Para o que vou contar eu não tinha fotos. Por isso essa acima e as duas outras têm o propósito de ser meramente ilustrativas.  Mas vamos à história.

Na primeira metade da década de 90 eu já tinha carteira de habilitação há algum tempo, e como guiava desde os 15 anos, pode-se dizer que eu tinha alguma experiência ao volante. Eu precisava ir de São Paulo a Assis (extremo oeste do estado a aproximadamente 500 quilômetros da capital) e esta seria a minha primeira viagem mais longa. Antes, só o corriqueiro (para os paulistanos) capital-litoral-capital.

Tudo bem, tudo certo, o carro tendo passado por uma pequena e básica checagem, já havia dado aquela conferida básica no guia rodoviário — é, colegas, vocês acreditam que houve tempo em que se viajava de carro sem GPS, Waze, Google Maps e afins, e passagens aéreas atingiam preços bem proibitivos?

Meu pai já havia chegado a Assis de carona com meu tio, e por telefone me passou alguns “macetes” de como chegar e para onde ir. A viagem seria com o primeiro carro que usei por mais tempo, com mais constância e em mais viagens, um Escort Ghia Mk3 ano 1986, cinza, seminovo na época.

Saí sexta-feira pela manhã, pois devido à distância e por não conhecer o trajeto estimava por volta de umas seis horas de viagem. Tirando um pequeno estranhamento de o carro parecer estar puxando para e esquerda, que felizmente se mostrou apenas influência de (fortes) ventos laterais, as duas primeiras horas, respeitando rigorosamente os limites de velocidade, se mostraram tão tranquilas quanto prazerosas, e após esse tempo uma parada estratégica se fez necessária.

Voltando para a estrada a ansiedade começou a fazer o seu trabalho com aquele sentimento de se rodar, rodar, rodar, mas o trajeto só diminuir em 10 km… Isso aliado à excelente condição da estrada, pouco trânsito e radares, fez o pé direito começar a pesar sobre o pedal do acelerador — a velocidade passou de regulamentada a infracional, mas absolutamente distante da que poderia ser chamado de irresponsável.

Mais algum tempo neste ritmo e outro Escort (XR3, mais novo, igualmente cinza metálico) pede passagem, concedo e acabamos por trafegar por vários quilômetros com os carros bem próximos um do outro, quando topamos com uma blitz da policia rodoviária. Um dos policiais ordena ao motorista do outro Escort que encoste, enquanto outro mostra-se absolutamente surpreso ao me ver chegar, e me manda fazer o mesmo.

Ainda um tanto confusos, ambos fazem o “ritual padrão” de pedir documentos do condutor, do carro, etc.. Depois de uma breve conversa entre eles e de um deles chamar alguém pelo rádio da viatura, ambos os carros são multados. A clara impressão que ficou é que apenas um dos dois veículos teria sido pego de fato em velocidade acima da permitida e eles não sabiam qual deles era. Para piorar, meu Escort tinha um par de faróis de longo alcance sobre o para-choque dianteiro…

Na dúvida multaram os dois, e como estávamos de fato andando há algum tempo trafegando acima do limite, ninguém contestou. (sorte dos policiais…).

Depois deste “agrado”, acabo por refrear o instinto de brevidade e saliento o de autopreservação (financeira pelo menos), volto a seguir rigorosamente a velocidade-limite. O outro Escort se foi, e dentro de mais algumas horinhas, incluindo trechos em pista simples, onde o carro demonstrou o quão acertado era seu escalonamento de câmbio 4+E — se eu sou fá deste tipo de escalonamento até hoje, aquele Escort Ghia é certamente um dos culpados — cheguei ao meu destino.

Chegando lá encontrei-me com meu pai, me instalei e mais tarde saímos para jantar.
Obviamente, a multa foi um dos assuntos da refeição..

— Pô, filhão conseguiste tomar uma “multosa” então? (modo sarcástico ligado!)
— É, pior é que não sei nem se ela era de fato para mim, mas faz parte..— contei-lhe o fato dos dois carros estarem juntos.
— Tem que tomar mais cuidado — disse, rindo.
— É, eu sei…

Fomos para o hotel para um bom e merecido descanso e no dia seguinte fizemos o que tínhamos que fazer lá, retornando ao hotel ao fim do dia.

