Automóvel foi criado como meio de transporte. Mas hoje é status, paixão, sonho e liberdade. Às vezes, o vilão da história.

O mundo do automóvel é fascinante. Movimenta bilhões de dólares e poucos escapam do marketing que sutilmente induz ao status, paixão, sonho, esporte, liberdade e emoção.

Mas tem o outro lado da moeda: o carro como vilão da história.

O mestre de obras – ele se aboletava diariamente em sua moto para ir e vir do trabalho. Vivia feliz com a mulher e filhos na casinha própria, sem maiores problemas financeiros.

Até não resistir e realizar o acalentado sonho do automóvel, comprado de um amigo que facilitou parte do pagamento. E ainda aceitou a moto como parte da entrada. O carro? Pouco mais do que uma sucata sobre rodas, dessas que só circulam por teimosia e por não existir inspeção veicular no Brasil.

Daí para frente, uma sucessão de desastres: até então pontualíssimo no trabalho, perdeu o emprego pois vivia atrasado: o carro enguiçava quase diariamente. Deu carona um dia para a vizinha e foram parar no drive-in. A esposa descobriu e desmanchou o casamento. Contraiu dívidas impagáveis, não pagou o amigo nem a oficina e perdeu o crédito na praça. E ainda ficou a pé, pois o carro está imobilizado, num lote vago, com o motor fundido…

Meia de seda – No dia em que o carro do Carlinhos parou na rua com a correia arrebentada, quem quebrou o galho foi o vizinho. Foi em casa, pegou uma meia de seda da mulher (como a da foto de abertura), enrolou, esticou, passou pelas polias do motor no lugar da correia, deu um nó bem apertado e deu para o carro chegar na oficina. Colocada a nova correia, Carlinhos guardou a meia (que ficou imunda) no porta-luvas para lavar e devolver para o vizinho. Mas ficou lá, esquecida. Até o dia em que sua mulher abriu o porta-luvas, achou a meia de seda e nem quis saber de conversa. Carlinhos e ela estão às voltas com o advogado que trata do divórcio…

Uma linda gaiola – Outra história em que o carro entra como vilão é a do “Zé Barriguinha”,  que herdou um pedaço de terra quando o pai morreu. Seus dois irmãos continuaram na vidinha simples, trabalhando na terrinha que herdaram.

Mas o Zé Barriguinha tinha planos mais ambiciosos e trocou sua parte no terreno por um velho caminhão. Na singeleza de seu raciocínio, ganharia pelo menos o dobro fazendo frete.

Só que o caminhão passava mais tempo na oficina que no trabalho. Meses depois, para pagar o que devia na oficina, Zé Barriguinha trocou-o por uma picape. Que também não deu certo e foi trocada por uma moto. O jeito de pagar as despesas do hospital depois do primeiro tombo foi barganhando a moto (avariada) por uma bicicleta.

Não sei bem dos detalhes, mas o certo é que sobrou para o Zé Barriguinha, no final da história, uma gaiola de passarinho. Mas, verdade seja dita, uma lindíssima gaiola…

Prego – Tem a do psiquiatra que não se rende ao culto do automóvel. Está sempre ao volante de um carro novo em folha e o troca religiosamente cada dois anos. Quando recebe o modelo novinho na concessionária, sua primeira providência é passar um prego de fora a fora na lateral, riscando profundamente a pintura. Apesar do espanto geral na concessionária, não se considera um doido varrido: segundo ele mesmo, carro é meio de transporte e não pode aborrecê-lo. Então, ele passa o prego para não se preocupar com a possibilidade de um estranho vir a fazer o mesmo…

 

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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