Hoje vai ser diferente, em vez de contar um único fato, extenso, tirado do fundo do meu baú, serão três passagens, breves, mas não por isso menos significativas, e todas ocorridos no exterior.

 

Primeira historieta: ida a Veneza

Em 1990, eu estava na Alemanha a serviço, mais precisamente na cidade sede da Volkswagen, em Wolfsburg, localizada no norte da Alemanha, e tinha um fim de semana à minha frente. Tomei a liberdade de programar um fim de semana prolongado, ou seja, enforquei a sexta e a segunda-feira.

Meu destino, conhecer Veneza tão falada e por mim totalmente desconhecida. Peguei meu carro de serviço, à época um Vectra I 1,6 (sempre pedia à VW que alugasse para mim carros de marcas diferentes, era uma forma de aumentar meus conhecimentos e também ter experiência com a concorrência)  e segui pela Autobahn em direção à Itália passando por um pequeno pedaço da Áustria. Foram 600 quilômetros rodando bem rápido com a maior segurança, e quando cruzei fronteira com a Itália fui obrigado a me enquadrar nas leis locais, ou seja, de uma velocidade livre na Alemanha para uma velocidade máxima de 80 km/h em solo italiano (hoje é 130 km/h nas autostrade).

Meu Vectra I 1,6-L alugado (Foto: acervo pessoal)

No caminho, antes de chegar a Veneza fui conhecer Verona, valeu a pena. Como se sabe, é onde se desenrola a história de Romeu e Julieta, a grande obra de William Shakespeare.

Chegando a Veneza eu não tinha a menor ideia de como seria o traslado de terra firme para a cidade flutuante propriamente dita. Onde deixar o carro foi a minha primeira preocupação. Em terra firme procurei um estacionamento e achei um edifício-garagem muito próximo de onde deveria pegar o barco que me levaria até o centro, a Praça de San Marco.

Entrei no edifício garagem. Primeiro andar lotado, segui em direção ao segundo, igualmente lotado, só fui achar vaga no quarto andar e lá quase não havia carro algum estacionado. Pensei, é por aqui mesmo.

Estaciono em uma vaga, dentro das linhas bem demarcadas e ao me preparar para deixar o carro vem um senhorzinho na minha direção, falando italiano, dizendo que ali eu não poderia parar por se tratar de uma vaga pertencente a um mensalista. Numa mistura de espanhol, inglês, italiano nos entendemos e perguntei: “Mas não tem nenhuma vaga destas inúmeras cujo proprietário não vem este fim de semana?” A resposta foi negativa.

(weinkeller.com.br)

Foi aí que saquei um “coelho da cartola”, perguntei-lhe de forma bem clara e objetiva se em troca de três garrafas de vinho alemão ele não encontraria uma vaga cujo usuário não viria naquele fim de semana. Não foram precisos mais do que alguns segundos para vir a resposta. “Sr., acho que o dono desta vaga não virá neste fim de semana, ele esteve aqui semana passada e só vem uma vez por mês, pode deixar o carro aí mesmo. Pensei, este deve ser brasileiro morando na Itália já há algum tempo. Peguei três garrafas que tinha comprado numa parada na viagem e lhe entreguei.

Peguei minha mala, entrei no barco que me levou ao centro e fui conhecer Veneza, Murano e Burano e tive a oportunidade de visitar algumas fábricas de trabalhos em vidro superconhecidos mundialmente e alguns muito caros.

No caminho, tive a oportunidade de ver um fato muito curioso para nós brasileiros, um cortejo fúnebre onde o caixão era transportado por um barco especial, como se fosse um carro funerário aqui no Brasil, seguido por outros barcos.

O tempo passou muito rápido e a segunda-feira chegou. Peguei o barco e com minha mala me dirigi ao estacionamento. Lá estava meu carro, como eu o havia deixado. O simpático senhor veio em minha direção, me desejou boa viagem e disse ainda: “Se voltar a Veneza venha aqui que sempre terei um lugar para o amigo.” Voltei para a Alemanha e fui trabalhar.

Outro fato que me chamou a atenção foi na volta à Alemanha. Passando pela fronteira, mostrando documentos, naquela época era obrigatória a parada, pude observar outro fato muito curioso.

O piso de asfalto perfeito, já em solo alemão, tinha muitas marcas de pneus. Pensei com meus botões o que seria aquilo, mais parecia uma pista de pouso e decolagem de aeroporto do que uma estrada, no caso a Autobahn.

Explicação para tal fenômeno: Itália, velocidade limite nas estradas 80 km/h. Passado o controle de passaporte, Alemanha, velocidade livre, só limitada quando próximo a vilarejos.

As marcas de pneus eram provenientes das arrancadas dadas por aqueles alemães que ficavam nervosos de ter que andar a 80 e quando chegavam a seu território, matavam a vontade de acelerar colocando todos os cavalos disponíveis em seus carros para andar o que podiam (Porsche, BMW, Audi, Mercedes e outros).

A prática virou moda e todos os proprietários de veículos com estas características faziam questão de deixar lá suas marcas.

