Na semana passada falei de um momento de grande emoção que tive, quando a convite da Audi Sport e Senna Import  participei, em 1997, da apresentação de um Audi de competição para jornalistas brasileiros especializados em veículos, com direito a andar no carro como passageiro. Como eu disse, foram quatro voltas completas no circuito de Interlagos, já no traçado atual, em um Audi A4 pilotado pela experiente piloto italiana Tamara Vidali, de 31 anos.

Aqui vai uma correção. Eu havia dito que se tratava de um A4 que participava do DTM, Deutsche Tourenwagen Meisterschaft, o famoso Campeonato Alemão de Carros de Turismo, mas um leitor e amigo do AE, o Luís Otávio, disse ao Bob que aquele Audi e a piloto na verdade corriam na Super Tourenwagen Cup (STW), Copa de Superturismo, que existiu de 1994 a 1999 na Alemanha e que sucedeu ao DTM depois que a Audi e a BMW deixaram este campeonato em 1992 por discordarem do regulamento para 1993, que encarecera demais os carros.

Miniatura do A4 da Tamara que fiz questão de comprar na loja da fábrica em Ingolstadt para guardar como lembrança (Foto: autor)

Voltando àquele dia, a apresentação aos jornalistas já havia terminado quando me sentei ao lado da piloto, de macacão, capacete, cinto de cinco pontos e achava que tinha trazido comigo muita coragem. Que nada, cada curva que se aproximava eu achava que não ia dar! Que freio tinha aquele carro, meus olhos não acreditavam no que viam e meu corpo, no que sentia. Foi um terror superagradável e a Tamara com uma calma que chegava a me irritar. Como era possível andar daquele jeito parecendo que estava passeando tranquilamente?

Foram as quatro últimas voltas que os pneus aguentaram, depois o carro foi recolhido para ser levado de volta à Alemanha.

A Tamara Vidali no box conversava com todos, muito simpática, comunicativa como todos da sua nacionalidade, falava e gesticulava com as mãos. Contou muitas histórias sobre a equipe Audi de quem ela era piloto oficial, das provas que participara e aventuras/incidentes de corrida experimentados. Mas chegou a hora de ir embora.

Na foto de abertura, da esquerda para a direita, eu, a Tamara, o relações-públicas da Audi Sport cujo nome o tempo levou da minha memória, e o engenheiro Herbert Daewel, ex-colega da VW do Brasil, então já na Audi Sport. O Daewel chegou a participar das definições do Voyage para o Campeonato de Marcas de 1984.

Gentilmente ofereci-lhe carona em meu carro, pois a sua van com alguns jornalistas a bordo ainda iria demorar um pouco para sair. Ela aceitou.

Pensei com meus botões, vou deixá-la dirigir meu Audi RS 2? O motor era biturbo com 300 cv.  Não, o trânsito de São Paulo é muito diferente do que ela esta acostumada, e não sei se ela saberá dirigir o meu carro… Piadas à parte, fomos do autódromo em direção ao seu hotel próximo à Av. Paulista.

No caminho, veio o assunto Fórmula 1 e, logicamente, Ayrton Senna, então falecido há apenas três anos, de quem disse ser uma enorme fã. Seus olhos brilharam umedecidos quando lhe perguntei: “Quer fazer uma homenagem a Ayrton Senna? Quer visitar seu túmulo?” Com mais lágrimas nos olhos, perguntou, “Isto é possível?”

Fiz uma manobra e dirigimo-nos para o Cemitério do Morumbi onde está sepultado nosso herói dos domingos de corrida.

Lá chegamos, fomos no carro até o jazigo, estacionei e lhe mostrei a árvore que dava sombra ao seu túmulo.

Tamara, aos prantos, desceu do carro, foi até lá, se ajoelhou e assim ficou por quase dez minutos. Ainda aos prantos voltou e entrou no carro, pediu desculpas e ficou em silêncio, que eu obviamente respeitei.

A miniatura do capacete do Ayrton Senna que dei de presente para a Tamara Vidali (Foto: acervo do autor)

Na saída do cemitério, para quem lembra, hoje não sei se ainda existe, havia uma lojinha que vendia produtos com a imagem/marca Ayrton Senna. Parei e comprei um capacete em miniatura, e lhe dei de presente. O choro que já havia parado teve reinício imediato. Emocionou-se tanto que suas mãos tremiam.

Chegamos ao seu hotel, no caminho me agradeceu a gentileza mais de dez vezes. Como é bom poder fazer uma pessoa feliz!

Tamara voltou para a Itália e ainda me mandou uma foto do capacete em sua casa em local privilegiado. Fiquei muito contente. Infelizmente esta foto não tenho mais, mas a lembrança ficou.

Vidali deixou a equipe Audi no fim do ano e seguiu sua carreira em outras marcas, perdi o contato com ela, mas com certeza ela terá para sempre a lembrança de ter vindo ao Brasil e daqui ter levado a melhor das impressões.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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