Quando pouco mais de dois anos atrás o Bob Sharp me convidou para que fizesse parte da equipe do AE ele fez apenas um pedido: queria que meus textos mostrassem um ponto de vista feminino. E disse que poderiam ser sobre o que me aprouvesse. Pois é, mais de 100 colunas depois vou atender totalmente a seu pedido mas, caros leitores homens, fiquem à vontade para dar suas opiniões. Até porque tem coisas aqui que eu não entendo…

Semana passada ao vasculhar notícias e ler coisas à toa no ciberespaço me deparei com um protesto insólito. Uma mulher quis cortar o cabelo numa barbearia de Americana, interior de São Paulo, especializada em cortes masculinos, barba e bigode. Ao ser informada de que no local só são atendidos homens, a mulher teria gritado e maltratado os barbeiros (fato presenciado por clientes também), dizendo-se feminista e que defendia essa bandeira e alegou ter sido discriminada. Ao sair de lá, começou a atacar a barbearia nas redes sociais. A dona da barbearia (sim, é mulher, assim como a filha e ambas trabalham no local) gravou um vídeo para se defender e explicar o que aconteceu.

Sou ferrenha defensora de salários iguais para funções iguais e concordo com a proposta de aposentadoria com a mesma idade para homens e mulheres, mas aceito e entendo que há diferenças entre homens e mulheres e que pode haver estabelecimentos com regras próprias – seja por motivos de sexo ou por outros. Frequentei muito o restaurante Laurent, em São Paulo e lamentei quando fechou. O grande chef Laurent Suaudeau nunca serviu refrigerantes por lá. Dizia que não combinavam com o cardápio do restaurante, mas nem por isso obrigava ninguém a beber vinhos caros. Os preços eram bem razoáveis e sempre houve opção de água mineral. Estava errado? Para mim, não. E olha que tomo refrigerante, mas acredito que ele tinha esse direito. E ninguém era obrigado a ir jantar lá.

Na Índia o táxi rosa tem público cativo (Foto: www.weblistr.com/blog/innovative-transport-aggregator-startups-in-india/)

Qualquer mulher sabe que na maioria dos salões de depilação é proibida a entrada de homens, exceto naqueles que são declaradamente unissex. Nos outros eles não somente não são atendidos como também devem esperar do lado de fora suas esposas, namoradas, amigas ou filhas. Também não vejo problema nisso e até agora nunca vi homens ensandecidos atacando esses estabelecimentos nas redes sociais ou mesmo nos salões. Se fôssemos seguir a teoria da mulher de Americana, em breve veremos homens tachando de discriminação ginecologistas que não marcam consultas com homens.

Desde o final do ano passado que eu havia visto, assim meio de passagem, a divulgação de aplicativos e de empresas de táxi e Uber que oferecem que se escolha uma motorista mulher. Claro que depois do caso de Americana, o assunto voltou à lembrança e fui atrás. Pois é. É assim mesmo, mas só vale para mulheres que façam o pedido. Homem não pode pedir especificamente motorista mulher. Segundo a 99 Táxis, uma pesquisa realizada pela empresa concluiu que 58% das 16.000 entrevistadas disseram que gostariam de ter a opção de serem conduzidas por motoristas do sexo feminino. Como 45% dos usuários desse serviço são mulheres, a empresa resolveu focar nesse nicho – inicialmente apenas em São Paulo e no Rio e desde dezembro em Belo Horizonte, mas com a intenção de estender o serviço a todo o país. Para evitar mal-intencionados, a motorista pode cancelar a corrida sem punição se identificar que o passageiro não é mulher.

Em Nova York tem táxi de mulher para mulher (Foto: clasfblog.com)

Mas não me perguntem o que acontece se um casal pedir um táxi ou se no caso de um casal de passageiros a mulher descer em algum ponto antes do final da corrida, pois parece que não está prevista essa opção. Sempre eu pensando nas coisas mais complicadas… No entanto, motoristas homens continuam proibidos de se recusar a levar algum passageiro e podem ser multados em quase R$ 700. E eu continuo sem entender…

Na prática, há uma questão matemática que complica tudo um pouco mais. Em São Paulo, do total de 60.000 taxistas, somente 7.421 são mulheres. Ou seja, pode-se ter de esperar mais para ser atendido por uma motorista. Mas pelo visto tem quem esteja disposto a aguardar.

