Ao longo da publicação das três partes da matéria VW 1600: “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim!”, recebi alguns comentários de proprietários especificamente do ano-modelo 1969/1969, afirmando que seus carros possuíam os quatro faróis circulares de fábrica, em vez do retangular como deveria ser.

Entre os aficionados pela linha VW este é um assunto recorrente e que excita a imaginação, porque, formalmente, os Zé do Caixão somente passaram a receber este modelo de farol com o lançamento, em agosto de 1970, da linha Volkswagen para 1971, a qual, além do Fuscão e do Karmann-Ghia TC, trouxe também o VW 1600 TL, estreando esta nova frente com quatro faróis, a qual foi estendida para o VW 1600 Variant e para o VW 1600 4-portas. Como pudemos ver na parte 3 da matéria sobre o Zé do Caixão, logo depois, em dezembro de 1970, um pavoroso incêndio na linha de pintura da Fábrica Anchieta interrompeu e posteriormente reduziu durante meses a produção desta fábrica o que acabou acelerando a retirada de linha deste polêmico modelo.

Foto oficial de divulgação no lançamento do VW 1600 4-portas da Linha 1971, com os 4 faróis circulares e novo capô dianteiro com o logotipo VW na posição vertical (Acervo VW do Brasil)

 

Voltando no tempo… Certamente você já ouviu falar do Fusca Zwitter, certo?

Quando falamos de um Zwitter (em tradução livre “hermafrodita”), estamos geralmente nos referindo às formas de vida com os dois sexos biológicos ou algo comumente misturado, isto também é usado para algumas criaturas mitológicas. Quando um amante de Fuscas antigos fala em Zwitter, ele está se referindo a uma série muito especial.

Curiosamente, no período de transição entre outubro de 1952 e março de 1953, a Volkswagen fabricou um Fusca que tinha características da série com duas janelinhas traseira, mas já apresentava o painel da série que estava por vir, ou seja com um painel com um porta-luvas à direita, uma grade central para o alto-falante e o velocímetro alinhado com a coluna de direção. Mas no dia 3 de março de 1953 os carros passaram integralmente para a série nova como a adoção da vigia traseira oval.

Como exemplo de Zwitter, aí vão fotos de um raro exemplar que ficou 30 anos guardado num celeiro. Seu primeiro licenciamento foi em 1952 e ele serviu na zona de ocupação americana de Wüttenberg, Alemanha. Tirando o pó de décadas, calibrando os pneus, trocando a bateria e colocando dez litros de gasolina no tanque, bastaram algumas tentativas para este carro pegar. E para surpresa do mecânico, depois de um breve “test drive” no pátio daquela fazenda, câmbio, freios, direção, tudo funcionava. (Fotos do site alemão Ascari):

Pois bem, esta série, o Zwitter alemão, foi oficial e é reconhecida como tal pela fábrica, e hoje são carros muito raros, pois a maioria teve suas duas janelinhas traseiras alteradas para oval.

Mas, por aqui, segundo os referidos relatos de proprietários, estamos sendo confrontados com um possível Zé do Caixão “Zwitter”, será?

Nos casos relatados a única diferença para o modelo 1969 são os quatro faróis circulares e o capô dianteiro, o restante permaneceu o mesmo.

Vamos ver como era a frente do modelo com faróis retangulares, vemos que a chapa era vazada numa moldura também retangular:

Frente de um 1969 com farol retangular (Foto: Ricardo Láo)

Já que estamos falando dos faróis retangulares, para a linha 70 do VW 1600, lançada em fevereiro de 1970, foi feita uma modificação na moldura cromada utilizada neste tipo de farol. Ela foi redesenhada, ficando mais fina com a intenção de “suavizar” a frente do carro, a qual era criticada devido ao seu aspecto um tanto quanto “bruto”.

Ainda sobre os faróis retangulares, registro um relato muito interessante do amigo Guilherme Sabino, ex-Volkswagen, sobre a utilização deste modelo de farol: “Numa conversa com o Sr. Hix, que era chefe do estilo da Volkswagen do Brasil naquela época, ele me contou que viu estes faróis retangulares no estande da Cibié em um Salão do Automóvel e resolveu adotá-lo no VW 1600 4-portas. No protótipo alemão EA47 eram circulares e o carro se parecia com um Gordini, é uma peça genérica que também foi usada nos caminhões Mercedes e seria usada no ‘carro fantasma’, o Democrata.”