A velocidade nas autoestradas alemãs é livre, mas também a educação e o respeito dos alemães nas estradas é elogiável, e assim se vive por lá, enquanto aqui discutimos a  velocidade nas marginais em São Paulo.

 

Segunda historieta: andando nas Autobahnen I

Saí de Ingolstadt, sede mundial da Audi, localizada ao sul da Alemanha perto de Munique e seguia para o aeroporto de Frankfurt para voltar para o Brasil. Poderia ter pegado o avião em Munique, mas, o prazer de dirigir em solo alemão me dava a certeza de que estava fazendo a coisa certa, afinal meu voo era noturno.

Quando já tinha rodado uns 200 quilômetros com meu Mercedes alugado fui parado pela polícia rodoviária, que ao bom modo alemão colocou naquele luminoso do teto as palavras FOLLOW ME, ligou a seta e foi para o acostamento. Eu obedeci imediatamente e parei logo atrás da viatura. Um detalhe, a polícia rodoviária na Alemanha anda sempre em dupla. Enquanto o motorista descia do carro e vinha na minha direção, o outro consultava via sistema os dados do carro que eu dirigia.

O policial chegou à minha janela, desci o vidro, estava frio e me pediu os documentos do carro e minha habilitação. Dei os documentos do carro e disse estar a caminho do aeroporto de Frankfurt e que minha habilitação e passaporte estavam no porta-malas e se me permitia pegá-los. Educadamente me acompanhou até à traseira do Mercedes e lá lhe entreguei os documentos.

Agora vem o interessante da história. O policial me perguntou se no Brasil havia neblina, tudo isto em alemão uma vez que embora brasileiro, sou filho de alemães e domino a língua sendo fluente no falar, o que facilitou nossa comunicação.

Disse-lhe que sim, que havia muita neblina principalmente na época do inverno, mas neve não havia, só eventualmente em algumas cidades do sul do país.

Nosso diálogo continuou e o policial me perguntou se os carros no Brasil tinham aquela luz traseira mais forte que se utiliza quando há nevoeiro, neblina ou chuvas fortes. Respondi que sim,”é claro que temos.” Em seguida seu comentário foi: “Quando o nevoeiro, a neblina ou as fortes chuvas acabam, vocês apagam a tal luz?” Disse a ele que sim, é claro, mas alguns motoristas menos “ligados” esqueciam de desligá-la.

Ele em seguida, e de imediato, disse, “Assim como o senhor? Por favor apague a luz de aviso por que a neblina já acabou e faz tempo. Siga e faça uma boa viagem.”

Entregou-me os documentos, pedi desculpas e nunca mais esqueci de apagar a tal luz, mesmo aqui no Brasil.

 

Terceira historieta: andando nas Autobahnen II

Nessa posso contar o milagre mas não o santo.

Seguíamos pela Autobahn em direção a cidade de Kassel onde ficava e até hoje é lá, o centro de administrativo do departamento de Peças da Volkswagen para toda Europa e o departamento de exportação.

Por um momento de distração ao volante, a pessoa que estava dirigindo o carro,  perdeu a saída que em alemão é Ausfahrt, mas parou logo em seguida tendo rodado apenas alguns metros na rodovia. Comentários a bordo, “errei, deveríamos ter saído naquela estrada que seguia para a direita.” Disse-lhe, vamos até o próximo retorno, rodaremos aproximadamente 10 km e aí seguimos pela estrada certa. Meu “piloto”, diretor da VW do Brasil, fez o que se faz no Brasil,em vez de seguir em frente como eu havia sugerido, ligou o pisca-alerta e deu ré por uns 20 ou 25 metros aproximadamente e pegamos a saída.

As saídas de Autobahn são muito bem sinalizadas lá (Foto: duden.de)

Passados alguns minutos e rodados alguns quilômetros chegamos a uma barreira policial, e ao nos aproximarmos, um policial se dirigiu ao centro da pista e nos sinalizou para pararmos.

“Documentos do carro, por favor, e sua habilitação”, disse o policial. Meu “piloto” só falava inglês e o policial só falava alemão, então eu servi de intérprete.

“Por gentileza, me acompanhe”, e fomos até os “escritórios” daquele posto policial.

Sem absolutamente perguntar nada, o policial começou a preencher a multa que não era de valor baixo, por volta dos US$150 se não me engano, já faz tempo.

Ninguém falou nada, o meu “piloto” pegou a multa, o carro estava em nome da VW e a caminho do carro pediu-me para perguntar ao policial como ele sabia que ele  havia cometido aquela infração, afinal haviam sido apenas alguns metros dando ré.

A resposta foi apontando o indicador para o céu e complementando,”Foram eles que nos avisaram,” — um helicóptero da polícia rodoviária em fiscalização do trânsito que normalmente é realizada.

Envergonhados, com uma multa bem cara, seguimos nossa viagem, o silêncio imperou no carro até chegarmos ao nosso destino.

Isto me serviu de exemplo. Estando na Alemanha ou em qualquer outro lugar, nunca fazer coisas erradas. Além do risco desnecessário, alguém verá.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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