, recém-chegado à família

Meu avô, apesar de sua personalidade discreta, sempre fez o que podia e o que não podia por mim. Estava presente em todas as ocasiões. Se meu sonho era ter um carro, o dele era proporcionar a realização desse desejo. Em sua visão de mundo, um garoto de 18 anos tinha que ter automóvel. E estava decidido a me dar o tal carro de presente de aniversário e nem que eu quisesse — devo confessar que eu não queria — seria possível tirar essa ideia de sua cabeça.

Pediu para que eu escolhesse o modelo. Minha opção, nada modesta, recaiu sobre o carro que, naquele momento histórico, certamente representava um dos melhores pacotes para alguém que tinha paixão por automóveis: o Gol GT. Um modelo pequeno, bem equipado para a época e anabolizado por um motor então bastante moderno e potente, o recém-lançado 1,8 arrefecido a água com sua potência declarada de 99 cv. Talvez um pouco demais para quem começava a vida em quatro rodas e carecia de experiência. Mas meu avô, sempre defensor da marca Volkswagen, abraçou a ideia e lá fomos nós em busca do Gol GT.

Após alguns dias de pesquisa, o negócio foi fechado por algo em torno de 16 milhões de cruzeiros na concessionária Central de Veículos, localizada na rua Penaforte Mendes, em São Paulo. Foi uma alegria. O carro não se encontrava na loja no momento da compra e combinamos com o vendedor uma data para que retornássemos apenas para vê-lo no pátio, mesmo sem ainda poder levá-lo para casa.

Marcando presença no Box 54, Encontro AUTOentusiastas de 2015

Assim foi feito, na companhia de meus amigos de colégio. Entrar no meu primeiro carro, sentar no banco do motorista ainda coberto por plásticos e mergulhar naquele ambiente impregnado pelo inconfundível, inimitável e indescritível cheiro de novo foi uma emoção que jamais viria a se repetir em minha trajetória autoentusiasta.

Finalmente, no dia da retirada do carro meu avô foi o primeiro a dirigir a novidade até nossa casa – nada mais justo! Depois, assumi o volante do Gol GT 1984 quatro-marchas para nunca mais largá-lo. Naquela época – e ainda hoje – o GT era um carro delicioso. Em relação ao Passat LS 1,5 1981 do meu pai, no qual eu aprendi a dirigir, a estabilidade era fantástica e o motor, assombroso. Um convite aos exageros no trânsito.

A partir daquele momento e pelos próximos anos, o Gol GT me levaria para a escola, à casa da namorada — com quem viria a me casar —, à faculdade e ao trabalho. Na retaguarda, meu atento avô permanecia sempre de olho nas peripécias do neto e pronto para qualquer imprevisto.

Por volta da metade da década de 90, o infalível “seu” Joaquim começou a adoecer e, com o avanço da doença, a perder a memória até o ponto de não mais conhecer ou se relacionar com as pessoas. Mais ou menos no mesmo período — e acho que só agora me dou conta da coincidência — circunstâncias diversas me levariam a guardar o Gol na garagem da casa de meu avô, onde ele viria a repousar pelos próximos 15 anos.

A vida havia mudado, eu tinha então minha família, um carro mais novo para o dia a dia e até alguns antigos para curtir aos finais de semana. Adormecido, meu Gol GT não era, então, nem um carro de uso e nem um clássico antigo. Perdido no tempo e no espaço, estava, na verdade, esperando o momento de renascer. Em 1995 meu avô se foi. Foi a primeira grande perda que tive.

A vida continuou seguindo seu curso e, por volta de 2009, após algumas iniciativas isoladas e pouco efetivas de reativação da máquina, havia chegado o momento de despertar o pequeno gigante. Resgatado de sua longa hibernação, o Gol GT recebeu os devidos cuidados para, finalmente, voltar às ruas ostentando seus 36 mil quilômetros rodados. Guardando até hoje algumas pátinas dos anos dourados em que serviu a um autoentusiasta jovem e empolgado — cicatrizes que, afinal, contam um pouco da minha própria história —, o Gol GT 84 roda orgulhoso pelas retas e curvas de uma estrada infinita que atravessa mais de três décadas de convivência com a mesma família.

Talvez já tenha atingido o status de sobrevivente. É um presente que recebi de alguém muito importante e que vou deixar para os meus filhos. Um tributo eterno a meu avô e em respeito ao entusiasta por automóveis que eu sempre serei.

Cláudio Milan
São Paulo – SP

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