No Rio, o Táxi Rosa Carioca tinha no ano passado 800 usuárias e 40 motoristas cadastradas. O estranho é que as duas criadoras deste serviço são mulheres. Digo estranho porque tenho sentimentos confusos quanto a mulheres pregarem este tipo de segregação – enquanto outras vão a uma barbearia masculina e dão piti porque não são atendidas, justamente por serem mulheres.

Entre as usuárias desses aplicativos, as justificativas são mais ou menos as mesmas.  “Mulher dirige com mais cuidado”, “mulher é mais atenciosa”, “mulher é mãe, por isso tem mais atenção”. Vixi, não consigo um único argumento a favor destas teorias. Mulher dirige com mais cuidado? Veja bem… minha primeira coluna neste site foi exatamente sobre isso e até agora, dois anos depois, nada mudou. As famigeradas estatísticas das seguradoras que costumam ser usadas para isso são em números absolutos. Se não colocamos na devida proporção entre homens que dirigem, quanto eles dirigem em quilômetros e em quantos acidentes eles se envolvem, nada feito. Dizer que X% das indenizações pagas pelas seguradoras são a motoristas homens não quer dizer rigorosamente nada. E tanto seguradoras quanto funileiros são unânimes em dizer que é mais frequente mulher se envolver em pequenos acidentes do que os homens — e aí não entram nas estatísticas das seguradoras. Acidente mais leve é menos pior do que um que dá perda total? Sem dúvida, mas também é um forte indício de falta de atenção. “Mulher é mais atenciosa”, bom, não discuto opiniões subjetivas, mas a mulher que fez o barraco na barbearia desmente qualquer teoria. “Mulher é mãe, por isso tem mais atenção”. Sem comentários, pois ainda que a Medicina tinha avançado muitíssimo, ainda são necessários genes de um homem e de uma mulher para gerar uma criança. Ou seja, se há uma mãe há também um pai. E infelizmente tanto um quanto o outro são capazes de maltratar outro ser humano — vide a enorme quantidade de mães que abandonam ou mesmo matam os filhos. E ainda assim, ser pai ou mãe não significa que algum dos dois dirija bem.

Nem entro no tema de que se um homem exigisse ser conduzido por outro homem seria taxado de misógino, entre outros vários adjetivos. Mas mulher exigir outra mulher ao volante pode. Juro que não entendi.

Pedido pode ser feito por aplicativo (Foto: www.fashiontrends.com)

A ideia em si não é nova. Em algumas cidades do México, do Egito e mesmo em Dubai existe um serviço semelhante. Na Índia também, mas aí eu mesma faço uma observação — Índia é um país onde o estupro feminino não chega a ser condenado, então até entendo que lá exista isso. No Brasil, embora haja registros tanto de estupros quanto de misoginia, os casos não são nem remotamente comparáveis à situação da Índia. Obviamente sem defender o que acontece no Patropi, mas acho que aqui, assim como na Índia, a luta deve ser por respeito à segurança para todos. Nos Estados Unidos há quase três anos existe o SheTaxis, um aplicativo que funciona em Nova York e arredores que reúne motoristas e passageiras exclusivamente mulheres.

Costumo cuidar da minha saúde num renomado laboratório que dependendo do exame solicitado me oferece ser atendida por uma médica mulher. Jamais aceitei, pois acho que o médico tem de ter profissionalismo e ética e seria incoerente do meu lado feminista fazer diferenciação. Sem falar que seja médico homem ou mulher sempre há uma enfermeira presente na sala. Assim, ora faço os exames com médico homem ou mulher. Algo puramente randômico.

Sinceramente, não entendo como mulheres que se dizem feministas exigem ser atendidas em barbearias, mas não se manifestam quando mulheres criam mercado de trabalho de táxi exclusivamente de mulheres para mulheres. Ou discriminação é só contra mulheres? Mudou o nome?

Mudando de assunto: depois de um tempo na dúvida, teremos, sim, pelo menos um brasileiro na Fórmula 1. A confirmação de Felipe Massa na Williams veio agora mas já era uma forte possibilidade. Claro que acho muito bacana, mas não me alinho com aqueles que dizem que sem piloto brasileiro a F1 não tem graça. Nem com aqueles que dizem que depois da morte de Ayrton Senna não assistiram mais corridas. Esses eram fãs de Senna (com todo o mérito, ele era excepcional), não fãs de F1. Gosto muito do Massa, mas sou fã de Fórmula 1. Assim como era super fã de Nélson Piquet, James Hunt e Gilles Villeneuve e continuei assistindo depois que eles deixaram de correr.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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