Hoje vou contar um segredinho que guardava a sete chaves. Afinal não faria diferença nenhuma guardá-lo para sempre; quem sabe alguém poderá usá-lo.

Você deve se lembrar, e está no meu currículo, que atuei durante um bom tempo “emprestado” pela Volkswagen do Brasil para a Audi AG, na Alemanha. Fui indicado pela VW daqui para ser representante de assistência técnica da Audi para a América do Sul.

A foto de abertura se refere apenas a um Audi A4 da categoria DTM, trazido em 1997 para jornalistas brasileiros o experimentarem em Interlagos, um evento conjunto Audi Sport-Senna Import. Com a leitura você vai entender onde eu entro nessa história.

Dei quatro voltas como passageiro da piloto italiana Tamara Vidali; disseram-lhe que fui gerente de VW Motorsport, aí foi que ela acelerou mesmo (Foto: arquivo pessoal)

Foi um processo bastante complicado porque eu precisava de uma autorização do governo alemão. Isto era para garantir que eu não estaria tirando nenhum emprego de um alemão (igualzinho aqui no Brasil…). A Audi foi obrigada a divulgar a procura por uma pessoa que além de ser expert na área do pós-vendas, falasse alemão, inglês, espanhol e português.

Os importadores a serem visitados por mim estavam nas capitais da Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela e, claro, Brasil, onde tínhamos a conhecida firma Senna Import do saudoso Ayrton Senna e sua família, importadores oficiais Audi.

Pois bem, depois de três meses de espera pelo resultado da pesquisa alemã eu fui aprovado.

Como base de trabalho tive dois escritórios, um aqui no Brasil, mais precisamente no edifício da Volkswagen no bairro do Jabaquara também conhecido como “o negrão do Jabaquara”, uma vez que sua fachada era toda em vidro preto, paralelo à pista do aeroporto de Congonhas, e uma base na sede da Audi em Ingolstadt (sul da Alemanha, a 85 quilômetros ao norte de Munique).

Fui sozinho para este desafio, minha família, mulher, filhos e sogra ficaram no Brasil e eu viajava como um caixeiro-viajante. A maior dificuldade era a minha ausência,  minha esposa e filhos, e até minha sogra, viúva e que morava conosco, reclamavam com razão.

Recebendo placa de homenagem das mãos do sr. Manuel Carrizosa, titular da Diesa, concessionária Audi para o Paraguai; em 1996 (Foto: arquivo do autor)

Aqui em São Paulo eu tinha uma secretária bilíngue que muito me auxiliava e você já vai saber como.

O meu roteiro de viagens era elaborado com antecedência para reduzir os custos das passagens aéreas e aprovado pela matriz. A secretária se incumbia de fazer as reservas e naquela época ainda se podia viajar de classe executiva. Hoje em dia se pudéssemos viajar em pé, seria a escolha da empresa por ser a mais barata.

Eu tinha um roteiro desenvolvido pela necessidade de visita e apoio aos importadores.

Exemplo de uma viagem: saída de São Paulo na segunda-feira com destino a Assunção no Paraguai, visita de dois a três dias e em seguida devido à proximidade visitava o importador do Uruguai na cidade de Montevidéu. O fim de semana eu passava em viagem, muitas vezes adiantando o deslocamento para outro país vizinho.

Depois de ter visitado dois ou três importadores, eu visitava a Senna Import, aqui em São Paulo, então a maior importadora da marca Audi na América do Sul. Por ser a maior, com em torno de 20 concessionárias no Brasil por ela nomeadas, eu por aqui ficava por muitas vezes mais de uma semana, e além de visitá-las também matava a saudade da família, esposa e filhos — e da sogra.

Nesses dias, quando possível, eu ajudava nos eventos da Senna Import, daí a foto do Audi A4 do DTM que abre esta coluna.

Foi um grande trabalho de parceria com a Senna Import, posso citar o nome do Jaroslav Sussland, diretor de Vendas, e na área do Pós-Vendas meu diretor era um ex-colega de Autolatina, José Humberto Bernardes. Ótimos parceiros!

 

Relatórios e criatividade

Como toda empresa, principalmente as multinacionais, depois de uma visita ao importador eu tinha que informar a minha diretoria o que tinha feito, como tinha feito, a situação do importador na minha área de responsabilidade, o atendimento aos clientes, e relatar a visita passo a passo por meio de um minucioso relatório.

Depois de ter visitado uns três ou quatro países havia o meu retorno à base na Alemanha para prestação de contas, treinamento, atualização sobre novos produtos, etc.

A minha sala em Ingolstadt era dividida com meus colegas que visitavam importadores de outras regiões e isto era muito divertido. Tínhamos os alemães, os japoneses, os chineses, os representantes que visitavam os importadores do Oriente Médio, enfim, era o mundo reunido em uma grande sala, mas nem sempre coincidia de haver a presença de todos. Assim é que alguns nos quatro anos que lá atuei só conheci por fotos.

Agora vem a história que coloca a criatividade do brasileiro em destaque e meu segredo.

Meu diretor me chamou à sua sala e pediu para fazer, com muita urgência, um relatório sobre o importador de um país que devido a seu péssimo desempenho e às inúmeras chamadas de alerta que já haviam sido feitas, teria o seu contrato de representação da marca cancelado.

