Se nada mudar até lá, dia 25 de janeiro sobem um pouquinho os limites de velocidade em algumas faixas das duas marginais de São Paulo. Digo “se nada mudar”, pois como a frase popularizada por Pedro Malan, no Brasil até o passado é incerto — e eu acrescento, quanto mais o futuro. Na realidade eles voltarão ao que eram menos de dois anos atrás.

Passei parte das festas de final de ano discutindo essa questão com amigos e familiares. Tem de tudo, daqueles que concordam aos que não concordam. Mas como não me furto de uma boa argumentação, foquei naqueles que brandiram algumas pseudoverdades. Como sempre digo, se alguém me diz que gosta da cor marrom, nem discuto. Gosto é gosto. Mas se alguém me diz que gosta porque combina com preto aí questiono. Fisicamente, o comprimento de onda das duas não combina e isso representa um problema visual. Fisicamente, as duas cores não combinam. Se alguém quer usar porque acha bonito, vá lá, mas nada diz que a combinação seja tecnicamente correta.

Por isso é que não discuto se 50 ou 90 km/h é muito ou pouco. São conceitos vagos e subjetivos. Mas dizer que por causa disso é que caiu para zero o número de atropelamentos na marginal do Tietê é me chamar de tonta. E, no entanto, foi isso o que a CET divulgou na véspera de Natal. Segundo a empresa, nos últimos 19 meses (entre abril de 2015 e outubro de 2016) não houve óbitos por atropelamento. Digo que é me chamar de tonta porque sem procurar muito achei no Google uma notícia de 5 de maio de 2016 que dizia que um caminhoneiro de Concórdia (SC) havia morrido no dia anterior depois de ser atropelado na marginal Tietê. O nome dele era Odir Trevisol e foi atropelado quando de deslocava para receber uma ordem de carregamento. Não faço a menor ideia de porque a CET “esqueceu” de incluir essa morte nas estatísticas mas confesso que pesquisei e não encontrei nenhum caso de ressurreição.

Não vou me estender no kafkiano da situação de ter atropelamentos em vias expressas como as marginais. Na verdade, somente pelo estúpido da situação é que estou aqui analisando esses números, já que por óbvio não deveria haver pedestres nas marginais (foto de abertura) e é nesse aspecto que deveriam ser focadas as medidas da Prefeitura.

Só que não. Não sei se se trata de amnésia seletiva ou alguma matemática nova. Dizer que não houve atropelamentos na marginal do Tietê só pode ser classificado como alguma das duas coisas, já que o próprio site da CET- SP mostra que houve nove atropelamentos fatais na marginal do Tietê em 2015. Ou os nove atropelamentos ocorreram entre janeiro e março ou então as nove vítimas ressuscitaram e por isso sumiram dos cálculos do anúncio natalino. Ainda assim, o motorista de Concórdia morreu em maio de 2016, atropelado na marginal do Tietê.

Comércio ambulante nas marginais

Você acha que este é lugar para pedestres? (foto: www.band.uol.com.br)

Aí levanto algumas hipóteses para o “furo” nas estatísticas. A primeira, e mais óbvia, seria má-fé, mas vamos supor que não tenha sido isso. Seria muito, muito feio, já que não se deve mentir segundo aprendi desde pequenininha. OK, desde que era criança, já que tamanho não é algo que eu  possa usar como referência…

A segunda hipótese é que a CET, por algum estranho motivo, não considere atropelamento de alguém que tem como profissão ser motorista como atropelamento. Talvez eles achem que uma pessoa andando a pé não seja um pedestre se ela estava dentro da cabine de um veículo minutos antes. E aqui não me ocorre nenhuma justificativa para excluir esse dado. Se alguém tiver alguma idea, aceito de bom grado discuti-la. Mensagens para este site, por favor (autoentusiastas@autoentusiastas.com br).

A terceira hipótese é que como a morte não foi exatamente na hora, pois o senhor Trevisol chegou a ser encaminhado a um hospital, embora tenha morrido logo em seguida não entre nas estatísticas de “morte na marginal do Tietê”. Sim, sabemos que isso pode ser feito, mas é óbvio que é uma contabilidade criativa, para dizer o mínimo. Não dá para dizer que a velocidade mais baixa tenha reduzido o número de atropelamentos fatais porque a morte foi, sim, decorrência exclusivamente do atropelamento.

Outra coisa que não fecha é que em 12 de outubro de 2016 a mesma CET havia divulgado que a marginal do Tietê havia registrado uma queda de 92% no número de atropelamentos fatais no primeiro semestre de 2016 comparado ao mesmo período de 2015. Ué? Se como disseram em dezembro, não houve NENHUMA morte entre abril de 2015 e outubro de 2016, como a redução no primeiro semestre teria sido de 92%? Não deveria ter sido de 100%?  Ou será que tem algum personagem do seriado “The Walking Dead”? Assim… meio-morto e por isso não entra nas estatísticas? Ainda de acordo com a mesmíssima fonte (CET), divulgada na época pelos mesmos veículos de comunicação que agora publicaram que não houve nenhuma morte por atropelamento, nos primeiros seis meses de 2015 houve 152 mortes por atropelamento nas marginais do Pinheiros e do Tietê e 24 no mesmo período de 2016. Ainda que não tenha sido feito o corte entre as duas, parece pouco provável que todas tenham acontecido na Pinheiros ou que as da Tietê tenham ocorrido todas apenas entre janeiro e março. Pelo que me lembro, os seis primeiros meses de um ano incluem também abril, maio e junho, portanto o período abrangido pelo milagre de Natal — ops, a notícia divulgada no Natal.