Domingão, tudo certo e preparados para voltarmos, tomamos o café e “pé na estrada”!

Claro que devido a ter sido “presenteado” na ida fiquei sem ter muito como argumentar quando meu pai disse que guiaria na volta, ou pelo menos grande parte dela. Não que ele guiasse mal, longe disso, mas para mim o banco do passageiro sempre representou a mesma coisa que a segunda posição para o Senna (“O segundo nada mais é do que o primeiro dos perdedores…”). Mas a vida segue…

Estávamos na estrada há cerca de uma hora trafegando num bom ritmo entre o limite e a margem admissível acima dele, quando alcançamos uma Parati 1,8-l (portanto mais nova, mais potente, e — dirão alguns — mais estável), cujo motorista trafegava naquela margem próxima a 10 km/h abaixo do limite mesmo quando claramente não se mostrava necessária tamanha precaução, e ainda um pouco abaixo disso nas curvas.

Algum tempo depois e meu pai já tinha “pego ar” irritando-se com a situação, fato agravado quando em duas oportunidades o motorista da Parati dificultou um pouco a ultrapassagem acelerando junto conosco.

Eis que aí surge o que todo motorista mais deseja nessas horas: uma daquelas longas retas em descida com a subida logo em seguida; visibilidade total, geral e irrestrita… Lembro de ter ouvido meu pai dizer:

— Ah, agora vai!

Ele dá uma bela embalada e quando se prepara para começar a ultrapassagem, o motorista da Parati aciona a seta com três piscadas para a esquerda. Meu pai hesita, mas como já estava com velocidade superior e praticamente meio carro na faixa da esquerda, ele prossegue. Nisso o motorista da Parati percebe que meu pai vai de fato fazer a ultrapassagem e discretamente coloca a mão para fora da porta fazendo aquele movimento típico de “vá com calma!”: tarde demais, já estávamos ao lado dele nessa hora; já era!

Porém a atitude do motorista da Parati me intrigou, não parecendo um ato deliberado ou mal-intencionado, que teria sido feito somente para atrapalhar ou dificultar a ultrapassagem. Imediatamente me ative da faixa dupla contínua na pista e de uma grande e vistosa árvore bem no topo da subida que se seguia. O pensamento foi imediato e acompanhado do comentário:

— Aí tem coisa…
— Nada, foi só para perturbar mesmo! — retrucou meu pai.
— Não sei não, hein?
Dito e feito: tinha “coisa”, e no caso uma coisa de uniforme acompanhado por uma viatura bem escondidinha sob a árvore… E lá fomos nós mais uma vez para o “ritual padrão”…

— Bom dia senhor, por favor, os seus documentos e os documentos do veículo.
— Pois não, seu guarda!
— O senhor sabe que acabou de cometer duas infrações?
— Duas???
— Sim, senhor, ultrapassagem em local proibido e excesso de velocidade… Isso é exemplo que se dê ao garoto?
— Realmente não, seu guarda…
— E ele também gosta de correr?
— Não, ele só anda dentro da lei, eu  é que…
— Bom, tudo bem, vou lhe multar pela ultrapassagem e relevar o excesso de velocidade, mas que isso não se repita, hein? Por favor, olhe o exemplo!

Aqui cabe uma observação: na verdade não havia nenhuma forma que eu conheça de ele ter medido nossa velocidade, nem através de cronômetro, portanto — em tese — ele não poderia mesmo nos autuar por excesso de velocidade.

Saímos e o palavrão vindo do meu pai foi inevitável, na hora só não consegui evitar comentar, na base da brincadeira:

— Mas que média, hein?
— Média? Que média??
— Duas multas em três dias! Nesse ritmo chegaremos ao final do ano com mais de 100… (modo sarcástico ligado!)

O olhar do meu pai parecia indeciso entre se era de quem queria rir ou me esganar. De qualquer forma, não saí ileso da “piadinha”. Voltei para casa guiando cerca de 90% do trajeto (o que inicialmente podia parecer maravilhosamente bom…), mas no ritmo da tal Parati…

NLR
São Paulo – SP



  • Otavio Marcondes

    Lembro muito deste tempo que, principalmente entre Assis e Ourinhos na minha memória de vida, os policiais faziam dessa de marcar a velocidade no tempo ficando de olho nas decidas e esperando no topo das subidas.