O Tonho, aliás Antônio Carlos Carlini Pereira, é um bom amigo de longa data, e vamos à restauração de uma Kombi Corujinha ano 1973. Esta história já começa meio atrapalhada, como veremos a seguir. Como ele mesmo definiu: “Agora estou com uma nova missão, quase impossível, restaurar uma Kombi 73, mas como bom mineiro, mais teimoso que uma ‘mula empacadeira’, não desisto jamais. ”

Esta façanha começou em julho de 2016, se bem que ele tinha a intenção de restaurar uma Kombi Corujinha há muito tempo. Conversando com um amigo, que ele não via há muito tempo, ele manifestou a intenção de adquirir uma Kombi Corujinha, e para a surpresa dele o amigo disse o seguinte: “Ah!!! Eu sei onde tem duas Kombis paradas há muito tempo e o dono as vende baratinho, fica em um sítio aqui em Córrego do Bom Jesus no sul de Minas”.

Inquieto, ele foi logo dando um jeito para contatar o proprietário. Depois de muitas negociações, idas e vindas, e para encurtar a história, ele acabou comprando duas Kombis uma 1975 e outra 1973, pois foi esta a condição imposta, o dono só venderia as duas.

A Kombi corujinha branco e amarelo no coberto onde ficou parada por anos

Fechado o negócio o Tonho quis retirar as Kombis de imediato, pois ele temia os caçadores de Kombi Corujinha de São Paulo que já estavam de olho no “brinquedo” dele. A preocupação era o dono das Kombis que poderia desistir do negócio se os tais caçadores viessem a oferecer um valor maior.

Tirar as Kombis de lá logo? Só que não! Ocorre que estas Kombis não fugiram da sina de carros parados em sítios por muito tempo: tinham virado galinheiro e havia uma “penosa” depositando ovos num ninho, construído para este fim, com sérias intenções de aumentar a prole do sítio. Daí foram 21 dias de espera para que o último pintainho deixasse o ninho e liberasse o veículo para transporte. Até este último pintainho ficou sempre acompanhado pela mãe, uma verdadeira galinha choca, brava como uma leoa, das mais ciosas de suas obrigações com a ninhada toda.

A ninhada estava quase pronta para deixar o ninho, mas a espera foi até a liberação final da Kombi para ser levada para o sítio do Tonho

Aí as Kombis, logo que liberadas, foram transportadas direto para o Sítio do Tonho em Porto Sapucaí, em que um trator Ford 1949 (veja no boxe adiante) ajudou na movimentação interna.

Ele acabou optando por reformar a branco e amarelo 1973 uma vez que sua documentação estava em dia; a outra, a bege 1975, ainda tinha algumas pendências. Porém, para a grande surpresa do Tonho, o que parecia bom escondia uma triste realidade: camadas espessas de massa plástica encoberta por tinta e bastante ferrugem; o que está obrigando à substituição de muitas peças.


Por mais incrível que possa parecer o Tonho “fabrica” as partes necessárias usando uma dobradeira simples, que ele teve que confeccionar visando esta restauração. Veja-a abaixo:

Acho que o Tonho está levando o lema “faça você mesmo” a um extremo

A coluna do lado direito, por uma reparação inadequada, pois havia sido soldada fora da posição, obrigou ao Tonho a remoção total para corrigir o alinhamento.

O que pareceu que seria fácil está se mostrando bastante complexo e trabalhoso

A estas alturas o Tonho desabafa: “Aqui cabe um parêntese, a Kombi, no meu entender, é um dos veículos mais difíceis de serem restaurados, pois grandes extensões de chapas provocam empenos e dilatações durante o processo de soldagem, sendo que para encolher, retornando à condição original, têm-se que usar de métodos que demandam tempo, paciência e muito trabalho. ”

O progresso do trabalho pode ser avaliado nas fotos abaixo e em pouco tempo chegará a hora da pintura:

Imagino o orgulho e a satisfação do Tonho ao ver mais uma de suas restaurações ficar pronta e ele poder dizer: “Fui eu quem fiz”…

Para o Tonho o céu é o limite e ele agora se dedica em tempo integral a todas estas atividades, sempre descobrindo novas coisas para fazer.

Mas, quem é o Tonho?

Conheci o Tonho em função do projeto CTE2, da CSN, uma usina térmica que aproveita gases do processo siderúrgico para alimentar as caldeiras e gerar vapor para as turbinas e para o processo; ele do lado do cliente e eu como coordenador do fornecimento nacional para aquele empreendimento.

