Metade dos automóveis submetidos a revocação não é levada  às concessionárias, mesmo tratando-se de um problema de segurança.

Os motoristas e a imprensa reclamam: por que aumentou tanto a quantidade de revocações? A operação (recall em inglês) é necessária e importante: levar o carro à concessionária para corrigir um problema de segurança detectado pela fábrica. Mas, mesmo que o reparo seja gratuito, perde-se tempo e o carro tem que permanecer algumas horas na oficina. Às vezes, mesmo agendado o serviço, o carro chega lá, mas tem que dar meia-volta-volver, pois acabou o estoque de peças para a substituição. E outros incômodos mais, inclusive a oficina tentando “empurrar” outros serviços goela abaixo do freguês…

Deve ser por isso que, no Brasil, nem metade dos carros envolvidos é levada para o reparo, mesmo sabendo-se tratar de um problema de segurança, de um cinto mal fixado, risco de  incêndio, de ficar sem freios ou perder a roda na estrada. Diretor uma grande fabricante comentou que a fábrica fica perdida sem saber como acertar com o fornecedor do componente o volume a ser produzido para abastecer a rede de concessionárias. Se encomendar o necessário para atender todas as unidades envolvidas, com certeza haverá um excesso a ser sucateado no futuro. Se pedir apenas 50%, poderão faltar componentes e o mercado irá pôr a boca no trombone…

Será que o volume de revocações aumentou pela pressa em se lançar novos modelos? Pela redução dos testes nos protótipos? Pela substituição de parte dos testes em ruas e estradas pela simulação nos computadores? Ou talvez pela redução dos custos na manufatura e no controle de qualidade?

Os modelos brasileiros não fogem à regra. São submetidos a muitas revocações e, por isso, acusados de baixa qualidade e de falta de testes adequados antes do lançamento. Não tenho procuração da indústria brasileira para defendê-la, mas vale a pena lembrar que revocação acontece (e também aumentou de volume) no mundo inteiro. E não se restringe a carros compactos e baratos.

Recentemente foi realizada uma revocação pela famosa Maserati.  Centenas de seus modelos corriam risco de perder a roda no meio da rua, por um problema de fixação no eixo traseiro. Num passado não muito distante, proprietários do famosíssimo Rolls-Royce foram revocados para a substituição de um componente no sistema de aquecimento da cabine. A fábrica (ainda não pertencia à BMW) não informou exatamente do que se tratava, pois a marca inglesa sempre foi muito arrogante em relação aos defeitos de seus carros.

Não foi difícil descobrir que a revocação se destinava a substituir os relês nos bancos dianteiros que aqueciam exageradamente os assentos ao se acionar a calefação, pois o termostato, defeituoso, não limitava corretamente a temperatura. Já imaginaram a cena de um milionário tendo seu bumbum queimado num Rolls-Royce? Ou, na melhor das hipóteses, o do James, seu motorista?

Já se tentaram no Brasil diversas formas de induzir o dono do carro a levá-lo à concessionária para o reparo gratuito. O Contran imaginou formular uma “lista negra” dos automóveis chamados e que não atenderam à revocação. Se constasse dela, o veículo não poderia ser comercializado. Os empresários do ramo protestaram e a ideia não vingou. Imaginou-se então uma receita mais simples: as fábricas informariam aos Detrans os carros não levados à revocação e a informação seria registrada em seu documento. Se alguém adquirisse o carro, pelo menos seria informado de que corria riscos, pois ele não foi levado à concessionária. Esta ideia foi aprovada mas não saiu do papel, pois o sistema de comunicação entre as fábricas, Denatran e Detrans iria, segundo as partes, exigir um complexo sistema de informática e discute-se há alguns anos  quem o implantaria….

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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