E mais uma falha no raciocínio. A CET disse no comunicado de dezembro que o último atropelamento com morte foi em março de 2015. Como a redução nas velocidade nas marginais foi no final de julho de 2015, ainda com as velocidades mais altas ninguém foi atropelado em abril, maio, junho ou nos primeiros 20 dias de julho de 2015. Logo, por que atribuir à velocidade inferior a redução de atropelamentos?

Alguns números para quem não conhece as vias ou para quem não se atentou para a discrepância dos dados: a marginal do Tietê tem 24,5 km de extensão e a do Pinheiros 22,5  quilômetros. Os números de utilização variam enormemente. Segundo dados levantados por empresas privadas logo antes da reforma da Tietê que permitiu a ampliação do números de faixas, trafegariam pela Tietê 750 mil veículos por dia, dos quais cerca de 18% seriam veículos pesados. Encontrei um estudo de um engenheiro da própria CET, mas de 1996, que dizia que havia 400 mil veículos na marginal Tietê e em 300 mil na Pinheiros por dia.

Já em 2010, o site da prefeitura informava que na Tietê circulavam 350.000 veículos por dia, com 1,2 milhão de viagens diárias. Na Pinheiros, a circulação diária chegaria a 450.000 veículos, segundo nota da prefeitura de 2012. Seriam, na pior das hipóteses, 800.000 veículos rodando por dia nas duas vias ou 24 milhões por mês ou 292 milhões por ano. Enfim, fora da crônica falta de dados atualizados, bem coletados e confiáveis, nada de novo.

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Se fosse verdade, zero atropelamentos seria um milagre com cenas como esta (foto: www.globoplay.com.br)

Voltemos, então, aos números e ao raciocínio. Se não houve atropelamentos na marginal Tietê devido à redução da velocidade, por que continuou havendo na Pinheiros? A extensão de ambas é semelhante, o número de veículos que circulam por esta última é menor, tem menos veículos pesados e, claro, a velocidade também foi reduzida para 50 e 70 km/h já que não tem faixa central na Pinheiros… Mas, como sói acontecer nestes casos, a Prefeitura limitou-se a divulgar uma nota, sem responder questionamentos. E pouquíssimos questionamentos foram feitos por quem publicou a notícia. E parece que só eu resolvi checar os dados anteriores.

Os argumentos para tentar manter a velocidade mais baixa são de que a vida é preciosa. Concordo com o princípio, mas por que a de um pedestre seria mais valiosa do que a de um motociclista? Sim, porque depois que caíram os limites de velocidade aumentou consideravelmente o número de mortes de motociclistas nas duas marginais. Para ser exata, entre agosto e setembro de 2016 70% dos mortos no trânsito nessas duas vias estavam em motos. E entre julho de 2015 e junho de 2016 houve 31 mortes de motociclistas nas duas marginais. Não encontrei números mais recentes — aliás, é impressionante como esses dados nunca são divulgados. Só os que são considerados positivos.

E tem mais uma. Há lugares onde trafegam veículos a mais de 250 quilômetros por hora sem que tenham sido registrados atropelamentos — fatais ou não: pistas de aeroporto. E por quê? Porque não há pedestres logo, atribuir à velocidade a morte de pessoas é falácia. Tem a ver com onde elas andam. Ou vão permitir a circulação de pedestres e baixar para 50 km/h a velocidade dos aviões?

Mudando de assunto: Para apoiar (principalmente) ou para atacar (mais raramente) medidas, nos últimos tempos algumas autoridades têm sacado de pesquisas e estatísticas. A própria Prefeitura disse que 47% dos paulistanos são a favor da redução da velocidade nas marginais, 50% seriam “resistentes” (palavra que por si só já mostra o viés da tal pesquisa) e 3% não quiseram responder ou não têm opinião definida. Bom, como já escrevi várias vezes, as estatísticas, sob tortura, confessam qualquer coisa. E no final do ano não foi diferente. O Datafolha publicou uma pesquisa que considero digna do melhor realismo fantástico latinoamericano mas que não foi questionada pelo próprio jornal dono do instituto nem por vários outros. Segundo o Datafolha, das pessoas que responderam que concordam com a premissa “todo o sucesso financeiro da minha vida eu devo, em primeiro lugar, a Deus”, 23% eram ateus. Ou seja, 23% dos ateus acreditam em Deus. Não, não é 1º de abril…

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade da sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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