Isto foi em 1971. A história é interessante, mas ver o Concorde pessoalmente, pode ter certeza, foi muito mais. Foi o que eu fiz.

O Concorde, a primeira aeronave supersônica para transporte de passageiros, foi produzido pelo consórcio franco-britânico Aérospatiale e British Aircraft Corporation a partir de abril de 1965. Era difícil haver quem não admirasse aquela obra do gênio humano.

O supersônico veio pela primeira vez ao Brasil em setembro de 1971, ainda em voo de caráter experimental, antes de ser certificado para voos comerciais. Pousou primeiro no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, atual Aeroporto Antônio Carlos Jobim. Em seguida veio para o Aeroporto de Viracopos, em Campinas, SP, a 100 quilômetros do centro da capital paulista pela via Anhanguera (a rodovia dos Bandeirantes ainda não existia). O Aeroporto de Congonhas não tinha pista longa o suficiente para receber o Concorde — precisa de pista de 3.000 metros — e o Aeroporto Governador Franco Montoro, em Guarulhos, na Grande São Paulo, só seria inaugurado em janeiro de 1985. O voo Galeão-Viracopos levou apenas 22 minutos, metade do tempo dos jatos comerciais.

Um visão impressionante e cativante (Foto, bem mais recente: independent.co.uk)

Fui procurar saber um pouco mais sobre esta superaeronave e aprendi que a capacidade era de 100 passageiros, muito mal acomodados, dentro tudo era muito apertado e até há uma história que diz que as comissárias, na escada de acesso à porta de entrada, convidavam os cavalheiros e as senhoras a entregarem seus casacos ou paletós antes de entrarem no avião. Não era uma cortesia da companhia, mas sim uma preocupação porque o aperto era tão grande que não havia espaço suficiente para colocar todos os casacos sem que saíssem devidamente amassados e isto os passageiros, todos de primeira classe (a única) não aceitariam. Soube também que o serviço de bordo era excelente e o jantar servido com talheres de prata da famosa marca francesa Christofle.

Uma curiosidade que muitas pessoas têm é a respeito da velocidade do Concorde. Depois de ultrapassar a barreira do som ele voa em cruzeiro a 2.158 km/h. O tempo de voo entre o Rio de Janeiro e Dacar era de três horas e com mais três chegava-se a Paris, a metade do tempo que se gasta até hoje.

Era natural que a primeira vinda do Concorde ao Brasil estivesse em todos os noticiários, não se falava em outra coisa. Então nos meus 24 anos, fui tomado pela ansiedade e vontade incontida de ver aquela maravilha de perto. Eu tinha que fazer isso de qualquer maneira.

O problema era ter ir a Viracopos, tinha o trabalho, como ficava? Essa pergunta ficou me martelando.

O dia e horário anunciado para a aterrissagem deu tempo suficiente para eu planejar assistir aquele que seria o maior espetáculo da década.

Fiz uma divulgação dentro da empresa onde trabalhava, a Volkswagen, perguntei a alguns amigos se gostariam de ir comigo ver o Concorde de perto. Não foi fácil, seria preciso faltar ao trabalho, mas na véspera da chegada da grande aeronave três amigos conseguiram de algum jeito negociar com suas chefias a falta ao serviço naquele dia; a minha permissão já havia sido dada dias antes.

Naturalmente ratearíamos a despesa com o carro — combustível apenas, éramos felizes, não havia pedágio na época. Iríamos no meu carro de serviço, um Fusca cor verde Light — que não é light, de leve, em inglês, o porquê do nome da cor é curioso: a Volkswagen havia fechado um negócio para a renovação da frota dos veículos da concessionária de energia elétrica Light, de São Paulo, e estes carros tinham que ser obrigatoriamente da cor-padrão da empresa.

O meu Fuscão de serviço; note os furos de roda diferentes por serem de Fusca alemão (Foto: autor)

Ocorreu que alguns veículos a mais acabaram sendo produzidos e um destes “caiu” nas minhas mãos. Até que ele era bonitinho, coloquei rodas de um modelo alemão que o diferenciava dos demais. Estava feliz com ele, era um VW 1500, “Fuscão”, andava bem mais que o 1300 e tinha suspensões diferentes, além da bitola traseira 6,1 cm maior e da barra compensadora na suspensão traseira. Era incomparavelmente melhor de curva. Veio com freios dianteiros a tambor, mas mandei trocar por discos.

Chegamos a Viracopos com boa antecedência e nos posicionamos ao longo da pista, pois não queríamos perder nada da chegada do Concorde, deveria ser mesmo muito emocionante ver aquele “bichão” chegando com o nariz abaixado (foto mais acima), como era o padrão do supersônico para os pilotos terem melhor visibilidade nos pousos e decolagens.

O Aeroporto de Viracopos estava repleto de curiosos como nós e muitos, mais muitos jornalistas. E ele vinha descendo, ruído nunca antes ouvido, mas tínhamos certeza de que era ele. Os motores Rolls-Royce/Snecma eram turbojet, não os silenciosos turbofans de hoje.

Posicionei o meu Fusquinha paralelamente à cerca que limitava a área do aeroporto; hoje jamais conseguiríamos chegar tão perto. Bico abaixado, lá chegou ele passando bem à nossa frente.

No afã de poder ver melhor aquele espetáculo, sentamos os quatro no que chamamos de calha de chuva do Fusca, ou seja, um pouco de longarina e um pouco de teto, e apoiamos os pés na cerca que aparece na foto. Quando nos apercebemos do que havíamos feito, já era tarde: o teto do meu Fuscão tinha amassado. Se tivéssemos colocado nossos traseiros um pouco mais para a borda do teto isso não teria acontecido.

O avião, depois de taxiar, estacionou bem à nossa frente, o que me permitiu tirar uma foto do comitê de recepção composto de políticos, autoridades, repórteres credenciados, todos estavam lá bem à nossa frente (foto de abertura). Pode-se até ver na foto um Veraneio da Polícia Militar nas cores azul e branca da época.

O sonho foi realizado, vimos a grande novidade bem de perto. Estávamos felizes de ter podido testemunhar aquele grande momento.

O primeiro voo regular do Concorde para Brasil, da Air France, pousou no Aeroporto do Galeão no dia 21 de janeiro de 1976 e o último, em abril de 1982.

Quanto ao Fuscão de teto amassado, para nós ficou um rateio não programado, o da funilaria e pintura dos danos que causamos no teto do carro.

Mas valeu a pena!

RB

A coluna “Do fundo do baú” é  de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
(2.061 visualizações, 1 hoje)


Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

Publicações Relacionadas