A corrente internacional promovida pelas comemorações do Dia Mundial do Fusca, que une os fãs do Fusca em nível mundial, trouxe mais uma amizade para mim e ampliou o canal de comunicação para a República Dominicana. Neste contato fiquei sabendo da insólita história dos Cepillos (como os Fuscas são chamados por lá) naquele país insular.

Mapa da República Dominicana (Google Maps)

O contato foi feito por Fadyl Gomez, diretor de um dos cinco clubes dedicados ao Fusca da República Dominicana, o BarBug VW Club da cidade de Santo Domingo, capital do país. Nos encontramos no dia 12 de março de 2017 em um hotel da Chácara Santo Antônio, bairro de São Paulo, e o papo foi longe, tanto que acabamos nos encontrando uma segunda vez no dia seguinte; nas duas oportunidades fizemos transmissões ao vivo pelo Facebook e a audiência chegou a ser um “trending topic” por lá. Os demais clubes são: Santiago Volks de Santiago de los Caballeros, Cibao Volky Club de Santiago de los Caballeros, SFM VW Group de San Francisco de Macoris e Bonao Volky Club de Bonao.

O que é muito interessante, considerando que a República Dominicana é um país insular que divide a ilha com o Haiti, e que tem uma área de 48.442 km2, um pouco maior do que o dobro da área estado de Sergipe com seus 21.915 km2. Também se deve levar em consideração que a quantidade de Fuscas existentes lá diminuiu bastante nestes últimos anos, e um dos motivos foi a implantação de grandes resorts que provocaram a transformação de muitos dos Fuscas da ilha em bugues para turistas. E as condições de importação da carros antigos estão muito desfavoráveis, o que dificulta a ampliação do acervo de Fuscas local.

Aliás, há clubes de Fusca em vários países e estados insulares que comemoram o Dia Mundial do fusca como, por exemplo,: Havaí, Açores, Madeira, Ilhas Maurício, a abrangência desta comemoração pode ser avaliada pelo MAPA que ainda está sendo completado com novos registros; na próxima revisão deste mapa os clubes dominicanos irão ser incluídos.

Há um interessante movimento Fuscamaniaco na República Dominicana que comemora o Dia Mundial do Fusca há vários anos, como se pode ver no vídeo abaixo das festividades do Dia Mundial do Fusca de 2016 (este vídeo foi produzido pelo BarBug VW Club, a quem o material pertence, e eu o coloquei no Vimeo para uma visualização melhor):

O que foi relatado até agora foi para mostrar a atmosfera amplamente amigável com os Cepillos na República Dominicana nos dias de hoje, que vamos ver ser surpreendente. Depois de contarmos a história de como eles começaram a participar da vida deste país isto ficará claro.

 

Terror a bordo dos Cepillos (Fuscas) de Trujillo

Vamos começar com uma das poucas fotos que mostram agentes do temido SIM (Serviço de Inteligência Militar), órgão repressivo da ditadura Trujillista patrulhando em seus Volkswagens pretos, popularmente chamado de “Cepillos”, por uma das ruas da capital da República Dominicana, na época chamada de “Ciudad Trujillo”; espalhando terror por onde passavam.

Cepillos em ação, em foto de 1959 (LIFE Magazine/Hank Walker)

Na década de 1950 os Fuscas, na República Dominicana, se constituíram no símbolo da repressão e das espionagens da ditadura Trujilista, ditadura esta que, no total, governou o país por 31 anos.

O SIM era a polícia secreta da República Dominicana nos últimos anos da ditadura de Rafael Leonidas Trujillo. Esta organização repressiva aterrorizava a população praticando crimes e torturas e ela tinha na sua folha de pagamento milhares de agentes secretos espalhados por todo o país.

Com isto, o SIM manteve um sistema cruel de espionagem e vigilância. As primeiras atividades do grupo começaram em 1957, e foram encerradas cinco anos depois.

Entre as múltiplas funções do SIM, constava aterrorizar as pessoas das ruas em geral, e em particular os funcionários públicos e membros das forças armadas. O objetivo era essencialmente coletar informações e defender a todo custo os interesses de Trujillo, além de subjugar os opositores do regime.

Os membros do SIM eram conhecidos popularmente como “calié” (alcaguete em tradução livre). Eles costumavam patrulhar e se deslocar em Fuscas de cor escura chamados de “Cepillos” pela população.

O SIM foi dissolvido pelo governo de Joaquín Balaguer em 1962, após a queda da ditadura Trujilista. Isto ocorreu depois de uma sucessão de acontecimentos, iniciados com o assassinato de Trujillo, morto em uma emboscada em 30 de maio de 1961, mas seus assassinos foram presos e jogados aos tubarões; e suas famílias acabaram mortas também. O filho de Rafael Leonidas Trujillo, Ramfis Trujillo, que tinha assumido o poder, foi destituído e acabou sendo forçado a ir para o exílio. Assim país acabou sendo libertado da ditadura Trujilista.

 

Um pouco da história dos Cepillos

Eles foram comprados numa concessionária Volkswagen local, a Figueroa & Socias, C.por A. Os carros originalmente tinham as cores normais de catálogo da época, mas logo depois eles foram sendo repintados de verde oliva ou preto. Imediatamente receberam equipamentos de radiocomunicação da marca Dumont e antenas correspondentes. Os Fuscas foram identificados com a temida sigla SIM no capô dianteiro e na tampa do motor era pintado o nome completo: “Servicio de Inteligencia Militar”.