Não era segredo para meus chefes que eu dominava as quatro línguas exigidas para a função, mas que eu não escrevia o alemão — eu me denominava semianalfabeto no alemão: diálogo e leitura dez, mas escrever era pedir demais.

E agora, o que fazer? Como vou sair desta? Vou ganhar pontos e fazer o relatório em alemão, como? Veja abaixo.

Sentei-me à mesa que me era reservada e comecei a escrever em português meu relatório. Situação do importador, resultados operacionais, comentários sobre as instalações, estoque de peças, movimento de oficina, reclamações de clientes. Eu sabia que o relatório tinha que ser completo porque ele seria um suporte para o cancelamento do contrato entre o importador e a Audi AG. Eu soube também por ocasião das últimas visitas de que já havia um novo grupo, financeiramente muito mais forte, interessado na “bandeira” da marca.

Terminado meu relatório de umas três ou quatro páginas, manuscrito, enviava-o para o Brasil via fax para minha secretária bilíngue e solicitava a sua tradução para o alemão, com o reenvio para mim em Ingolstadt pelo mesmo meio. Recebido o relatório em alemão, eu o conferia e tinha o conhecimento para fazer a adequação de algumas palavras mais técnicas que a secretária obviamente não tinha a obrigação de saber, e a instruía por telefone para as correções.

Recebido o relatório em alemão já corrigido e impresso em papel timbrado da empresa e recebido originalmente via fax, não faltava nada a não ser ir à copiadora e tirar cópias em papel normal A4 e ainda com o logo colorido, dando assim originalidade ao documento.

Conferido, lido e relido, e assinado, foi entregue ao meu diretor dois dias após sua solicitação, o que para os anos ‘90, sem as facilidades do e-mail de hoje, era quase um recorde.

Minha estada para aquela viagem à Alemanha tinha chegado ao fim e eu já me preparava para seguir rumo ao aeroporto de Frankfurt (a 180 quilômetros) com destino ao Brasil, quando o chefe me chamou à sua sala. Meu pensamento não foi o melhor possível…

Entrei e ele pediu para fechar a porta. Achei que seria o fim.

Jantar de despedida do grupo VW/Audi com a presença da diretoria de ambas as marcas e da Senna Import; ao meu lado minha esposa Lúcia; 1998 (Foto: arquivo do autor)

Em alemão, que era a nossa língua, ele me disse: “Sr. Berg (alemão é muito formal) sei que o sr. não escreve alemão, foi o que sempre me disse. Como este relatório que lhe solicitei está em alemão e tão bem escrito? Algum dos seus colegas daqui lhe ajudou?”  Respirei aliviado e contei-lhe as manobras feitas para que aquele relatório chegasse às suas mãos como chegou.

Um detalhe que esqueci de comentar: minha assinatura era feita propositalmente com caneta azul para dar maior originalidade ao documento.

Seu comentário foi: “vocês brasileiros são incríveis, a criatividade de vocês é demais. Se eu peço o que lhe pedi para um alemão provavelmente teríamos um enterro, já que o alemão se suicidaria. Meus parabéns, obrigado e boa viagem.”

Em tempo, vou lhe contar outra “fórmula mágica”, por mim criada para fazer relatórios bilíngues.

Durante minha visita aos importadores fazia anotações no meu caderno e à noite, no hotel, eu fazia o meu rascunho de relatório. Depois da última conversa com a diretoria do importador e todas as solicitações e próximos passos acertados, eu pedia uma meia hora com a secretária para redigirmos o relatório na língua do país. Sentado ao lado dela fazíamos o relatório a duas mãos e uma cabeça, em espanhol do país (diferentes em muitos países da América do Sul) e depois, em papel timbrado Audi, fazíamos a cópia para assinatura de ambos, a do importador dando o seu de acordo e a minha como autor desta “obra-prima”. Era fantástico, não havia dupla interpretação para as pendências acordadas.

Assinado, despedida, e enquanto eu viajava para outro país a ser visitado, a minha secretária bilíngue já tinha recebido o meu relatório em português, manuscrito mesmo e o traduzia para o alemão, enviando-o em seguida para o meu chefe na Alemanha e isto acontecia invariavelmente na semana seguinte à minha visita.

No mesmo jantar de despedida, o Sr. Miguel C. Barone, naquela ocasião acumulando as funções de vice-presidente da VW do Brasil e diretor de Vendas, e que tinha sido meu gerente durante 10 anos de escritório regional do Rio de Janeiro, dirige palavras a mim; 1998 (Foto: arquivo do autor)

Contei este detalhe também ao meu chefe alemão porque ele comentou comigo que o meu antecessor entregava seus relatórios de visita praticamente dois meses após  realizada e eu o entregava apenas duas semanas depois.

A expressão final dele foi esta: “Isto é incrível, vamos sentir sua falta quando você nos deixar” — o que aconteceria dois anos depois, quando saí do Grupo Volkswagen e fui por indicação do meu parceiro de prazo infinito Bob Sharp para a General Motors do Brasil. Alegria minha, experiência adquirida, muitas, mas muitas horas de voo acumuladas e finalmente de volta ao seio da família.

Tudo isto foi muito bom para mim pessoalmente, para minha carreira e, creio, para as empresas também. Faria tudo de novo e igualzinho. Afinal, sou um autoentusiasta não é de hoje.

RB

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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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