A medicina ainda não descobriu o vírus que ataca indistintamente habitantes acima e abaixo do equador, ricos e pobres,  jovens e idosos. Ele não se transmite por mosquitos, mas pela gasolina. O principal sintoma é um impulso que leva um indivíduo gozando — aparentemente — de todas as faculdades mentais a rodar semanas ou meses por dezenas de ferros-velhos e lojas de peças atrás de um enferrujado e corroído carburador de Karmann-Ghia…

A doença tem nome de “antigomobilismo”. Ainda não existe no “Aurélio” (nem nos manuais psiquiátricos), mas tem no “Houaiss” e pode ser traduzido como a paixão que leva à preservação de automóveis (ou outros objetos sobre rodas) de qualquer espécie.

O Brasil é país que não cultiva o passado e onde se derrubam belos e seculares prédios para se edificar verdadeiros monumentos ao concreto e blindex. Nenhuma fábrica de automóveis construiu um museu para contar sua história através dos modelos que produziu e onde os colecionadores acabam cumprindo esta importante função de preservar nosso passado sobre rodas. Não fossem eles, não teria sobrado DKW-Vemag, Simca, Gordini, Corcel ou Aero-Willys para contar história.

Em seu estágio inicial, a doença pode se manifestar pelo puro resgate do passado. Nessa fase, a compra do monte de ferrugem se explica pelo “é igualzinho ao carro do vovô”, ou “foi num desses que o papai aprendeu a dirigir”. Ou ainda a realização de um sonho da adolescência.

Na etapa mais aguda da doença, já faltam ao colecionador argumentos razoáveis ou lógicos. Ele leva a relíquia para a garagem porque se apaixonou por ela e não procura mais se convencer (nem aos familiares) das vantagens do hobby com explicações racionais.

Automóvel é considerado antigo se tiver mais de 30 anos de fabricação.

Os mais valorizados são os clássicos, como Cadillac, Mercedes, Jaguar ou Rolls-Royce, que se destacam pelo luxo, tecnologia e qualidade de materiais aplicados. Ou um “puro-sangue” como Ferrari, Maserati, Corvette, Mustang.

No entorno do antigomobilismo gravitam centenas de milhares de apaixonados, clubes e associações, leilões, exposições, oficinas, fábricas de peças, lojas especializadas, publicações, encontros, museus, miniaturas, réplicas, concursos e competições.

No Brasil, apesar da proibição de se importar carros usados, a lei abre exceção para automóveis antigos, desde que tenham mais de 30 anos de fabricação.

Uma vantagem do carro antigo é permitir curti-lo de acordo com o orçamento de cada um.  Pode ser mais feliz que o dono de um valioso Rolls-Royce um simples colecionador que curte o fim de semana a bordo de seu Fordinho 29. Incomparável sua alegria no dia de dar a primeira volta em sua recém-restaurada Vemaguet. Ou do outro lá no início da história que acabou encontrando o carburador do seu Karmann-Ghia.

Antigomobilismo vem, nos últimos tempos, se transformando num investimento de primeira linha. Nos EUA, por exemplo, aplicar uma grana no banco pode resultar em rendimento de 1% ou 2% ao ano. Automóvel antigo com boas perspectivas de demanda pode se valorizar 10% no mesmo período. Ou mais. Quanto o prezado leitor imagina que custou, há dez anos, o Ferrari da foto de abertura que foi leiloado no final de 2014 por US$ 38 milhões?

O hobby pode trazer bons dividendos. Mas, seja lá qual for o retorno deste investimento, ele traz junto o indescritível e imponderável prazer de passear num dia ensolarado, capota arriada, com a namorada ou família. Neste item, é imbatível….

BF

Nota: Esta coluna é republicação de uma das primeiras colunas de Boris Feldman no AE, em 7/03/15.

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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