Os “Cepillos” do SIM estacionados, prontos para entrarem em ação; detalhe para a pintura na tampa do motor (LIFE Magazine/Hank Walker)

Um carro mais moderno caracterizado como sendo um exemplar dos “Cepillos” do SIM está exposto nas instalações provisórias do “Museo de la Digidad” localizado na “Ciudad Colonial”, bairro histórico de São Domingos, cuja pode ser vista na fotografia de abertura desta matéria. (foto do Site: Ningún lugar está lejos… en RD /Jorge Cruz/LD) *.

Mas o amor pelo Cepillo prevaleceu ao ódio!

Apesar de todo o terror descrito acima, os Cepillos, hoje em dia, são amados na República Dominicana e motivam um alegre movimento que realiza eventos por todo o país. E há relatos que contam que mesmo os sobreviventes da época do terror gostam do carro e se referem ao seu ruído característico que antes era um prenúncio de problemas, mas hoje desperta simpatia. Isto é realmente um fenômeno, uma magia que o Fusca consegue fazer.

É certo que Fuscas e Kombis participaram de situações semelhantes em outros países, mas as condições nas quais esta história se desenrolou na República Dominicana certamente foram muito especiais.

 

Mas por que Cepillo?

Em toda a região da América Central, gelo picado com xarope de vários sabores é uma iguaria muito apreciada que é vendida em barraquinhas. Aqui no Brasil nós a chamamos de raspadinha e por lá é chamado de “piragua”.

 

Lá na República Dominicana, para obter o gelo raspado é usado um raspador de gelo manual, que lembra uma plaina de madeira. Uma lâmina de aço raspa o gelo e o corpo do raspador vai acumulando o gelo raspado.

 

Este raspador de gelo é chamado de Cepillo e os antigos tinham uma forma muito parecida com a forma do Fusca, daí o apelido de Cepillo adotado na República Dominicana. As fotos que encontramos já são dos raspadores novos de linhas retas, mas eles servem para explicar do que se trata.

 

BarBug VW Club de Santo Domingo

Este clube está completando dois anos e é muito interessante que um grupo se interessasse pelo Fusca, a ponto de fundar um clube agora no ano de 2016. Acho que sempre bom que coisas deste tipo para a preservação dos Fuscas, de sua história e de suas histórias. Soma-se a isto ser a República Dominicana um país insular, fato que impõe um grau de dificuldade maior para seus clubes de carros antigos.

O Fadyl Gomez está cheio de planos, em especial no sentido de obter uma flexibilização das rígidas regras que regem a importação de veículos de coleção, de maneira a conseguir importar Fuscas para aumentar o plantel deste carro em seu país. Que isto de torne realidade brevemente.

Nas fotos abaixo vemos uma foto do encontro do segundo dia de bate-papo, quando eu presenteei o Fadyl com uma reprodução do certificado do segundo recorde do Livro Guinness que o Fusca Clube do Brasil quebrou em Interlagos, durante a minha gestão, atingindo 2.728 carros. Complementando a reprodução do logotipo do BarBug VW Club de Santo Domingo, da capital da República Dominicana.

 

AG

Registramos o agradecimento ao Fadyl Gomez por ter feito o contato abrindo a porta para o conhecimento desta história que, através desta matéria, divido com meus leitores. Vai o agradecimento também ao Gerardo Cerra Ramos, da diretoria do BarBug, pelas informações enviadas.
NOTA: Nossos leitores são convidados a dar o seu parecer, fazer suas perguntas, sugerir material e, eventualmente, correções, etc. que poderão ser incluídos em eventual revisão deste trabalho.
Em alguns casos material pesquisado na internet, portanto via de regra de domínio público, é utilizado neste trabalho com fins históricos/didáticos em conformidade com o espírito de preservação histórica que norteia este trabalho. No entanto, caso alguém se apresente como proprietário do material, independentemente de ter sido citado nos créditos ou não, e, mesmo tendo colocado à disposição num meio público, queira que créditos específicos sejam dados ou até mesmo que tal material seja retirado, solicitamos entrar em contato pelo e-mail alexander.gromow@autoentusiastas.com.br para que sejam tomadas as providências cabíveis. Não há nenhum intuito de infringir direitos ou auferir quaisquer lucros com este trabalho que não seja a função de registro histórico e sua divulgação aos interessados.
(*) Revisão de 28/03/2017: Fusca exposto no Museu da Dignidade:
Um Fusca caracterizado como sendo um exemplar dos “Cepillos” do SIM está exposto nas instalações provisórias do “Museo de la Digidad” localizado na “Ciudad Colonial”, bairro histórico de São Domingos, cuja pode ser vista na fotografia de abertura desta matéria.
Apesar desta foto ter a seguinte legenda no Site que fala sobre este museu: “En la casona se expone un carro Volkswagen de los usados por el Servicio de Inteligencia Militar durante la era Trujillo” – no casarão está exposto um carro Volkswagen dos que foram usados pelo Serviço de Inteligência Militar durante a era Trujillo – este não pode ser um carro igual aqueles que foram até 1962. Na verdade, trata-se de um Fusca brasileiro bem mais moderno que foi caracterizado como sendo um dos “Cepillos” do SIM, já que aquele museu não consegui uma unidade de época para o seu acervo.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

 

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