Um VW Brasília que na verdade é um TL 1600, e em Israel! Entenda os meandros dessa incrível história que começou com um post no Facebook.

Meu amigo e grande especialista em desenho 3D feito com auxílio de computador, Dan Palatnik, postou algo que chamou  a atenção do Hugo Bueno, com quem tenho feito trabalhos em parceria, como o leitor da coluna sabe, que viu e me avisou. Era sobre uma pessoa de nome Gaby Glazer que tem um carro Volkswagen brasileiro em Israel.

Aí peguei o fio da meada e entrei em contato com o Gaby, que logo se prontificou a responder às minhas inúmeras perguntas, tudo por meio de uma sequência de troca de mensagens também pelo Facebook.

Tudo começou quando entre 1974 e 1976 dois modelos de VW brasileiros foram exportados para Israel sob o nome de “Brasília”: o VW 1600 TL que lá se chamaria Brasília LS e o VW 1600 Variant, lá o VW Variant RIO, se bem que também era conhecido por VW Brasília Variant, à semelhança do TL.

Mas como foi que o carro do Gaby foi parar em Israel?

O registro de exportações da Volkswagen do Brasil inicia em 1970. Em 1973 começou o uso de navios do tipo “roll-on-roll-off” para o transporte de carros em grande quantidade. A partida foi dada com cargueiro norueguês “Cilaos” que recebeu em Santos o carregamento de 700 automóveis destinados ao Oriente Médio, onde Israel se encontra. Depois disso, foram realizados dezenas de embarques semelhantes, utilizando-se outros grandes cargueiros, como o “Dyvi Pacific” e o “Dyvi Oceanic” (este último com capacidade para 2.400 automóveis), todos originalmente utilizados para o transporte dos VW alemães para o mercado americano. Ainda em 1973 foram exportados quase 16 mil veículos CKD – carros desmontados e FBU, montados, representando quase 24 milhões de dólares. Veja fotos do Porto de Santos e caixas com peças e componentes embalados para exportação (Fotos: divulgação Volkswagen):

Do ponto de vista geográfico, o Oriente Médio é formado pela Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Chipre, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Irã, Iraque, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Palestina, Síria (países da península arábica. Chipre é país insular que ocupa grande parte de uma ilha no Mediterrâneo. Embora tenha uma parte de seu território na Europa, é considerado um país asiático, e pela parte asiática do Egito do lado direito do Canal de Suez, um país predominantemente africano. O mapa abaixo representa os limites geográficos do Oriente Médio e destaca os países dessa região.

Mapa do Oriente Médio (Ro Archela)

Na página 100 do livro “The Internationalization of the German Political Economy”, por William D. Graf, encontramos uma interessante tabela que ilustra as exportações da Volkswagen do Brasil entre 1970 e 1983, um assunto pouco ventilado no Brasil que seguiu seu caminho de uma forma independente (este plano de exportação atendeu a compromissos com o governo brasileiro que necessitava de divisas estrangeiras), destacando o que foi em CKD e o que foi em FBU. Em algum lugar desta tabela o carro do Gaby foi computado.

Tabela das exportações tanto em CKD como em FBU da Volkswagen do Brasil entre 1970 e 1983

 

 

A história de como o Gaby acabou tendo um TL em Israel é quase uma novela. O primeiro carro dele foi um BMW 520, ano 1974, que estava em condições realmente ruins, com muita ferrugem e não havia dinheiro para retorná-lo às condições de zero como ele sonhava; depois de uns anos ele o vendeu e passou a procurar outro carro.
Levando o carro de sua esposa para a inspeção anual, que é obrigatória, ele viu com o canto dos olhos uma “coisa” laranja amarelada no fundo de uma oficina. Ele estacionou e entrou na oficina para descobrir do que se tratava. Era um “VW Brasília” 1975, o nosso VW 1600 TL, que estava jogado no pátio coberto por sucata e vegetação.

Falando com o gerente, a história do carro começou a ser descoberta. Alguém tinha trazido o carro há alguns anos para uma restauração, acabou ficando sem dinheiro para pagar e acabou decidindo deixar o carro lá para pagar os custos. A papelada de transferência foi feita numa agência postal próxima. O novo dono passou a desmontar o carro para vender suas peças. Primeiro foi partes da caixa de câmbio, depois o motor, seguido de outras peças.

O que o Gaby acabou comprando foi uma carcaça enferrujada, mas, como ele mesmo disse, “foi amor à primeira vista”!

Este TL parecia ser originalmente da cor amarelo Imperial, compatível com o ano de 1975. A pintura da carroceria estava bastante desgastada, mas no interior da porta traseira a tonalidade do amarelo aumenta a percepção de que era amarelo Imperial mesmo.

O gerente daquela oficina se comprometeu a ajudar na busca de peças necessárias para reconstruir o carro, quase 90% do carro estava faltando. Ele também começou a procura de peças pela internet.

A procura iniciou-se pelo motor, pois o câmbio estava em ordem, mas não foi possível encontrar um motor de construção plana, o original do carro. Então a solução foi adaptar um motor de Fusca. Foi feita uma caixa de madeira para abrigar a turbina em posição elevada. Isto levou uns dois meses.

Uma visão muito estranha, um motor de turbina elevada encaixado na abertura de serviço de um VW 1600 TL, mas não havia alternativa

A pintura e o acabamento foram simples, já tratar da ferrugem foi um problema. A cor escolhida foi vermelho Coca-Cola. Esta parte do serviço foi feita numa oficina especializada.

