Na semana passada ao escrever sobre algumas dúvidas que me acometem sobre o trânsito, mencionei que na minha percepção a maioria dos carros 1,0 faz questão de circular pela pista mais à esquerda.  Posso ter dado a impressão de que tenho preconceito com carro desse tipo. Não tenho nada contra, muitíssimo pelo contrário. Eu mesma tive vários e gostei muito.

Um parêntese. Aprendi aqui no AE, antes de ser colunista, que esse negócio de separar a parte inteira da fracionária de um número por ponto é a maior furada. No Brasil usa-se a vírgula para isso, portanto em vez de ponto o correto é usar vírgula, 1,0, 2,0, 3,5, etc. O Bob me explicou que isso deve à preguiça (dá um trabalho…), é mais fácil pronunciar pon-to do que vír-gu-la. Bazinga!

Algum leitor disse que há carros 1,0 que andam muito rápido. É claro que sim, e em nenhum momento eu disse (bom, escrevi) que eles andavam mais devagar do que outros com cilindrada maior. Não mesmo. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Tem uma longa lista de coisas que importam para que a velocidade de um carro seja mais alta e cilindrada não é das principais. Em 1950 meu avô teve um Ford 1937 com motor V-8 de 2,3 litros e 60 hp que não andava nada. Ele, inconformado com isso, trocou o motor por um 3,6-litros de 85 hp. Na época era toda uma novidade e considerado uma belíssima máquina, mas hoje talvez seria multado por andar abaixo da velocidade mínima numa estrada.

Como curiosidade, ele fazia a mecânica e elétrica do carro e chegou a pintá-lo, ele mesmo, com pincel, inteirinho. O problema foi a opção estética dele: cinza e a parte superior vermelha. A família inteira detestou e o carro foi apelidado de algo que em tradução livre seria parecido a “velha mal maquiada”. Até hoje é unânime que foi uma péssima opção e motivo de estranhamento, já que apenas seus dois filhos homens eram daltônicos — ele não, mas hoje me pergunto se ele não teria algum problema com cores. Quem sabe era apenas mau gosto…

O Ford ’37 de 60 hp do meu avô era exatamente como esse (Foto: thetransportjournal.com)

O principal motivo para o baixo desempenho era que a geringonça pesava um zilhão de quilos. Mas havia outras muitas coisas e fica claro que um motor 2,3 não anda mais do que um carro 1,0 atual. Pessoalmente fico muito irritada quando alguém quer se mostrar dizendo que comprou um carro “1.8” ou quando diz que o “motor é 2.0”. Eu tenho um com motor 1,6 que é um avião e certamente anda mais do que muitos com cilindrada mais alta — mérito do motor THP turbo, não tanto de quantos centímetros cúbicos tem o motor. Entre outras razões, a relação peso x potência é fundamental para a velocidade final de um carro. O carro do meu avô é a melhor prova disso. Ao escolher um carro, eu prefiro me informar sobre a potência do motor. Mas ainda assim, é informação relativa. O meu Peugeot 205 tem somente 75 cv, mas anda que é um espetáculo, pois é leve e tem uma relação de marchas adequada. O motor? 1,4, mas anda mais do que muito 1,6 por aí. E tem 70% da cilindrada do motor do carro do meu avô.

Prova disso é que carros de Fórmula 1 em 1950 tinham motores de 4,5 litros, mas em 2014 passaram para 1,6 litro turbocomprimido. Não que os carros dos anos 50 fossem lentos, mas daí a dizer que os de 2014 o eram por causa da cilindrada vai um abismo de pura bobagem. Dá para dizer que meu Corsa 1,0 andava “quase” como um Fórmula 1 de 2014? Claro que não! Novamente, há uma infinidade de fatores que fazem com que um carro corra mais.

A Ferrari anunciou para este Campeonato o Modelo SF70H com motor de 1.600 centímetros cúbicos. Na teoria, igual ao meu primeiro Gol (comprado em 1986, usadíssimo). Mas eis que o motor do SF70H alcança 15.000 rotações por minuto. Com piloto, combustível e tudo chega aos 728 kg. Nem em sonhos meu carrinho alcançaria qualquer indicativo do modelo Ferrari.

Muitos carros 1,0 são extremamente ágeis e tem preço competitivo (claro que isso no Brasil é sempre muito relativo) mas é fato que tem de gostar de passar marcha para andar mais rápido ou encarar algumas subidas, assim como nos modelos menos possantes. Nada pior do que ver alguém numa subida íngreme em quarta marcha, formando um trem de carros atrás dele porque não sabe andar na marcha correta. Apesar de soar uma maldade esticar marcha, tanto do ponto de vista mecânico quanto humano, não é cruel fazer isso com esse objeto lindo que é um carro.

Como já disse, tive alguns carros 1,0 e dirigi muitos outros — em testes, empréstimos, de amigos… A principal diferença que percebi foi exatamente a quantidade de vezes que se tem de trocar de marcha. Mas como isso é algo que eu gosto muito de fazer, não vejo problema. Quando eu aprendi a dirigir, e antes disso, quando tive algumas “aulas” informais com meu famoso tio César, aprendi a trocar marcha pelas rotações do motor. É tão automático em mim que obviamente não olho para o painel do carro. Apenas ouço. Nem sei explicar como isso é feito, pois também não me lembro a quantas rotações tenho que colocar, sei lá, por exemplo, a quarta marcha. Apenas sei. Aliás, essa é uma das coisas que mais gosto em dirigir. Quando fica algo intuitivo e você apenas curte o ato de estar atrás do volante.

Quem tem um carro 1,0 pode dirigir tranquilamente pela cidade ou pelas estradas mas, como com qualquer veículo menos possante, subidas exigem uma marcha mais baixa assim como retomadas. Nada difícil, como sabe qualquer pessoa que já tenha guiado um desses veículos.

Nas grandes cidades, a motorização 1,0 foi um sucesso (Foto: blogs.estadao.com.br/JF Diorio/transito/)

A cada semana vemos aqui no AE testes feitos em vários modelos de carros — inclusive com motor 1,0. É óbvio que eles foram sucesso de mercado pelo custo e pela baixa manutenção. Eu lembro que quando vendi meu Corsa 1,0 foi para um senhor que o quis para que fosse o primeiro carro do filho, que acabava de fazer 18 anos. Também achei uma boa ideia. Um carrinho confiável, de baixa manutenção e que alcançava uma velocidade muito razoável mas estava longe de ser um bólido de Fórmula1 — algo que seria extremamente pouco razoável para alguém que acaba de tirar a habilitação.

Mudando de assunto: Vi alguns dos novos modelos de carros da Fórmula 1. Do ponto de vista estritamente estético, gostei da Ferrari, mas apesar de torcer muito pela Force India, aquele cor-de-rosa… francamente, ficou parecendo carro da Mary Kay!

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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