A recessão acabou! Mercado automobilístico crescerá 4% em 2017. Só se esqueceram de avisar os compradores no mês de janeiro. Também andaram esquecidos os consumidores de linha branca, de eletroeletrônicos, móveis etc.

O Brasil tem rumo, positivo, inegável e fato é que antes estava mais para nau desgovernada rumo ao desastre. Com a aprovação da PEC do Teto dos gastos públicos, concretizada em dezembro último, o governo atual tem mais duas metas de igual complexidade e importância para trazer a estabilidade fiscal de volta, que são as reformas da previdência e trabalhista. Em caso de ambas aprovadas, o que este colunista crê improvável (na verdade, uma das duas ficaria às piranhas e a outra passaria), o Brasil reunirá condições reais de resgatar um crescimento sustentável e deixar esta recessão para trás.

A ata do Copom de 11 de janeiro trouxe outra boa notícia, uma queda de 0,75% da taxa Selic, com sinais que nos próximos meses seguirá em ritmo acelerado de queda caso a inflação persista baixa e sob controle. Fala-se em fecharmos 2017 com Selic de 9,5%, lembrando que em outubro de 2016 estava em 14,25%. Juros mais em conta puxam os custos de financiamento de carros novos para baixo. A coleção de boas notícias no campo econômico, trazidas  com alarde por todos meios de comunicação do país não parece ter sido ainda suficiente para estimular o consumidor às compras.

Na apresentação da Anfavea do último 6 deste mês, o presidente da entidade, Antônio Megale, também confessou que os números de venda ficaram ligeiramente aquém do esperado. Os fabricantes haviam feito as suas apostas para cima e a produção ficou em 174 mil unidades, ou 17% acima de janeiro do ano anterior. Porém os emplacamentos ainda seguem em ritmo diferente e tivemos um total de 147.219 unidades vendidas, ou 5% abaixo do mesmo janeiro. Seguindo na comparação de janeiros de 16 com 17, este último teve um dia útil a mais, assim o ritmo de vendas diárias mostra uma queda de quase 13%.

Emplacamentos diários mês a mês: 2016 vs. 2015 e começo de 2017, mais um trimestre difícil (Fonte: Anfavea)

A produção precisa acompanhar as vendas, ou os estoques voltariam a ultrapassar os níveis indesejáveis. O descompasso que vimos em janeiro não deve se repetir por meses a fio e GM, FCA e VW e Ford acabam de anunciar mais férias coletivas, a extensão delas variando conforme o fabricante,. Desta vez a GM foi pouco mais além e na fábrica de S. Caetano param quase um mês, porém a produção do Onix permanece como se a crise não o atingisse. E não o atinge. Bom para a turma de Gravataí.

 

Gráfico de emplacamentos diários de automóveis e comerciais leves (Fonte: Anfavea)

 

Vendas diárias de automóveis e comerciais leves (Fonte: Anfavea)

A expectativa da Anfavea está em linha com a de vários agentes do mercado, espera-se ainda um primeiro trimestre difícil e taxas de crescimento positivas a partir de então. O desemprego elevado seguirá limitando a expansão do comércio, talvez aí uma explicação para os conservadores 4% de aumento anual no total dos emplacamentos na comparação de 2017 com o ano passado projetados pela Anfavea.

Emplacamentos totais de autoveículos (Fonte: Anfavea)

Comerciais pesados: frotistas tampouco avisados que a recessão está no fim. A última vez que se comercializaram 2.900 caminhões foi em janeiro de 96, portanto 21 anos atrás. Um mês de vendas de pesados pavoroso, parafraseando o nosso presidente. Foram 2.947 caminhões e 504 ônibus. Neste ano teremos recorde de safra de grãos e de produção agrícola, espera-se uma retomada nas vendas mais robusta. Já quanto a ônibus, quem puxa as encomendas de urbanos são as prefeituras, mas com a série crise fiscal que assola os municípios, pouco se espera de reação. A crise também afetou viagens e houve queda do número de passageiros, com reflexos nas encomendas de ônibus rodoviários.

A turbulência política que não cessa

Neste janeiro tivemos a morte em desastre aéreo do Ministro do STF Teori Zavascki, em circunstâncias pouco comuns para um membro da mais alta corte do judiciário. Substituir o relator da Lava Jato, tardou poucos dias para que encaminhassem uma solução, que apesar da controvérsia e paixões políticas de ambos lados, mostrou-se correta a meu ver. Também o falecimento da ex-primeira dama, Marisa Letícia da Silva, que aproximou os opositores políticos na hora das condolências.

Durante o afetuoso abraço que Lula recebia de Michel Temer no hospital Sírio-Libanês, por ocasião da morte da esposa do ex-presidente, este não perdeu o timing em avisar ao atual mandatário do executivo que reforma de previdência não se faz com país em recessão e ofereceu agenda para mais diálogo, parecendo papo de amigo. Curiosos conselhos, no momento em que a economia do país bombava em crescimento invejável, Lula e sua tigrada sequer cogitaram em fazê-lo. Tentando seguir certo raciocínio lógico do ex-presidente, previdência não se reforma em recessão nem tampouco durante crescimento, apenas a deixamos no topo das pautas de discussão com o parlamento e das listas de itens a não se fazer de jeito nenhum.

