Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas Autoentusiastas UM POUCO DA “ENGENHARIA” DO CAVALO – Autoentusiastas

Como o cavalo foi a primeira forma de locomoção do Homem e continua a servi-lo em situações específicas com total eficácia, e tendo eu grande intimidade com este incrível animal, ocorreu-me nesses dias de semiparada  de trabalho compartilhar com o leitor a notável “engenharia” do cavalo.

O tamanho das cascos é uma das coisas que imediatamente observo num cavalo. Quando se olha certo cavalo pela primeira vez, já de imediato — como o bater de uma foto — se tem a impressão do conjunto, onde dentre as observações instantâneas se avaliam a altura, caixa toráxica, linha de dorso, comprimento dos membros e seus aprumos, inclinação da anca e da paleta, musculatura etc. Tal qual se faz com um carro, num bater d’olhos já se sabe bastante sobre ele.

Essa primeira impressão sobre um cavalo pode mudar após avaliação mais demorada e cuidadosa, onde cabe observá-lo em movimento e, se possível, montá-lo. Aí entrará um fator que não é físico, mas  espiritual, e esse pode mudar tudo. É sacar se ele tem espírito ou não, se ele é orgulhoso ou não. Um cavalo fenotipicamente perfeito, porém apático, joga fora dotes físicos próprios para alto desempenho. Por outro lado, há cavalo “todo errado” que, por ter espírito, orgulho, altivez, é um espetáculo. Carro não tem espírito. Só tem reflexos do espírito de quem o criou.

Para um cavalo de tiro, puxar um bonde é moleza (divulgação Disney)

Para um cavalo de tiro, puxar um bonde é moleza (divulgação Disney)

E entre essas características observadas está o tamanho dos cascos; basicamente seu diâmetro e peso. Cascos grandes e pesados já dão a dica de que o cavalo terá dificuldade para ser ágil. Nada de errado com isso, mesmo porque cada raça foi formada para um fim e isso, claro, é que nem carro, se você foca em obter uma função tem que aceitar perda em outras. O Homem fez e faz a seleção em seus animais domésticos que segue o esquema da seleção natural, escolhendo os para reprodutores os mais aptos à função desejada. E cascos grandes, de grande diâmetro, são aptos para cavalos de tiro, ou seja, cavalos de força, tração, dos que puxam carroção pesado ou arado, por exemplo. Casco maior pressupõe ossatura de membros mais robusta, e uma das vantagens é distribuir mais a pressão exercida e daí afundar menos na terra. O Percheron e o Bretão são exemplos mais comuns de raças de tiro.

Cascos grandes e pesadas é como rodas grandes e pesadas — essas de picapes e suves. É para força bruta e lenta. Rodas grandes e pesadas pressupõem suspensão mais pesada e reforçada. Pneus massudos e largos afundam menos na terra. Como se vê, carro tem muito a ver com cavalo.

Denominações (3bp.blogspot.com)

Denominação das partes do cavalo (3bp.blogspot.com)

Quartela e canela (wikipedia)

Quartela e canela (wikipedia)

 

Além do tamanho das cascos, o ângulo que a quartela faz com a canela do membro anterior (o “braço”) indica se o cavalo é mais apropriado para força ou para montaria. Quartela é o osso que liga a pata à canela. Se o leitor observar a foto do cavalo inteiro e a foto do detalhe acima, ficará fácil entender a explicação que segue.

Essa junta funciona como uma mola. Quanto maior o ângulo, ou seja, quanto mais vertical ele for, menos amplitude de movimento, menos molejo, ele terá. Isso é bom para cavalo de tração, pois o esforço a que essa junta é submetida nesse trabalho é imenso. Essa é uma das razões dos cavalos de tração terem um trote duro de doer.

Já para um cavalo de sela é bom que esse molejo seja maior, uma porque ele suaviza o andar do animal, amortece o trote, outra porque ele ajuda na corrida, pois ele age como último e mais rápido movimento que impulsiona o cavalo, tal qual a quebrada de munheca que se dá ao arremessarmos uma pedra no lago. Mas tudo tem limite; ângulo pequeno demais, o que chamamos de cavalo achinelado, também não é bom, pois ele tende a perder a firmeza, a tropeçar fácil.

