…ou eu não estaria aqui no AE conversando com você, leitor ou leitora!

Com o desejo de que o período de Festas tenha sido exemplar para você e sua família, vou lhe contar o que me aconteceu no período carnavalesco que, por sinal, está chegando e deverá ser a próxima semana de alguns dias de descanso para alguns e de farra para outros.

A história de hoje é da época em que eu morava no Rio de Janeiro, trabalhava na Volkswagen do Brasil em seu escritório regional, e nos remete a 1973.

Meu apartamento ficava no bairro de Botafogo, uma bonita e aconchegante  cobertura do prédio de oito andares (foto de abertura) com direito a terraço e uma grande área livre. Tinha uma boa sala, cozinha, banheiro um excelente quarto e garagem. Era o sonho de um solteiro morando no Rio de Janeiro.

Importante saber que foi decorado com as minhas economias, mas orientado pela minha mãe que não deixava faltar nada, sempre me ligava de São Paulo, onde vivia com meu pai. Você sabe, mãe é mãe.

A história propriamente dita começa quando num belo dia fui chamado à sala do meu gerente, o Miguel Barone, que me perguntou: “Você vai passar o Carnaval aqui no Rio ou vai visitar seus pais em São Paulo? (eu ainda era solteiro) Vamos ao ponto, Ronaldo: recebi da Diretoria da fábrica a incumbência de fazer a reserva de hotel para um pessoal que vem de Wolfsburg para passar o carnaval aqui no Rio de Janeiro e não estamos encontrando lugar, e quando encontramos os valores cobrados são impossíveis de serem pagos mesmo para quem tem salário em marcos alemães.”

Como já estava comprometido com meus pais de passar os feriados de Carnaval com eles, não sou carnavalesco, achei razoável o pedido do Barone, que até me perguntou quanto eu cobraria para alugar o apartamento durante aqueles dias. Atender a um pedido da diretoria, deixar o Barone em posição mais confortável com relação ao difícil pedido feito, concordei em fazer o empréstimo, sem custo nenhum — era também um investimento, obviamente!

Assinalado está o terraço do meu apartamento, por ser uma cobertura (Foto: Google Earth)

Tudo acertado, chave do apartamento com o zelador, o nome dos “convidados” também e os desejos de uma boa estada. Mas antes uma completa limpeza, arrumação da cozinha, algumas cervejas na geladeira e até toalhas no banheiro à disposição eu deixei.

O Carnaval chegou, na sexta-feira viajei ao encontro dos meus pais com meu TL 2-portas azul Pavão de serviço, e tudo estava acertado para o meu retorno na quarta-feira pela manhã, pois naquela época se trabalhava na Quarta-Feira de Cinzas depois das 13 horas. Você sabia?

Pois quando cheguei em casa, no meu apartamento, ou o que sobrou dele, tomei um  tremendo susto. Achei que havia entrado ladrão! Para minha surpresa encontrei um homem no terraço tomando sua última cerveja antes de seguir para o aeroporto. Pouco ou quase nada falei com ele, eu estava em estado de choque com o que via!

Pedi-lhe que ao sair deixasse a chave com o zelador, e fui embora.

Você pode se estar perguntando, embora para onde? Isto mesmo, fui para a casa da minha, à época, namorada, hoje, 44 anos depois, ainda minha esposa (nos casaríamos em outubro daquele mesmo ano). Contei-lhe o que havia acontecido e ela gentilmente ofereceu-me acolhida. Juntos pensamos em como resolver aquela situação.

Na mesma tarde fui ao escritório falar com o Barone e pedir a ele suas recomendações para minhas necessárias e urgentes providências.

Relatei o que havia encontrado, a sala totalmente desarrumada, móveis mudaram de lugar, latas de cerveja espalhadas por todo o apartamento, até debaixo da minha cama. Louça suja amontoada na pia, resto de comida de muitos dias, garrafas de bebida espalhadas, um garrafão de cinco litros de uísque Chivas com aquele com suporte giratório, vazio, e o pior, roupa de cama e minhas próprias roupas minhas usadas e espalhadas por todos os cantos.

Para completar a cena de horror, parecia mesmo que haviam entrado ladrões, que soube que entraram, mas os alemães (três) trouxeram sabe-se lá de onde companhias femininas. A perplexidade do Barone, sua expressão facial era a prova de que o imaginável tinha acontecido. Isso mesmo, o imaginável.

Sua recomendação, além de um enorme pedido de desculpas, foi foi eu fazer um relatório completo sobre tudo isto, fotografar tudo que pudesse, colocar toda roupa na lavanderia, contratar uma pessoa ou empresa para fazer a limpeza, e relacionar o consumo de geladeira, bebidas e outras despesas.

Autorizou-me a ficar num hotel o tempo que fosse necessário (até aquele momento eu ainda não havia contado estar acomodado na casa da minha namorada) e pediu-me que lhe entregasse tudo o mais rapidamente possível. “Cuide da sua casa e esqueça o escritório esta semana.” — disse-me.

Só voltei para o apartamento no domingo à noite, depois de ver a casa totalmente  arrumada. A atitude do Barone não poderia ter sido outra: enviou meu relatório com as fotos para a Diretoria da VWB em São Bernardo do Campo, com a soma dos valores de todas as despesas provocadas pela infeliz visita ou infelizes visitantes.

Em menos de 48 horas recebi um depósito em minha conta-corrente reembolsando-me integralmente das despesas que havia tido com o voluntário empréstimo do  apartamento e uma carta da diretoria com um pedido oficial de desculpas pelo ocorrido. A carta era do diretor de Vendas Bernard Eland.

É uma pena eu não ter ficado com nenhuma foto do interior do apartamento como encontrei e, claro, não guardei os negativos. Ao contrário do que se fosse hoje, era das fotos digitais, em que você poderia ter melhor ideia do estado em que ficou o apartamento.

O que aprendi com esta experiência? Não importa o nível social, não importa a origem das pessoas, o que importa é sua formação moral, educação e respeito pelo próximo. Foi uma experiência das mais desagradáveis e não desejo a ninguém que passe. Pode estar certo, leitor ou leitora, foi uma situação jamais esperava vivenciar.

O Carnaval está chegando, lembre-se desta minha história e se alguém lhe pedir o apartamento da praia ou o da sua residência emprestado, pense bem e decida o que seu coração mandar para não se arrepender depois.

Ia esquecendo: um dos três alemães, o que encontrei e foi o último a sair, se chamava Rainer Wolf. No começo da década seguinte voltou ao Brasil para ser o gerente de Marketing da VWB. Estava aposentado há anos e eu soube que faleceu em 9 dezembro último, em São Paulo.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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