A quem acredita que a esquerda brasileira um dia modernizaria a sua agenda política, abandonando seus princípios salvacionistas, “só o progressismo salva e o neoliberalismo é o grande satã”, melhor por as barbas de molho. Se esta modernização no discurso e propostas ocorrerem, não será com os seus atuais representantes. Hora de renovar.

Mas Temer parece se animou com a facilidade com que a indigesta proposta do teto dos gastos fora aprovada em dezembro último e nunca teve uma base parlamentar tão favorável como agora. Desde a redemocratização, nenhum outro presidente a teve. Com a oposição aniquilada (PT), ou de cócoras (PCdoB, PSOL etc.), sindicalismo frágil e desesperado com sua queda de receitas daqueles que perderam os seus postos de trabalho, os poderes presidenciais são quase imperiais, e nessa tocada Temer até arrisca sonhar que consegue ir além da aprovação da reforma da previdência e encaixar a trabalhista na sequência. Sonhar é de graça. Mas uma dessas duas reformas cruciais para o Brasil voltar a crescer tem alta probabilidade de êxito neste ano.

Caso isso se materialize, os investidores que receavam um Brasil com graves problemas fiscais e de orçamento, até desempossarem a doutora, podem mesmo trazer fluxo positivo de capitais antes mesmo que os compradores de automóveis novos venham a encher as lojas. Com inflação em queda e taxa Selic derrubada a passos largos pelo BC, a volta do mercado passa a ser uma questão de tempo.

Ranking de janeiro

Janeiro é tradicionalmente o mês de ressaca de vendas, acentuado pelos esforços dos fabricantes e rede de cumprirem metas de números de final de ano, as vendas antecipadas em dezembro afetam os dois primeiros meses seguintes. Fora o Carnaval.

Não foi diferente em 2017 e a comercialização de automóveis e comerciais leves foi quase 28% inferior a dezembro. Assim, não houve marcas que cresceram. Ford foi a que menos caiu, –19% e VW –21%. As marcas de luxo figuram na outra ponta, com BMW em queda a quase o dobro da média geral, -54%.

Onix segue liderando os emplacamentos como se a crise não existisse para ele e vendeu 13.900 unidades, quase o dobro do segundo colocado, o HB20, com 7.362, seguido pelo Ka, com 7.079 e Gol com 5.073. O VW recuperando posições depois de sanar os problemas de produção em definitivo. Sandero completa a lista dos cinco primeiros, com 4.277 emplacamentos.

O Jeep Compass segue surpreendendo, ultrapassou em vendas o seu irmão menor, o Renegade e figurou em 12º lugar no ranking, com 3.093 unidades. Ambos são produtos próximos em proposta, não tão distantes em tamanho, mas um Compass com todos opcionais ultrapassa R$ 150 mil e este acabou roubando compradores que antes miravam os Renegade mais equipados. No segmento-nicho de crossovers médio-compactos, o Hyundai ix35 figura no ranking em 2º lugar, com 644 unidades emplacadas, quase 1/5 do Compass, e em 41º lugar no ranking geral. Uma distância colossal e um chacoalhão na outra concorrente, a Mitsubishi, que sequer teve um de seus produtos entre os 50 mais vendidos do mês.

O novo Hyundai Creta começou as suas vendas e atingiu 1.182 unidades. Este trimestre teremos o Renault Captur estreando no segmento que não para de crescer. Os outrora líderes, a despeito de ótimos produtos, EcoSport e Duster perdem cada vez mais espaço e eles nada tem de problemas ou de obsoletos. Apenas uma questão de preferência do mercado, não muito simples de se compreender e que obrigam a turma de planejamento de produto a trabalhar dobrado para recuperar espaço.

Nos comerciais leves, Strada retomou a ponta, com 4.412 emplacamentos, seguidos pela irmã maior, Toro, com 3.258 e Saveiro reocupando seu lugar de costume, 3º, com 2.915. Hilux segue vendendo bem, com 2.545. Este segmento encolheu 24% quando comparado a dezembro, porém se expandiu 20% sobre janeiro do ano passado.

No ranking das marcas, a Ford recuperou seu 4º posto, com 13.727 unidades, Toyota em 5º e Hyundai em 6º.

Este será o ano dos suves, mais lançamentos não só esquentarão o segmento, como também seguirão roubando compradores de sedãs médios, hatches e até compactos. O novo Honda WR-V deverá tornar-se o modelo mais vendido da marca, segundo se espera.

Até mês que vem.

MAS

Fonte: Fenabrave

 

Fonte: Fenabrave

 

Fonte: Fenabrave

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