Complementando as informações sobre o uso destes faróis quadrados aí vão fotos do caminhão Mercedes 1512, do protótipo do ônibus com chassi e carroceria Massari e motorização FNM traseira apresentado no Salão do Automóvel de 1968 e, finalmente, do automóvel Democrata, que não chegou a entrar em produção:

Na frente do modelo com quatro faróis havia um nicho, com moldura ovalada, para encaixe do corpo dos refletores, sendo que a chapa não era vazada, havendo somente um furo para passagem da tomada para ligação dos cabos de alimentação, uma chapa, que não aparece na foto, com recortes para os faróis, completava o conjunto.

Frente do carro de quatro faróis circulares do Ricardo Láo

E é este o ponto crucial da discussão sobre o objeto desta matéria! Alguns proprietários que restauraram seus VW 1600 1969/1969 relatam que não foram encontrados vestígios de transformação na lataria, sendo a frente aparentemente selada. Afirmam que durante o processo de restauração, funileiros experientes em serviços na linha Volkswagen não encontraram indícios de que tenha havido qualquer enxerto dos nichos para os quatro faróis.

Tira teima?

Mas “vamos aos fatos”. Um dos casos que já é emblemático no mundo dos donos de VW 1600 4-portas nos foi relatado pelo atual proprietário do carro, o Ricardo Láo, do Rio de Janeiro (RJ). O texto que se segue foi recebido como está sendo reproduzido, sem alterações, e no seu final seguem as fotos que complementam o relato:

Sou amigo do Hugo Bueno e ele me pediu que fizesse um relato sobre o fato do meu VW 1600 4-portas ter a frente de 4 faróis e de ser um 1969. 

O meu carro foi comprado de um senhor português, Sr. Barbosa, que retirou esse carro 0-km em 1969 na extinta revenda Volkswagen do Catete aqui no Rio de Janeiro RJ, a Wilsonking.

O Sr. Barbosa veio de Portugal para tentar a vida no Brasil, trouxe esposa e constituiu família aqui. Começou como motorista de caminhão e depois, conseguiu uma concessão e adquiriu este carro para trabalhar como taxista.

Segundo relato dele, ao retirá-lo da concessionária ele optou por um modelo que tivesse quatro faróis, pois a iluminação pública era precária e a iluminação do farol quadrado não satisfazia.

 Mesmo com seus 95 anos ele é lúcido, estou com ele periodicamente e ele conta histórias do carro em detalhes.

Após adquirir o carro vi que algumas coisas não me agradavam e comecei a me informar mais sobre o modelo para fazer uma restauração perfeita que o modelo merece. Foi quando, dentre muitas descobertas, soube da “polêmica” dos faróis duplos. 

Encaminhei assim o carro para um famoso funileiro carioca das antigas, o “Tuneca”, para proceder com os serviços de funilaria que achasse necessários no carro para trazê-lo à originalidade.

Foi quando, em uma das minhas visitas à oficina, ele colocou mais dúvidas a respeito do carro. Após raspar toda a frente ele constatou que mesma era intocada. Nunca havia sido substituída e conservava a cravação de fábrica. Indaguei se havia alguma dúvida nisso e ele me confirmou que não e que, nos seus mais de 40 anos trabalhando com funilaria, já tinha se deparado com modelos incólumes e com painel dianteiro de farol duplo, mesmo os 1969.

 Fiz mais pesquisas e não encontrei nenhum embasamento técnico que sustentasse esse fato. Todos que conhecem o modelo afirmam que faróis duplos apenas saíram nos modelos 1970 de vinco único. Da mesma forma que já vi em muitos eventos de antigos, dos quais participo, VW 1600 4-portas ostentando placa preta com painel de faróis duplos como o meu.

 Por fim, levei a questão ao antigo e único dono anterior. Ele me afirmou categoricamente que nunca teve colisão com o carro ou avaria que tivesse que substituir o painel dianteiro.

 Bem…este é o relato que tenho e mando anexadas algumas fotos do carro em sua restauração e dos ex-donos…

E este não é o único relato que se conhece, também há o relato Leonardo Pires Ramos (nas redes sociais ele usa o nome Leonardo Giovana Ramos, incluindo o nome de sua esposa) de Piracicaba (SP), que entrou em contato comigo através do Facebook e, depois, através dos comentários da matéria. Mas vamos ao que ele colocou no Facebook:

Gostaria de saber se você pode me ajudar em uma questão que tem me atormentado…

Tenho um Zé do Caixão ano 1969. Ele tem faróis circulares e pelo que me disseram só saíram com faróis quadrados naquele ano.

Já conversei com algumas pessoas que também tem Zé do Caixão 1969 com faróis circulares, assim como o meu, e que não tem indícios de adaptação desses faróis. Você tem alguma informação sobre isso?

