Em 1977, o famoso parque de diversões Playcenter na marginal do rio Tietê, em São Paulo, promoveu a divulgação do filme “King Kong” de John Guillermin, primeiro remake da película original de 1933, de uma forma espetacular e nunca vista no Brasil, ou seja, simplesmente foi montado no parque de diversões o “robô” gorila King Kong de Hollywood com seus impressionantes 15 metros de altura e que até fazia alguns movimentos. O personagem principal permaneceu como atração ao público durante toda a semana do lançamento do filme no Brasil. Contudo, a cereja do bolo foi exatamente no dia da estreia do filme nos cinemas nacionais, a reprodução da clássica cena em que o King Kong segura a mocinha com a mão, encenada no parque, ao vivo, pela própria Jessica Lange, a atriz principal do filme.

Eu estive presente na ocasião desse megaevento, naquele inesquecível parque de diversões, que permaneceu como referência em entretenimento para crianças e adultos, por muitos anos. Minha irmã Cristina e o meu irmão Olavo, que trabalhavam e moravam em São Paulo na época, me levaram para passar uns dias na capital e aproveitaram para fazer uma boa surpresa para mim e, de fato foi surpreendente observar aquela criatura gigantesca bem de perto —confesso que foi uma cena espetacular e até certo ponto amedrontadora!

Contudo, a lembrança que realmente me marcou naquela noite, por mais incrível que pareça não foi exatamente o macaco gigante, e sim o que havia exposto em um estande, perto da pista de kart do parque: o McLaren M23 Ford Cosworth DFV V-8 campeão mundial F-1 da temporada de 1974 conduzido pelas mãos de Emerson Fittipaldi. Naquela época, eu então com oito anos de idade, fiquei impressionadíssimo ao ver pela primeira vez um carro de F-1.

Aqueles pneus enormes, os canos de escapamento, o cockpit com aqueles instrumentos que exalavam precisão, o volante de direção — ainda eram volantes, circulares — com diâmetro muito pequeno e aquele imponente motor V-8 me deixou hipnotizado e fascinado. Era um modelo praticamente idêntico ao McLaren M23 do Autorama Fittipaldi Estrela Série Bicampeão Interlagos (aquele com a inconfundível pista de cor cinza, circuito em formato de “8” assimétrico, com uma grande curva superelevada, aceleradores na cor azul e que tinha o Copersucar FD03 como o modelo principal, inclusive na caixa, estava estampado a foto do modelo real, estrategicamente posicionado entre Wilsinho e Emerson) que eu havia ganhado de presente no Natal anterior. Sem dúvida, foi algo mágico poder ver o meu brinquedo em escala real.

O gorila-gigante trazido para o Playcenter

Ainda naquela mesma noite fiquei também muito empolgado pela “velocidade” dos karts, até aquela data nunca tinha visto uma pista de kart. Foi muito legal ver meu irmão Olavo pilotando um, me recordo de como fiquei desapontado quando me informaram que eu não possuía idade e altura suficientes para entrar na pista e pilotar aqueles pequenos bólidos.

Sem dúvida que, aquela noite, em especial a experiência de ver um F-1, foi muito significativa para mim, e que tudo permaneceu muito bem armazenado em alguma gaveta do meu hipocampo por décadas. Sobretudo, tenho convicção que aquela oportunidade, inesperada, de estar a apenas a alguns centímetros de um carro de corrida, tão impressionante pelas suas formas e cores, e que mesmo parado parecia em movimento, foi muito importante para alimentar a minha paixão por carros, corridas, Fórmula 1, relíquias automobilísticas e tudo mais que tenha relação com motores e velocidade.

Emerson Fittipaldi vencendo o GP dos EUA de 1974 em Watkins Glen, ano em que se sagrou bicampeão mundial de F-1 (Foto McLaren) .

Após tantos anos da noite do King Kong no Playcenter, como em uma daquelas peças que o destino inexplicavelmente nos prega, em julho de 2015, ao visitar o Museu do Automóvel de Curitiba (PR) me deparei, nada mais nada menos, com o McLaren M23 nº 5 de Fittipaldi (foto de abertura), o mesmo que havia me impressionado quase 40 anos antes e nunca mais havia visto… Foi um momento único, daqueles momentos mágicos que só podem ser vividos e não descritos em palavras.

Novamente o inesperado se apropriava da situação. Eu de fato havia planejado visitar o Museu do Automóvel com minha família, mas, como de costume, procuro na medida do possível não vasculhar a internet com a finalidade de conhecer todos os detalhes do local de visitação, para justamente não perder o imponderável elemento surpresa que garante o encanto dos momentos de lazer. E foi exatamente assim. Talvez se eu já soubesse que encontraria o M23 em Curitiba não sentiria, nem de perto, a mesma emoção que tentarei descrever nas próximas linhas.

Naquele momento, em frações de segundos e tão rápido como o veloz McLaren M23, muita coisa passou pela minha cabeça. Sabe quando nos ocorre aquele flashback que desafia a nossa diminuta noção de tempo e nos perguntamos como em tão pouco tempo conseguimos relembrar tantos acontecimentos da nossa vida? Foi exatamente assim, naquele breve instante me deparei com o pequeno menino que vivia nos anos 70 e que se encontrava em um parque de diversões maravilhado com a visão daquele carro fascinante e que parecia quase irreal, para então imediatamente acionar a primeira marcha, soltar a embreagem e disparar no túnel do tempo em direção ao presente. Viajando em alta velocidade, observando a vida passar como em um filme que avança em velocidade 1000x superior ao normal.

Ao observar o McLaren M23 era como se eu estivesse em uma espécie de ambiente virtual, em minha mente eu percebia um turbilhão de imagens carregadas de emoção, imagens representativas do meu passado e que estavam em minha memória, era como se eu estivesse olhando pelo retrovisor da minha vida, enquanto outras recordações surgiam como se estivessem impulsionadas a toda a potência do motor Ford Cosworth DFV V-8! Ao final dessa volta rápida, o saldo foi uma grande sensação de alívio…

Pois, apesar de tantos imprevistos que aconteceram durante esse Grand Prix que é a vida, onde em algumas voltas lideramos, em outras somos retardatários, onde as vezes permanecemos mais tempo do que o esperado nos boxes e outros momentos somos os mais rápidos da pista mesmo não liderando a prova, havia (e há) um bom motivo para a sensação de alívio: saber que a corrida ainda não acabou!

Alívio por ter certeza que até o presente essa grande corrida, denominada minha vida, me proporcionou muito mais satisfações do que frustrações! Alívio por saber que, mesmo após tantos anos, eu ainda sinto a mesma vontade de “correr” que eu sentia quando fui apresentado ao McLaren M23!

Acredito que somente os autoentusiastas, que valorizam os momentos mais simples vida, conseguem entender a dimensão das emoções proporcionadas por situações inesperadas como a desse singelo reencontro.

MC
Jundiaí – SP

 



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  • Marcelo Conte

    Obrigado Claudio. É interessante depois de tanto tempo poder recordar, nem que seja vagamente dos bons momentos que passamos na vida e esse espaço do AE nos permite isso.

  • Marcelo Conte

    Obrigado, Bera Silva. Fico feliz pelo seu feedback.

  • Marcelo Conte

    Muito obrigado Eduardo. Abraço.