Roberto Agresti recomenda:

“O consumo do nosso carro é aquele que a gente quer”

Bob Sharp vive escrevendo isso em resposta a leitores que relatam ao AE suas proezas em termos de rendimento quilométrico com combustíveis de qualquer espécie. O que Bob quer dizer é simples: consumo depende de múltiplos fatores e a principal variável é o elemento que está atrás do volante, ou seja, nós.

Abro o relato da 2ª semana de avaliação do C3 equipado com o pão-duríssimo motor de 1,2 litro, reconhecidamente moderno e econômico, alertando que eu quis (!!!) que ele percorresse em média 7,4 km com um litro de nossa infame gasolina “batizada” com 27% de álcool.

Estilo agradável o Citroën C3 tem

“Só isso?”, pensarão muitos de vocês, ao que eu respondo: só não, TUDO isso. Fez sete e meio km/l enquanto o Fit da minha senhora (câmbio automático) fez – sempre com gasolina – 5 km/l nas mesmas condições de uso e, é claro, também “por que ela quis”. Sim, isso mesmo: ela e eu quisemos morar na região mais montanhosa da cidade de São Paulo, onde para ir a qualquer lugar é preciso encarar uma pirambeira, muitas vezes com o motor do carro frio.

Fora isso eu também “quis” respeitar os horários do dia a dia, indo buscar filho na escola na hora que todo mundo faz isso, indo à reunião marcada no fim do dia do outro lado da metrópole quando todos estão na rua ou indo à consulta médica bem no dia que caiu outro dilúvio universal em São Paulo, com as tradicionais consequências: alagamento, semáforos quebrados, gente dirigindo em pânico, se arrastando em ziguezague com medo do piso molhado.

O trânsito nosso de cada dia

“Quis” tudo isso, e também rodar a uma ridícula média horária de 15 km/h, e descobri que nem mesmo o excelente tricilindro francês resiste a tais desígnios. Diante de tudo isso fica fácil afirmar que qualquer um que não queira nada disso vai conseguir marcas bem melhores com o C3. Por exemplo, aposentados sem rotina que morem na plana Brasília, profissionais cujo trabalho os obrigue preferencialmente a circular em vias expressas ou rodovias, e assim por diante. Todos eles vão querer, e conseguir, marcas de consumo bem melhores.

Veredicto da semana? O C3 com motor PureTech é uma excelente arma para o dia a dia infernal em uma metrópole, e 7,4 km/l é marca que talvez só o irmão Peugeot 208 dotado do mesmo motor conseguisse repetir, ou possivelmente um VW up!.

Bancos poderiam ser melhores, ao menos para mim

Discursos do consumo feito, vou à outros fatos como, por exemplo o banco, que definitivamente poderia ser melhor tanto em conformação como no material de estofamento usado, que é firme demais. O assento é pequeno e o encosto impreciso na forma, que não combina com as costas (ao menos as minhas). Salvam um pouco amplas regulagens, mas mesmo assim a posição de condução se torna incômoda quando acontece (e aconteceu) de ficar mais de uma hora preso em um para e anda infernal.

Nesta triste situação, o fato dos comandos de pé serem macios assim como é o volante, cuja assistência elétrica da direção indexada à velocidade, ajuda. Diverte o bom sistema de áudio, e na hora que tudo para, ficar fuçando na tela tátil é distração. Como no 208, o C3 também é dotado do CarPlay para donos de smartphones Apple ou também o MirrorLink para os usuários de Android e outros. No sistema há também dados sobre o carro e outros triquetriques.

Fivela do cinto bate na coluna B, incomoda

Voltando ao convívio desta semana de (congestionada) cidade na veia, importante citar que a alavanca de câmbio poderia ter um curso menor e um trambulador menos barulhento, mais “sequinho”. Falando em barulho, andando só em ruas mal pavimentadas — todas de São Paulo —, fora a fivela do cinto de segurança do passageiro que fica batendo no revestimento plástico da coluna B e chateia um montão, o que não é bom, pois mesmo já tendo passado dos 15 mil km rodados (o que em um carro de frota de imprensa representa o dobro e às vezes o triplo), o C3 não é ruidoso, pelo contrário.

Na visita ao posto de combustível, a revisão na pressão dos pneus me fez consultar a indicação do adesivo na coluna da porta, que recomenda 28 lb/pol² (psi em inglês) nos quatro para pouca carga, 32/36 lb/pol² para carga máxima e um 36/36 lb/pol² sob a palavra “consumo”. Em favor do conforto de marcha, refutei a recomendação mas restou a curiosidade: quanto tal indicação favoreceria o consumo? Talvez mais adiante fique sabendo.

Falando em pneus, os Pirelli P1 se confirmaram competentes em piso molhado, aliás até mais do que no piso seco, o que é coerente com a formulação ecológica de seu composto onde a sílica é protagonista reduzindo a resistência à rolagem, favorecendo desempenho na água e promovendo economia.

Infelizmente, a pesquisa do pneu sobressalente revelou o que já acontece no “irmão” 208: em vez de um estepe de medida igual à da rodagem (195/60R15V) há um paradoxal pneu de modelo diferente (Pirelli P7) e medida minimamente menor, 185/60R15H. Observando o raso berço que o abriga é fácil notar que o projeto do C3 originalmente previa o uso de roda sobressalente temporária, aquela fininha, descartado talvez por razão de economia — ao que sei um pneu temporário custa mais caro que um normal. Ressaltos nas laterais do porta-malas, com cinco ou seis centímetros de altura, onde se apoia a chapa que serve de fundo ao compartimento de bagagens, compensam o que sobra do 185/60 para além do plano de metal, ou seja, roubando profundidade ao porta-malas.