O Leonardo me passou, poucas horas antes do fechamento desta matéria, mais um exemplo, desta feita em São Paulo (SP). É o caso do Zé do Caixão do José Henrique Inácio. Consegui fazer contato com ele pelo telefone e ele contou que seu pai tinha comprado o carro novo em 1969, com quatro faróis, na concessionária Avesa (Avel Apolinário Veículos), de Santo André, que existe até hoje como Avel Concessionária Volkswagen e Scania, estando atualmente em São Bernardo do Campo.

A emocionante história do carro do José Henrique foi registrada no sexto capítulo da série “Fanáticos por Antigos” que vale a pena ser visto:

Seguramente estes relatos de VW 1600 4-portas 1969 que teriam sido comprados com quatro faróis circulares em Concessionárias Volkswagen é um dos casos mais controversos que envolvem os Zé do Caixão, mas estamos à procura de outros relatos em linha com estes para ver se há outras ocorrências semelhantes. Caso alguém souber de outro caso, nos comunique por favor (podem usar o e-mail: alexander.gromow@autoentusiastas.com.br).

Pesquisamos junto a pessoas que foram funcionários da Fábrica Anchieta da Volkswagen naqueles tempos e eles afirmam o seguinte: “A Volkswagen do Brasil jamais lançaria este veículo com os novos faróis e com a tampa antiga, não teria nenhum sentido, que estratégia de lançamento seria esta?” Isto descartaria a possibilidade de terem saído carros 1969 com faróis da série 1971 como originais de fábrica; menos ainda em poucas quantidades numa linha de produção.

O “Conselho Editorial de Matérias Conjuntas desta Coluna” (eu e o Hugo Bueno) reitera a posição que havia sido dada nos comentários sobre este assunto no campo de discussão da parte 2 da matéria do Zé do Caixão, que foi:  “Esse foi um dos itens intensamente pesquisados por este conselho, mas, infelizmente, nenhuma evidência foi encontrada sobre a antecipação oficial da utilização desse modelo de quatro faróis circulares, que estreou no final de 1970 já como linha 1971. Essa novidade inclusive foi introduzida após o lançamento do VW 1600 TL, integrante da linha VW 1971. Ainda está em aberto fazer análises mais detalhadas nestes carros ainda sem uma explicação concreta, para eliminar definitivamente a possibilidade de uma excelente e ‘imperceptível’ troca das frentes dos carros em questão.”

Então permanece a pergunta em aberto “mistério ou lenda urbana?”. Como dissemos anteriormente, gostaríamos de saber se há outros relatos semelhantes, bem como queremos saber a opinião de nossos caros leitores sobre o que foi exposto aqui.

(*) As partes da matéria VW 1600: “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim!” podem ser acessadas clicando em Parte 1, Parte 2 e Parte 3.

Para quem se interessar em conferir como seriam os detalhes originais dos modelos VW 1600 4-portas lembramos que na Parte 3 da matéria sobre eles podem ser vistos exemplos de carros com altíssimo grau de originalidade.

AG

Este trabalho contou com a sempre bem-vinda participação de Hugo Bueno, com que já desenvolvi várias matérias para o AUTOentusiastas. Agradeço a colaboração do Guilherme Sabino. Participaram com destaque deste trabalho os seguintes proprietários de VW 1600 4-portas ano 1969, modelo 1969: Ricardo Láo, Leonardo Pires Ramos e José Henrique Inácio, a quem agradeço pela colaboração.
As placas dos carros do Ricardo Láu, do Leonardo Pires Ramos e do José Henrique Inácio não foram cobertas pois eles, quando consultados sobre isto, não acharam este procedimento ser necessário visto a grande exposição destes carros nas mídias.
NOTA: Nossos leitores são convidados a dar o seu parecer, fazer suas perguntas, sugerir material e, eventualmente, correções, etc. que poderão ser incluídos em eventual revisão deste trabalho.
Em alguns casos material pesquisado na internet, portanto em regra de domínio público, é utilizado neste trabalho com fins históricos/didáticos em conformidade com o espírito de preservação histórica que norteia este trabalho. No entanto, caso alguém se apresente como proprietário do material, independentemente de ter sido citado nos créditos ou não, e, mesmo tendo colocado à disposição num meio público, queira que créditos específicos sejam dados ou até mesmo que tal material seja retirado, solicitamos entrar em contato pelo e-mail alexander.gromow@autoentusiastas.com.br para que sejam tomadas as providências cabíveis. Não há nenhum intuito de infringir direitos ou auferir quaisquer lucros com este trabalho que não seja a função de registro histórico e sua divulgação aos interessados.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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