Não existe almoço grátis: a tal revisão gratuita acaba mordendo o saldo bancário do motorista.

Passei  outro dia defronte a uma concessionária e vi na fachada uma faixa anunciando revisão gratuita de 32 itens. E não foi só essa: já me cansei de ver anúncios deste teor em diversas outras oficinas, independentes ou autorizadas.

Algumas praticam uma variação sobre o tema: em vez de anunciar revisão grátis (pois há quem desconfie do milagre…), cobra valores quase simbólicos. “Revisão de férias por R$ 60,00” ou “Revisão completa em 3xR$ 30,00”.

Não é a toa que os economistas dizem não existir almoço grátis. Quem o paga está sempre interessado num favor, ou em faturar lá na frente às custas do convidado. É óbvio que oficina nenhuma oferece uma revisão grátis ou cobrando menos do que um estacionamento. Como justificar o apelo publicitário?

Não passa de chamarisco. Pois a oficina já percebeu não existir carro nenhum levado para revisão que não necessite substituir pelo menos o óleo do motor, ou amortecedor, bucha da suspensão ou da direção, de um alinhamento da direção.

A tal revisão gratuita ou por apenas R$ 90 começa a mostrar sua cara quando o dono do carro chega no escritório logo depois de tê-lo deixado na oficina. E recebe uma ou várias ligações da oficina.  “Doutor, a bomba de água está vazando” ou “Madame, infelizmente a bucha da suspensão não vale mais nada, a senhora não ouvia um barulhinho?”

O raciocínio da oficina é de induzir o dono do carro a deixá-lo para a revisão, porque depois, com ordem de serviço emitida, vaga ocupada e semidesmontado, ninguém vai negar a execução de um serviço importante de manutenção. Algumas, honestas, se limitam a executar, caso o dono autorize,  reparos realmente necessários. Neste caso, a faixa pode não ter sido das mais honestas mas não se praticou nenhuma desonestidade: cobrou-se por um serviço que necessitava ser realizado.

Mas outras, não satisfeitas,  inventam mais uma série de itens, a chamada “empurroterapia”: descarbonização do motor, lubrificação da maçaneta, limpeza do sistema de injeção (bicos…). do tanque de combustível, do corpo da borboleta e outras igualmente desnecessárias. E fazem teatro: “Madame! Sorte a senhora ter trazido o carro hoje! Mais alguns quilômetros e ele a deixaria a pé…”, “Doutor: tinha borra no cárter e seu motor já estava para fundir!”.

De uma coisa se pode estar certo: jamais o carro será retirado da oficina sem pagar nada ou apenas pelo valor simbólico (R$ 90) pois a faixa não passa de um apelo para se levar o possante para a revisão. Os mencionados 32 itens estão muito mal explicados, mas se o motorista questiona (o que é raro) pode-se imaginar uma lista fictícia que tem cinco deles para “conferir a pressão dos pneus”, outro tanto para “verificar o nível de água, óleo e fluidos”, mais uns sete ou oito referentes às possíveis “lâmpadas queimadas” e outros igualmente banais. Todos somados, não daria nem meia hora de mão de obra….

Mencionei a tal faixa na concessionária Suzuki pois pela primeira vez a malandragem é explícita. Pois nela, abaixo dos dizeres principais, em letras menores, uma observação: “Promoção não válida para veículos em garantia”. É aí que se revela o pulo do gato. Por que a concessionária nega a tal “promoção” para um automóvel  no período de garantia?

Porque se este carro é levado para a revisão e se descobrem itens a serem reparados, a oficina não pode cobrar um centavo do dono pois o automóvel ainda está em garantia e a responsabilidade do reparo é da fábrica e da concessionária.

Aliás, é um expediente muito utilizado também por concessionárias que se aproveitam da presença do carro para a revisão obrigatória para faturar muito além do estabelecido pela fábrica.

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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