Possuir um Alfa Romeo há alguns anos não faz de você uma autoridade na marca, mas cedo ou tarde alguém vai te perguntar se vale a pena comprar um modelo da mesma. Quando querem saber sobre a manutenção do veículo, respondo que este aspecto é um detalhe circunstancial. O mais importante na questão sobre ser — ou não — dono de um Alfa Romeo, está na pessoa, não no carro.

Para ser dono de um Alfa Romeo você precisa ostentar dois pré-requisitos: 1) ser cabeça-dura; 2) ter coração mole. São os teimosos românticos que dão sobrevida à fabricante italiana que, de tempos em tempos, anuncia um grande renascimento, com lançamentos que parecem foguetes em direção à estratosfera, mas que se esvanecem tal qual fogos de artifício em noite de ano-novo. Por isso, cabe aos teimosos românticos fazerem bonito com seus velhos Alfas, sempre que surgem oportunidades.

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O Alfa Romeo 156 Twin Spark 2,0 Elegance 1998 que habita a minha garagem há três anos

Estava numa festa de casamento quando me escorei na mesa de uma tia querida. Ela, aos 58 anos, era solteira. Era, pois confessou que também estava para se casar. Não acreditei, mas o namorado dela tinha 72 anos, era viúvo, morava sozinho e a convidou para juntar as escovas de dentes. Ela disse que só faria isso casando na igreja. Ele, apaixonado, topou.

— Tia, se você vai casar na igreja, faço questão de te levar no meu Alfa Romeo.

Ela reside em Caçapava, no Vale do Paraíba. Moro distante quase 200 km, em Paulínia, na região de Campinas. Para rodar ao menos 400 km num fim de semana, com um carro ano 1998, teria que fazer uma revisão condizente no 156 Twin Spark 2,0 Elegance.

Remanejei duas manhãs de trabalho para tanto. Comecei pelo reparo do compressor do sistema de ar-condicionado. Queria fazer apenas uma recarga, mas o técnico disse que aquele compressor estava lacrado de fábrica e que a recarga não duraria três meses. De fato, foi o tempo que as duas recargas anteriores aguentaram.

No dia seguinte acompanhei a troca de fluidos e filtros. Fiquei observando por baixo do carro sem fazer perguntas. É a minha tática para o mecânico não desconfiar do meu grau de ignorância e, afinal de contas, quem faz perguntas demais ganha a fama de curioso, no limiar da alcunha de “chato de galochas”. Na sequência fiz o balanceamento e alinhamento de rodas, só para constatar que o sistema de freios estava em dia, assim como as polias do motor.

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Momento autoentusiástico!

O dia do casório chegou e acordamos mais cedo. Antes de pegar a estrada enchi o tanque de gasolina até o talo e escolhi os melhores CDs de rock que tenho, para cuidar da educação musical de minha filha, de apenas três anos. Trafegando pela Rodovia Dom Pedro I, perguntei para minha esposa se ela conhecia São Luiz do Paraitinga — uma cidade em forma de presépio, repleta de construções do tempo da colônia portuguesa. Como ela disse que não, propus de esticarmos o passeio para almoçar lá — o que seria melhor do que estorvar os parentes nos preparativos para uma festa.

Consegui estacionar na praça da matriz reconstruída depois da enchente histórica, na aurora de 2010, que mergulhou a localidade no caos. Na mesma calçada escolhemos o restaurante, que nos serviu um prato caipira que parecia um prato de pedreiro: uma montanha de feijão tropeiro com arroz, salada de couve, bife a rolê, ovo frito e macarrão — o que seria um sacrilégio para quem tem sangue italiano se revelou um manjar digno de bandeirantes. Tive que reservar espaço no estômago para tomar um pingado na padaria perto do mercado municipal, onde se degusta uma broa de fubá temperada com gotas de infância.

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A igreja matriz de Lagoinha

Lá perguntei se havia um caminho para Aparecida que não passasse por Taubaté, onde já havíamos estado naquele dia. Fui orientado a pegar a estrada para Lagoinha (foto de abertura), que desembocaria na ligação entre Guaratinguetá e Cunha. Nunca havia guiado ali e o deleite de explorar curvas inéditas — manuseando a alavanca do câmbio com o teto solar aberto — me fez planejar um retorno específico, com direito à descida da Serra do Mar até Paraty.

Ao passar em segunda marcha por Lagoinha, na chicane da igreja local, o motor apagou. Acabou a diversão — pensei. Então abri a tampa do motor e mexi na rosca da chave-geral que instalei no terminal da bateria. A trepidação proveniente dos paralelepípedos do centro de São Luiz deve ter provocado uma falta de contato. O carro pegou e este foi o único incidente preocupante em todo o passeio.

Somos luteranos, mas sempre quis levar minha filha para conhecer o Santuário Nacional de Aparecida. É uma experiência que todo brasileiro deveria vivenciar ao menos uma vez. A cidade é o retrato de um país tomado pelos contrastes. Fora dos muros altos do templo vemos um formigueiro humano, cujo cheiro mistura a fritura vencida de óleo de soja das barracas de alimentação com a fumaça de óleo diesel de caminhões velhos e o estrume dos cavalos das charretes que levam os turistas para o mirante do Rio Paraíba.

Lá dentro, toda a beleza e imponência que a arquitetura inspirada na Basílica de São Pedro, no Vaticano, pode nos oferecer. Vamos caminhando pelo estacionamento dos ônibus de romeiros e vemos gente sofrida de todos os cantos. Gente que se entrelaça num fio de esperança que nos faz implorar para que a Mãe do Menino Jesus possa realmente olhar por todos, e se sobrar um pouco de atenção, então pedimos que olhe também por nós.

Não pudemos permanecer muito tempo por ali: a tarde começava a cair e precisávamos rumar para Caçapava, a Terra da Taiada. Vejo que a via Dutra está engarrafada e sigo pela antiga estrada Rio-São Paulo até Roseira, a tempo de pagar o pedágio de Pindamonhangaba.

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Chegando ao Santuário de N.S. de Aparecida; a torre ao fundo

Tomo uma ducha gelada, levo minhas meninas para a igreja e vou buscar a noiva no salão de beleza. Minha tia, mais linda do que nunca, fez seu último passeio como solteira no meu Alfa Romeo. Essas coisas pequenas viram âncoras nos portos da nossa memória.

No dia seguinte, após o almoço com a família, peguei o caminho de volta. Desta vez sem inventar uma barriga do tamanho de um boi. Pouco antes da chegada vi a luz da reserva de combustível acender no painel. Havia percorrido quase 625 km sem abastecer. Fiz uma estimativa do que ainda poderia rodar e tirei a média pela capacidade do tanque, próxima dos 70 litros. Na conta de padeiro deu pouco mais de 9 km por litro.

Comentei isso numa rede social e um amigo respondeu que seu Toyota Corolla automático fazia de 13 a 14 km por litro. Dei-lhe os parabéns, mas pretendo continuar com meu velho Alfa Romeo. Ele é agnóstico, racional e dono de um bom senso científico. Sou crente, teimoso e romântico: não saberia viver — e dirigir — de outro modo.

 

 

JT

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