O cavalo da raça Quarto-de-Milha tem esse trote de quebrar dente, isso porque essa raça texana basicamente foi originada de éguas de tração com infusão de garanhões Puro-Sangue Inglês (PSI). O cavalo de tração levou os carroções dos colonos para o oeste e em seguida lavrou, plantou, colheu os grãos e os entregou na cidade. Passados anos, o já então estabelecido fazendeiro do Texas queria um cavalo mais rápido para lidar com o gado, já que a região não se presta ao plantio de grãos e vai bem para gado, daí buscou reproduzir suas éguas com cavalos de algum sangue PSI.

A Quarter-Horse, como lá é chamada, é a raça mais difundida no campo americano, já que é muito robusta e excelente para a lida, pois é ágil, firme de passo e dá uma arrancada de dragster, já que tem uma tremenda explosão muscular. A vaca não escapa do seu bote. Não é grande coisa para corrida de longa distância, pois tem pouco volume pulmonar para oxigenar sua tremenda quantidade de músculos. É como um velocista humano especializado nos 100 metros rasos.

Puro-Sangue Inglês (autor)

Puro-Sangue Inglês (autor)

Uma das vantagens do cavalo sobre o carro é que ele tem o “chassi moldável”, que se configura de acordo com as necessidades. Vejamos o caso de uma freada. Nós aqui sabemos que, ao frear, a massa do veículo se transfere para a frente. É por isso que em freada forte carro (e moto) embicam — afundam a dianteira e levantam a traseira —, numa clara demonstração de que o eixo traseiro ficou aliviado e o dianteiro, carregado. Esse, como sabemos, é o motivo de geralmente o freio dianteiro ser mais potente do que o traseiro, exemplificado pelos discos de freio dianteiros serem maiores que os traseiros e as pinças e diâmetro dos pistões serem maiores na frente do que atrás, ou mesmo o arranjo mais comum freio a disco na frente e a tambor atrás já bastar.

Dependendo do veículo e da intensidade da freada, algo como 80 % ou mais recai sobre o eixo dianteiro. Já os Porsche 911, com seu motor “de rabeta”, pendurado atrás do eixo traseiro, sempre frearam muito bem, pois sua distribuição de peso faz os pneus traseiros também atuarem bastante, bem mais que os pneus traseiros de um carro com motor dianteiro. Por isso  mais acima eu disse “geralmente”, já que no 911 o freio traseiro é mais potente que em outros carros.

Freada forte, chassi moldável (ca.ataticlickr.com)

Freada forte, chassi moldável (ca.ataticlickr.com)

Então, que tal se tivéssemos um carro com chassi variável, que na freada mudasse assim sua configuração? 1) O motor dianteiro corresse para trás e fosse para a rabeta, e 2) Mudasse ambos os eixos mais para frente? Isso seria bom para frear, não seria? Pois é justamente isso que o cavalo faz. Veja a foto acima e confira.

Ele só não tem ABS…

Outra coisa interessante do ponto de vista da “engenharia” do cavalo é que para ser veloz ele segue a regra do mínimo de “peso não suspenso”. Note que ele praticamente não tem músculos nos membros, só nervos. Nós humanos temos o da panturrilha, a tal barriga da perna, mas eles não, isso para deslocarem o mínimo possível de peso ao longo do movimento de suas passadas. Os músculos de seus membros estão junto ao corpo. Os treinadores de jóqueis clubes, atentos, sabem bem da importância disso, tanto que os cavalos de corrida são ferrados com ferraduras de alumínio!

Considerariam ser um circuito "veloz demais" para automóveis (autor)

Um hipódromo seria considerado um circuito “veloz demais” para automóveis (autor)

E já que falamos dos jóqueis clubes, vale lembrar que a pista de grama do Jockey Club de São Paulo tem 2.119 metros. Suas retas e curvas são tão amplas que, se ela fosse asfaltada, na certa os atuais organizadores de corridas de automóveis a achariam excessivamente veloz para corridas, “muito perigosa!”, e tratariam de fazer umas chicanes para reduzir a velocidade e criariam curvinhas fechadas que qualquer um faz, e ficaria tudo bonitinho.