O carro já pintado, as lanternas traseiras ainda estavam faltando naquela oportunidade

O volante e alguns dos cromados das portas foram comprados na Alemanha. A única coisa que ele não encontrou foram as lanternas traseiras. A saída foi adaptar lanternas de um Volvo antigo que encaixaram à perfeição na furação existente e acabaram sendo muito parecidas com as originais.

Esta foto composição permite a comparação das lanternas traseiras originais da Variant com as de Volvo adaptadas no TL, com um resultado muito satisfatório

A Variant da foto acima tem a cor verde Hippie, que era disponível para os anos 1973 e 1974 no Brasil.

A parte elétrica do TL estava em boas condições e foi revisada pelo Gaby mesmo, que também fez a parte dos freios. No total foram de oito a nove meses de trabalho para terminar tudo; e, em sequência, o carro foi levado para sua primeira inspeção e passou sem restrições.

Eis o carro pronto, incrível metamorfose de um monte de sucata para um carro pronto, perfeitamente funcional e bonito

De lá para cá foram uns oito anos, com aproximadamente 8.000 km rodados, e com uma única ocorrência, a troca da bateria um ano atrás. Um dos amortecedores está vazando e terá que ser consertado, mas no geral o carro está funcionando satisfatoriamente.

Mas algumas bolhas na pintura, que são um sinal de não ser das melhores, indicam que em poucos anos a pintura terá que ser refeita. Mas, fato é que o Gaby adora andar em seu “brasileirinho”. Veja o vídeo:

Existem, de acordo com Gaby, quatro carros daquela leva de importação restantes com condições de uso: o carro dele, a Variant verde que apareceu em fotos e mais um TL quatro portas e outra Variant, esta ainda com o primeiro dono e em condições originais.
O “Brasília LS” branco está carecendo de uma reforma, mas continua a ser usado:

Outro VW 1600 TL brasileiro que continua operacional em Israel

Este TL parece ser 1973 na cor branco Lótus. O ano 1973 se justifica também pelo volante tipo cálice. Em 1974 passou a ser utilizado o volante tipo bumerangue. O painel também é compatível com o ano de 1973.

A Variant amarela abaixo é de único dono, seu estado é bom para um carro desta idade:

A cor da Variant acima pode ser amarelo Caju, que apareceu no Brasil somente no catálogo de 1973. Podemos assumir que esta Variant também é 1973 em função dos bancos tipo “gomão”, do puxador da porta, do painel e do volante tipo cálice.  A característica interessante de ambas as Variant, tanto a verde como a amarela, é a presença do quebra-vento no vidro lateral traseiro, que foi utilizado aqui somente até 1972, deixando de ser utilizado a partir da linha para 1973.  Outra característica interessante é a falta dos frisos dianteiros tipo “bigode”, tanto no TL quanto na Variant. Podem ter sido retirados ao longo da vida em Israel. Duas características que também confirmam que são modelos pós-1973: as lanternas grandes e as saídas de ar nas colunas traseiras.

Quanto ao movimento preservacionista em Israel, toda sextas-feira à tarde é realizado um encontro “air cooled” em Tel-Aviv no qual participam de 20 a 30 carros. Mas há um grande evento realizado uma vez por ano, em setembro ou outubro, na dependência de um feriado israelita, que permite a participação de todos que costumam comparecer com suas famílias. O nome deste evento é MIFGASH MEKURAREY AVIR. que quer dizer “encontro dos resfriados a ar” — sem a menção à exclusividade de veículos Volkswagen, o que permite uma participação de Porsches e de um Chevrolet Corvair. É um evento muito agradável. No ano passado, um dos participantes emprestou seu carro para que as crianças pudessem “pintá-lo” à vontade com uma tinta lavável.

Vista geral do evento anual que reúne os arrefecidos a ar de Israel em Tel-Aviv; a maioria é Fusca

Quem é Gaby Glazer?

Gaby Glazer

Ele é um “jovem” de 60 anos de idade nascido em Córdoba, Argentina, e residente em Israel dede 1972, onde se casou com Diana e o casal tem dois filhos. O Tom, de 27 anos, é estudante, e o Ofek, 24, que está viajando pelo mundo.
O Gaby é gerente-geral da maior empresa israelense de catering para companhias aéreas, mora em Tel-Aviv, uma cidade litorânea que é a segunda maior de Israel, com mais de 450.000 habitantes. Os carros antigos são a sua paixão.
Além do TL ele tem um Mercedes-Benz 230 S 1966 e um Triumph TR7 1980. O Triumph está em ótimas condições de uso. Já o Mercedes-Benz necessita de muito trabalho e não há tempo, tampouco recursos, para fazer uma restauração agora. Talvez ele tenha que esperar até que o Gaby se aposente. Na foto abaixo, a trinca de carros dele na garagem onde são guardados (esta garagem já apareceu no vídeo do TL):

Os três amores do Gaby, como ele mesmo define

Esta foi mais uma matéria sobre veículos Volkswagen brasileiros no exterior. O VW 1600 TL do Gaby se une aos Fuscas do Bojidar Shebov na Bulgária e à Kombi do Jacky Morel na Indonésia, conforme registrado em matérias anteriores. Certamente, esta galeria só tende a aumentar, mostrando até onde estes carros brasileiros chegaram.

AG

Esta matéria contou com a colaboração do Gaby Glazer, que enviou fotos e forneceu as informações para a elaboração do texto. Meu agradecimento ao Dan Palatnik, deu a dica para a matéria, e ao Hugo Bueno, que teceu comentários sobre os carros.
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