Pois é. Nada como um dia depois do outro, não? Semana passada foram divulgados os primeiros números sobre acidentes nas marginais Tietê e Pinheiros em 2017 e… bazinga! Não apenas não houve aumento nas tragédias depois da volta dos antigos limites como ainda por cima houve uma redução. E bem considerável.

Evidentemente que um mês de levantamento não permite fazer projeções, mas ainda assim vale a pena nos debruçarmos sobre os dados divulgados pelo Movimento Paulista de Segurança no Trânsito, o Infosiga. Vale destacar que o Infosiga é o sistema do governo do Estado que monitora o tráfego nos 645 municípios de São Paulo.

Em janeiro de 2017 foram contabilizadas 60 mortes nas vias da cidade ante 86 do mês imediatamente anterior – ou uma queda de 30%. Quando comparado janeiro de 2017 com janeiro de 2016, o que seria mais correto, a queda é de 25% já que naquele mês do ano passado foram registrados 81 óbitos.

E é justamente aí que está o mais intrigante de tudo. Vamos lembrar que no dia 25 de janeiro é que as velocidades voltaram a ser de 90 km/h apenas para os veículos leves e, ainda assim, nas pistas expressas. Não houve alteração para os veículos pesados nem na pista mais à direita das faixas locais. Ou seja, houve somente 7 dias de velocidades, vá lá, mais altas. Durante 75% do tempo analisado a velocidade era exatamente igual à de janeiro de 2016. No entanto, houve menos mortes no trânsito dessas vias. Ué, mas não era a velocidade a vilã? Não era dela a culpa pelos acidentes? Pelos números, diria que não…

Os números contrariaram a ideologização (Foto:spresso.com.br)

É claro que devemos analisar outros meses e, como sempre digo, outros dados. Mas faço questão de escrever sobre isto apenas para ficar na linha de raciocínio dos governantes que reduziram as velocidades e sempre que mostravam números de redução de acidentes alegavam que se devia a isso. Sempre fizeram pouco caso daqueles que diziam que havia que se considerar o efeito da recessão econômica, que tirou veículos de circulação. Sempre disseram que isso não acontecia.

Como de resto, os números de acidentes vinham registrando queda, confirma-se que isso não depende exclusivamente da velocidade máxima, certo? Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) em 2016 houve queda de 54% no número de mortes por acidente de trânsito nas marginais do Tietê e do Pinheiros quando comparados com o ano anterior. Ao longo do ano passado 21 pessoas morreram em acidentes de trânsito nas duas marginais ante 46 ocorrências em 2015. O total de acidentes com vítimas também caiu de 740 para 460 no mesmo período. Indo além nas contas, se em todo 2016 morreram 21 pessoas nas duas marginais, houve quase 2 mortes por mês nas duas vias. Em 2017, a primeira morte nas marginais aconteceu no dia 15 de fevereiro – ou seja, média de 1 morte a cada 45 dias.

No caso das motos, em 2015, quando a prefeitura reduziu os limites de velocidade no meio do ano, foram 17 mortes. Já em 2016, quando velocidades reduzidas valeram durante todo o ano, houve 15 mortes, duas a menos que no ano anterior, lembrando que as motos representam 13% da frota de veículos da capital e estão relacionadas a 74% dos acidentes com vítimas nas marginais.

Tudo isto confirma que reduzir a velocidade não é panaceia. A gestão anterior negou o tempo todo que houvesse menos veículos circulando na cidade ou que isso se devesse a outros motivos. Vamos ver qual é a justificativa agora.

Sim, já me antecipo a eventuais “habeas corpus preventivos” daqueles que defendem a redução dos limites. O Infosiga faz parte do governo estadual, que desde janeiro é do mesmo partido que o atual prefeito. Mas no ano passado era “de oposição”, supondo que não haja isenção ou critérios técnicos não os haveria nos quatro anos anteriores, quando foram utilizados esses mesmos números como motivo para reduzir os limites de velocidade.

Como já foi dito neste espaço, diminuir acidentes de trânsito depende de uma somatória de fatores dos quais a velocidade é somente um entre muitos outros. E pelos resultados iniciais, diria que está claro que tem peso bastante relativo.

Um atropelamento fatal e uma morte de motociclista foram registrados nas marginais Pinheiros e Tietê, respectivamente até o momento que escrevo estas linhas. E em nenhum dos dois casos há relação com a velocidade. No primeiro é lícito supor que o atropelamento tenha sido de ambulante que só estaria lá para vender algo caso o trânsito estivesse realmente lento ou totalmente parado, já que ninguém é maluco de se postar no meio da marginal para vender algo quando o trânsito está andando — seja a 70 km/h, a 90 km/h ou qualquer velocidade acima dos 40 km/h. Se foi de pedestre, voltamos na questão de que não há motivo para alguém perambular pelo local e que seria atropelado a 70 km/h, 90 km/h ou como aconteceu com um ônibus na rua Boa Vista na primeira semana de velocidade máxima de 30 km/h no centro – e resultou na morte instantânea do pedestre, ainda que o ônibus estivesse a essa espantosa velocidade.

Ainda é cedo, mas os dados confirmam a tendência (Foto: mapionet.com.br)

No segundo caso, foi um motociclista que bateu na traseira de um carro que quebrou na faixa 2 da pista expressa às 5h30 da manhã e num caso em que não está claro se havia algum tipo de sinalização, como pisca-alerta. E não houve colocação de triângulo. Ou seja, a qualquer velocidade, que nem estimada foi, a moto teria batido no carro parado com enormes chances de morte pela pouca proteção que a moto dá para o piloto.

De resto, sem surpresas. Em janeiro deste ano, os atropelamentos foram a principal causa de mortes no trânsito, com 40% das ocorrências, ou um total de 24 casos, o que mostra que ainda há muita coisa a ser feita nesse aspecto. Por muita coisa entendam, caros leitores, retirar sumariamente as pessoas que transitam pelas marginais ou que se postam no meio do asfalto. Os acidentes com motocicletas aparecem em segundo lugar com 35% das mortes. Ou seja, como já era antes, motos e pedestres.

Ainda de acordo com o Infosiga, em dezembro de 2016 foram registradas 6 mortes no trânsito nas marginais: 2 de pedestres na Pinheiros e 4 de motociclistas nas duas vias. Infelizmente não dá para comparar janeiro com janeiro pois os dados por endereço de ocorrência só passaram a ser computados pelo Infosiga a partir de setembro do ano passado.

Somando todas as cidades do estado de São Paulo, também há queda nas mortes: 7,5% no mês de janeiro, de 441 registros em janeiro do ano passado para 408 em janeiro de 2017. E em pouquíssimas cidades houve redução da velocidade.

Mudando de assunto: Semana passada meu vizinho deu uma festa. Com essa moda de carros brancos parecia que tinha um ponto de táxi na frente da casa…

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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