Bom, é isso aí. Foi um jeito de escrever sobre esse nobre animal que é o cavalo sem sair muito do assunto automóvel. Provavelmente, se descendêssemos dele e não do macaco, nossa sociedade seria mais civilizada. O macaco é um bicho muito safado.

Feliz Ano Novo!

AK



Sobre o Autor

Arnaldo Keller
Editor de Testes

Arnaldo Keller: por anos colaborador da Quatro Rodas Clássicos e Car and Driver Brasil, sempre testando clássicos esportivos, sua cultura automobilística, tanto teórica quanto prática, é difícil de ser igualada. Seu interesse pela boa literatura o embasou a ter uma boa escrita, e com ela descreve as sensações de dirigir ou pilotar de maneira envolvente e emocionante, o que faz o leitor sentir-se dirigindo o carro avaliado. Também é o autor do livro “Um Corvette na noite e outros contos potentes” (Editora Alaúde).

  • Roberto Neves

    Um texto delicioso, no padrão AK. Fiquei pensando num texto complementar que explicasse as diferenças entre rodas e patas… Ótimo 2017 a toda equipe AE!

  • Alexandre Zamariolli

    Arnaldo,
    Se eu descendesse do cavalo, pediria para reencarnar como um Mustang!

    • Luiz AG

      Seria um Pinto. Muitos gostariam de ser um Mustang cor de sangue, mas se contentam em ser um Corcel cor de mel.

  • Mr. Car

    Keller, já que se falou neste velho aliado do homem, e que remete à vida rural, vai aí um clássico da música country que gosto demais. E reparem nesta cowgirl que aparece aos 0:57 (como se fosse possível não reparar), que coisa mais linda! Poucos estilos de vestir deixam uma mulher tão sensual quanto o estilo country, he, he!
    Abraço, e Feliz 2017.

    • Ray Conniff, Mr. Car! Olhe só o que você me arranja! É um figura esse Conniff. Mas as moças, sim, merecem que dediquemos um tempinho a elas.

      • Alexandre Zamariolli

        Da série “aquelas coisas que a gente nunca esquece”.
        Parque do Ibirapuera, São Paulo, 20 de setembro de 1998. Comemoração do aniversário da TV Record, com show do Ray Conniff. De graça.
        Levei meus pais. Nunca passei tanto frio na vida — um vento geladíssimo, vindo Deus sabe de onde, varou meu moletom e minha camiseta como se eu estivesse pelado — mas valeu cada minuto. Para coroar a festa, logo quando estávamos saindo para almoçar, a banda começou a tocar uma das minhas favoritas, Beyond the Sea.
        O homem merecia o sucesso que fez.

        • Mr. Car

          Então…esta é só para para você, Zamariolli. Recordar é viver, he, he!

  • BlueGopher

    Ótimo texto, devemos muito a este nosso companheiro de longa data.
    Aliás, pensando em cavalos e macacos, vai aí uma dose de filosofia caipira:
    “Quanto mais vazia está a carroça, mais barulhenta ela é.”
    O mesmo acontece com o ser humano.

  • Mr. Car

    Em tempo: aproveito o tema para homenagear aos equinos que além da ajuda na lida diária da fazenda de meu avô, contribuíram para tornar mais divertidas e felizes as infâncias deste que vos escreve, de minha irmã, e de mais nove primos e primas. Obrigado “Balão”, “Pirulito”, “Tarzan”, “Conhaque”, e “Americano”, he, he!

  • Luciano Ferreira Lima

    Na minha vespa gosto de antecipar o freio traseiro antes do dianteiro. Procede já que seu peso é mais traseiro ou é só um cacoete perigoso?

