Alguém reduziu a garantia obrigatória de três meses do carro usado para apenas motor e  caixa de marchas. E a mentira está virando verdade.

Como já disse Mário Quintana, “mentira é a verdade que se esqueceu de acontecer”…

No mundo do automóvel, não falta mentira que, de tanto se esquecer de acontecer, quase virou verdade.

Garantia – Uma delas é a garantia do carro usado. O Código do Consumidor estabelece a responsabilidade do vendedor (pessoa jurídica) a três meses. Não se restringe a automóveis e nem aos usados, mas a qualquer produto, novo ou usado.

Ninguém explica como surgiu a garantia “de motor e caixa” por três meses. Alguém inventou essa história, sem dúvida muito conveniente para o vendedor. Mas os advogados afirmam que complica ainda mais a loja: se ela tem, pelo Código do Consumidor, a obrigação de garantir o automóvel por três meses, então o anúncio de “motor e caixa” seria uma extensão de mais 90 dias para os dois componentes. Que passariam a ter seis meses de garantia.

Estoque – Outra verdade que “se esqueceu de acontecer” é o prazo de oito anos para que fábricas e importadoras de automóveis mantenham em estoque as peças de reposição para o modelo que chega ao seu fim de linha.

É “lei” citada a torto e a direito mas que … simplesmente não existe. O que diz o código do consumidor é que se deve manter as peças de reposição por um tempo “razoável”. Ou seja, não diz… nada!

Por que a “razoabilidade” foi traduzida para oito anos é um  mistério: poderiam ter inventado dez anos (conta redonda) ou sete (mais adequada, pois é conta de mentiroso…).

Ar-condicionado – Diz a lenda que, se você está na estrada com o ar-condicionado ligado, o aumento de consumo é compensado pelas janelas fechadas. Pois elas melhoram a aerodinâmica do automóvel, neutralizando assim o combustível extra exigido pelo equipamento. A rigor, uma coisa não compensa a outra. Ou seja, até poderia ser verdade, desde que o automóvel estivesse em elevadíssimas velocidades, no entorno de 200 km/h, pois nestas condições a aerodinâmica iria exercer mesmo uma enorme influência no consumo. Mas, nos limites de velocidade permitidos pela nossa legislação…

Automático – Quando o assunto é caixa automática, outro engano do brasileiro é se referir a este câmbio como “hidramático”. Este sistema era, na verdade, um tipo de automático patenteado pela General Motors, o Hydra-Matic. Como a marca Oldsmobile foi uma importada famosa no país antes da indústria nacional, o nome hidramático acabou virando sinônimo de automático. Mais ou menos como Gilette com lâmina de barbear.

Jipe?– Outra “mentirona” é na definição de jipe para efeito de homologar veículos para o diesel. Combustível que, no Brasil, só pode ser utilizado por caminhões, ônibus e veículos rurais, jipes entre eles. Como se define um jipe? Segundo a legislação brasileira, são veículos “com tração nas quatro rodas, caixa de mudança múltipla e redutor”. Não deixa margem a dúvidas de que, para ser jipe, tem que ter “redutor”. Dispositivo mecânico acionado por uma alavanquinha (ou comando elétrico) acoplado à caixa ou diferencial e que reduz (encurta) a relação de todas as marchas do câmbio.

Fábricas e importadoras “convenceram” o Denatran de que veículos mais modernos são dotados de uma “redução eletrônica”, dispositivo que não existe em nenhum manual de mecânica ou engenharia. Na prática, recursos eletrônicos podem até tornar os veículos com tração integral mais adequados a superar trechos de barro e lama, mas não é o que diz a lei. “Redutor” só pode ser mecânico. O governo derrapou feio ao concordar com os “argumentos” das fábricas e homologar estes luxuosos SUVs como jipes. O primeiro utilitário a burlar a legislação foi o Mercedes ML 320 CDI, em junho de 2008.

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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