Apesar desse detalhe infeliz, o saldo do C3 no uso em ambiente metropolitano duro e puro é positivo. O pequeno Citroën é um carro ideal para a cidade: compacto, econômico, fácil de levar e dotado de itens especialmente positivos como, por exemplo, o sensor de distância instalado no para-choque traseiro e a boa visibilidade global. Estrela máxima é, porém, o motor, que levado como se deve, explorando a faixa entre 2 e 3,5 mil rpm, rende seu melhor. Um porém? Sim, há: nas saídas em vias íngremes o curso do acelerador, longo, exige manha para evitar que o motor apague caso não se faça uso do freio de estacionamento, mas apenas da rapidez em deixar o pedal do freio e acelerar.

Para a semana que entra, mais uso em cidade, talvez uma viagenzinha e provavelmente experimentar como se comporta o C3 quando se usa a tal calibragem alta nos pneus.

Uma Feliz Páscoa para todos.

RA

Leia o relatório anterior: 1ª semana

 

CITROËN C3 1,2 TENDANCE PURETECH

Dias: 14
Quilometragem total: 756 km
Distância na cidade: 366 km (48%)
Distância na estrada: 390 km (52%)
Consumo médio: 10,6 km/l (gasolina)
Melhor média: 17,2 km/l (gasolina)
Pior média: 7,4 km/l (gasolina)
Média horária: 26 km/h
Tempo ao volante: 29h05 minutos

 

FICHA TÉCNICA CITROËN C3 TENDANCE 1,2 PURETECH
MOTOR
Denominação PureTech 1,2
Tipo de motor, instalação Otto, arrefecido a líquido, transversal, flex
Material do bloco/cabeçote Alumínio
Nº de cilindros e disposição Três, em linha
Diâmetro x curso (mm) 75 x 90,34
Cilindrada (cm³) 1.197,3
Comprimento da biela (mm) 145,6
Relação r/l 0,31
Taxa de compressão (:1) 12,5
Nº de comandos/localização Dois, cabeçote, variador de fase na admissão e escapamento
Acionamento dos comandos Correia dentada
Válvulas por cilindro Quatro
Potência máxima (cv/rpm, G/A) 84/ 90/5.750
Torque máximo (m·kgf/rpm, G/A) 12,2/13/2.750
Rotação limite (rpm) 6.500 (corte “sujo”)
Formação de mistura Injeção no duto
SISTEMA ELÉTRICO
Tensão/bateria/alternador (V/A·h/A) 12/60/120
TRANSMISSÃO
Rodas motrizes Dianteiras
Tipo Transeixo manual de 5 marchas + ré
Relações das marchas (:1) 1ª 3,636; 2ª 1,950; 3ª 1,281; 4ª 0,975; 5ª 0,767; ré 3,330
Relação de diferencial (:1) 4,692
Embreagem Monodisco a seco, acionamento hidráulico
SUSPENSÃO
Dianteira Independente, McPherson, braço triangular, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra estabilizadora
Traseira Eixo de torção, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra estabilizadora integrada ao eixo
DIREÇÃO
Tipo Pinhão e cremalheira, eletroassistida indexada à velocidade
Relação de direção n.d.
Diâmetro do volante (mm) 370
Diâmetro mínimo de curva (m) 10,4
FREIOS
Dianteiros (Ø mm) Disco, 266
Traseiros (Ø mm) Tambor, 203
Operação Servoassistência a vácuo, EBD
RODAS E PNEUS
Rodas (pol.) Alumínio, 6Jx15
Pneus 195/60R15V, de baixo atrito de rolamento, Pirelli P1
CONSTRUÇÃO
Tipo Monobloco em aço, hatchback, 4 portas, 5 lugares, subchassi dianteiro
AERODINÂMICA
Coeficiente de arrasto (Cx) 0,33
Área frontal (calculada, m²) 2,07
Área frontal corrigida (m²) 0,683
DIMENSÕES EXTERNAS (mm)
Comprimento 3.944
Largura 1.708
Altura 1.521
Distância entre eixos 2.460
PESOS (kg)
Em ordem de marcha 1.110
Rebocável sem freio/com freio 411
CAPACIDADES (L)
Tanque de combustível 55
Porta-malas 300/com banco rebatido 1.000
DESEMPENHO
Aceleração 0-100 km/h (s, G/A) 14,3/12,8
Velocidade máxima (km/h, G/A) 171/177
CONSUMO DE COMBUSTÍVEL (INMETRO/PBEV)
Cidade (km/l, G/A) 14,8/10,6
Estrada (km/l. G/A) 16,6/11,3
CÁLCULOS DE CÂMBIO
v/1000 em 5ª (km/h) 31,3
Rot. a 120 km/h em 5ª (rpm) 3.830
Rot. à vel. máxima em 5ª (rpm) 5.650
Alcance nas marchas (km/h, 6.500 rpm) 1ª 43; 2ª 80; 3ª 121; 4ª 160
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