    • Luciano, essa de frear um antes do outro nunca fiz. Em motos, seja ela qual for, é frear os dois ao mesmo tempo e, em caso de freada forte pra valer, ou piso de pouca aderência — com areia ou água, por exemplo — ir sentindo se uma ou outra começa a travar. Ao primeiro sinal de travagem, aliviar o freio dessa roda. Na Vespa, mesmo com peso maior na traseira, acho que deva fazer o mesmo, porque o deslocamento da massa para o eixo dianteiro é imediato.

  • Dieki

    Mas os ovais foram criados porque neles se tem visibilidade da pista inteira, além do fato de proporcionarem grande velocidade.

    • Dieki, muitas das primeiras corridas de carros nos Estados Unidos foram feitas em hipódromos com chão de terra, coisa que segue até hoje, na terra, por lá.

  • Walter, como editor-chefe, tenho que ler todos os textos antes da publicação, e amei também! O AK se superou nesse.

  • Boa comparação. Acho o cavalo um dos mais bonitos animais que existem, e mostra o quanto temos que aprender com a natureza.

  • Mr. Car

    Diversas regravações meeeeesmo, Yparraguirre: muita gente regravou “Oh, Lonesome Me”. Curiosidade: de seu compositor (Don Gibson), é também outra canção mundialmente famosa, cuja regravação mais conhecida talvez seja esta aqui.
    Abraço.

    • Marco de Yparraguirre

      Bem lembrado,Mr.Car. Inesquecível.

  • Tyrion Lannister

    Sempre tive vontade de ter: um cavalo animal e um cavalo mecânico (de preferência Scania, Volvo ou DAF).

  • Danilo Grespan

    Excelente texto para começar o ano, mas que será sempre lido! Parabéns!

  • Essa sacada foi ótima, Braulio! Essa de se dirigir sozinho é verdade mesmo. Uma vez levei a noiva de charrete enfeitada ao casamento de um amigo. Tomei um fogo federal. O Lambari me levou direitinho, passo a passo, para casa.

  • Alessandro, raramente o cavalo dorme profundamente. Ele mais cochila em pé. É defesa natural, senão o predador o pega. Sua maior defesa é correr. De vez em quando dorme profundamente, sim, de ficar deitado com a cabeça no chão, mas isso creio que por se sentir seguro na vida moderna, sem predadores. Mesmo assim é difícil surpreendê-lo, pois acorda com o menor barulhinho.

  • Patureba

    Minha família sempre teve fazenda, e sempre frequentei a zona rural, seja na fazenda dos avós, do meu pai, tios, enfim… Uma coisa que a gente aprende é que, por mais tecnologia que hoje possuam máquinas agrícolas e picapes, por exemplo, há ainda muitos serviços que só o velho e bom cavalo é capaz de fazer. Sem falar que aqui em MG, por existir muitas regiões montanhosas, o único meio acessível é realmente no lombo do cavalo. Se chover então, não tem 4×4 que supere a capacidade desse animal.

  • É de raça Árabe, Oliveira. Lindo mesmo. Altivo.

  • Mr. Car

    Não por isto, Zamariolli, he, he! Mesmo considerando que foi de graça, olha o tanto de gente! Não era uma apresentação de uma destas porcarias barulhentas que costumam encantar o povão, mesmo assim…muita gente! Este cara era (e ainda é) muito querido no Brasil.
    Abraço.

  • Mr. Car

    Só porque você falou, vou escutar uma do The Platters agora mesmo, he, he! “Remember When”.
    Abraço.

  • Curió, legal que tenha gostado. Não conheço livros a respeito. O que escrevi provém de observações pessoais.

  • Antônio do Sul

    Mas, projetado pelo engenheiro (se é uma pessoa, uma energia ou uma inteligência superior, vai da convicção de cada um) que bolou também o universo e as suas leis naturais, nem poderia ser diferente.

  • Bruno Rezende

    Excelente texto, Arnaldo. Também compartilho da paixão por cavalos. No meu caso, animais da raça Campolina. Como diziam os antigos, cavalo se analisa de baixo para cima, exatamente o que você mencionou no início. Abs