Esta amizade me permitiu conhecer a Tetê, aliás Maria Tereza de Barros Carlini, sua esposa, que já participou aqui desta coluna com o delicioso causo “Foi assim…” aquele da menina que roubava o carro do pai. E o Tito, aliás José Carlos Carlini Pereira, que é irmão gêmeo do Tonho, e que acaba de ter seu segundo causo “No Mercado Municipal”  publicado aqui em nossa coluna. É uma família muito querida com muitos e diferenciados dons artísticos.

O Tonho há muito tempo tem como hobby usar a sua criatividade e seus conhecimentos práticos e artísticos para uma grande variedade de trabalhos e vamos ver alguns exemplos do que ele faz com maestria.

• Restauração de uma Pick-Up Ford 1929

Um de seus trabalhos ainda da década de 80 foi a restauração de um Ford modelo A tipo Pick Up 76-A ano 1929, comprado em 1975 e restaurado entre 1980 e 1987; o trabalho envolveu a desmontagem de toda a lataria e partes mecânicas como o motor, câmbio, diferencial e sistema de freio, bem como extenso trabalho de funilaria. Chegou ao cuidado de importar algumas peças como vidros dos faróis, platinados, tampa do distribuidor, mais conhecida como chapéu de Napoleão. O livro “Restoring the Model A Pick Up” (Restaurando o modelo A Pick-Up) foi de grande valia para orientar esta restauração. Algumas fotos deste trabalho:

• Comprando peças na Alemanha

Por falar em comprar peças no estrangeiro eu lembro de uma das frequentes viagens que fizemos para a Alemanha – eu e a equipe da CSN da qual o Tonho participava, na década de 90, para as reuniões de coordenação com os fornecedores europeus para a usina térmica da CSN. Em uma delas eu levei o Tonho para uma cidadezinha no sul da Alemanha para comprar peças para um outro projeto dele: a restauração de um Goggomobil. O carrinho estava em reforma e algumas peças eram necessárias para completar o projeto. Seguem-se fotos do Goggomobil sendo reformado pelo Tonho:

Fazia muito frio e, depois de umas horas de viagem chegamos à casa do dono das peças; mas o tesouro estava escondido num vilarejo próximo e, chegando lá, tivemos que subir uma escada precária para chegar ao sótão do celeiro que estava abarrotado de peças de daquele tipo de carros. O Tonho estava feliz como um pinto no lixo, mas a alegria foi “amainada” pelos preços que o vendedor pedia pelas incríveis peças “NOS” (new old stock, peças novas em estoque) que ele tinha naquele sótão:


Certamente esta incursão na Alemanha em busca de peças para um Goggomobil “perdido” no Brasil e carecendo de algumas peças NOS ficou na história.• Restauração de um trator Ford 1949Mais recentemente ele pôs a mão na massa num trator Ford 8N de 1949 que agora é pau para toda a obra no sitio dele em Porto Sapucaí, também em Minas Gerais, como podemos ver na foto de entrada desta matéria. Algumas fotos desta restauração:

• Restauração de um Ford Phaeton 1929

Depois foi a vez de um Ford Phaeton 1929, que já está terminado e roda normalmente; hoje está numa exposição no shopping aqui em Pouso Alegre. Olhe só como foi esta restauração:

• Trabalhos em marcenaria

Mas não é só de restauração de veículos que vive este bom amigo, pois ele adora trabalhar com madeira e aí vem a parte de marcenaria, na qual ele reproduz réplicas de rádios do tipo capelinha, e relógios de vários tipos como águia, cavalinho, pedestal, e por aí vai. As fotos mostram a qualidade dos objetos que ele produz:

 

 

Conhecer esta família amiga foi uma grande sorte e eu fico contente em poder trazer para o leitor os causos da Tetê e do Tito e, agora, as “artimanhas” do misto de aspirante a “Professor Pardal” e assistente do “MacGyver” com uma incrível inclinação a topar uma “Missão Impossível” de vez em sempre, que é o Tonho.

AG

REGISTRO: após da mudança de provedor ocorreu a perda parcial de material fotográfico que foi recolocado nesta matéria no dia 04/02/2017. Este procedimento, feito pelo autor, complementou o trabalho feito pelo Staff do AUTOentusiastas na condução da transferência de muitas centenas de matérias para “seu novo lar”. Com isto esta matéria foi reconduzida à sua condição original, respeitando as condições de arquivo existentes, pequenas diferenças podem ter ocorrido.
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A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

 

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