Só quem passa por uma experiência como esta que vou lhe contar hoje pode afirmar que o cachorro é  mesmo o melhor amigo do homem.

Vou relatar uma experiência pela qual passei recentemente e que mudou minha vida por um bom tempo.

Era março de 2013 e eu ia visitar uma empresa em Suzano, cidade que fica a 78 quilômetros do centro de São Paulo, mais precisamente na zona leste da região metropolitana.

Durante minha visita, o filho do proprietário da empresa me convidou para dar uma volta e assim poder mostrar a empresa e seus processos de produção.

Em determinado momento se dirigiu ao portão de entrada e disse ao segurança que iríamos até a calçada e já voltaríamos. Sabe o que ele queria fazer lá fora? Fumar, isso mesmo, o seu pai não permitia que se fumasse nas dependências da empresa, nem nas áreas descobertas, dizia: quer fumar, vá à rua, fume por lá!

E assim foi, fomos caminhar na calçada, ele fumando e me contando fatos curiosos da empresa e da administração familiar, com seu pai na presidência e sua mãe como diretora financeira, ele e seu irmão como marketing.

Caminhávamos quando em dado momento percebi uma pequena aglomeração de pessoas na próxima esquina e a maioria eram mulheres. O que teria acontecido por lá? — me perguntei. A curiosidade foi maior, fui até lá ver o que acontecia.

Várias pessoas ao redor de um pedaço de pano de chão, mas curiosamente o pano se mexia, o que seria aquilo. Aproximei-me e tomei um susto, havia um ser ainda vivo embrulhado naquele pedaço de pano, era um cachorrinho, filhote e que não deveria ter mais do que alguns dias. As mulheres faziam comentários que me deixaram ainda mais aterrorizado, “deixa morrer, larga por aí que urubu come, meus filhos já passam fome e eu não tenho como cuidar dele” etc, etc, etc… cada comentário pior do que o outro!

Aquilo me tocou de tal forma que eu tomei uma decisão da qual jamais me arrependerei. Falei com meu anfitrião, encerrei a visita à sua empresa, achei uma caixa um pouco maior do que uma caixa de sapatos e voltei para onde estava aquela criaturinha indefesa com aquelas bruxas ao seu redor. Pedi licença, peguei o pano com o cachorrinho e coloquei-o na caixa no meu carro e, sem pensar, fui para casa.

A minha nova companheira estava horrível, era só pele e osso, sangue os carrapatos já haviam sugado todo, deitada na caixinha olhava para mim como quem queria dizer: “Quem é você? Para onde estás me levando?”

Como sou normal, mesmo com o carro em movimento liguei para minha mulher e lhe disse que estava levando o Juca para almoçar em casa. Minha mulher perguntou, “Mas quem é este Juca? Amigo surpresa?” Disse que sim, mas que não precisava fazer nada especial que eu levaria o almoço para casa.

Quando cheguei em casa apresentei o Juca à minha mulher, foi um susto só. Susto pela surpresa de ser um cachorrinho, e um supersusto por ver o seu estado.

Nossa primeira providência foi chamar a veterinária, Dra. Eneida, que já cuidava de uma cocker que já tínhamos em casa, a Agatha.

Dra. Eneida não tardou em chegar e também se assustou com o estado do coitado do animalzinho, todo debilitado.

Após os primeiros exames também a primeira surpresa, o Juca era a Juca e para dar certo já rebatizamos a pequena com o nome de Bell, “bell” de sino por que se diz nos contos infantis que depois da badalada de um sino sempre aparece um anjo e nós, minha mulher e eu achávamos que essa cachorrinha seria nosso anjinho.

O exame feito pela Dra. Eneida não foi de muito otimismo, a coitadinha deveria ter aproximadamente 20 dias de nascida, totalmente desnutrida, pesava 450 g, abandonada no mato, cheia de carrapatos e com poucas chances de vida, mas como somos e sempre seremos otimistas, fizemos tudo que era possível naquele momento.

Banho dado pelo meu filho com todo cuidado, ela era mais frágil do que um cristal belga, demos vitaminas, calor, humano e de um pequeno cobertor, uma caminha confortável e muito carinho. A primeira noite dormi com ela na área de serviço.

De madrugada a primeira boa surpresa, a danadinha tinha sentido o cheiro da água que havíamos deixado bem próximo e tentava sair da sua caminha, mas estava tão fraca que não parava em pé.

No dia seguinte a notícia da água foi levada à veterinária que comemorou o avanço. Depois de três dias e já se alimentando, tomou vacinas e já identificava quem era quem nesta nova casa, principalmente a curiosidade da cocker Agatha que queria a todo instante saber quem era aquele animalzinho intruso em sua casa.

O tempo foi passando e a cada dia se afastava a ideia de colocá-la para adoção, o que era a ideia original. Salvá-la, deixá-la linda e colocá-la em uma casa de uma boa família para que ela recebesse todo carinho que merecia.

O tempo passava, ela crescia e muito, e não se desgrudava de mim. Eu tenho certeza de que ela me reconhecia a todo instante como sendo o seu salvador. Será?

Não sei se você sabe, mas moro em apartamento, certo que é grande, mas o tamanho da Bell começava a me preocupar. Não falei nada a respeito da sua raça não é? Você já ouviu falar em Rhodesian? Achei na internet e devido à sua semelhança concluí que 90% era Rhodesian e os outros 10% outra mistura a qual não consegui identificar. Rhodesian é uma raça de origem africana e tem como característica ser grande companheira dos caçadores. Já pensou, eu ter que caçar?

Mas deixe-me voltar ao foco principal. A Bell crescia a olhos vistos, saía comigo à rua para passear e era elogiada por todos, muito mansa e carinhosa, aceitava que lhe passassem a mão no pelo, mas não era qualquer um que se atrevia.

Mostrou-se com o tempo uma boa companhia para a Agatha e ensinava-lhe a brincar, mas as suas brincadeiras começavam a ficar brutas.

Um dia um desentendimento entre as duas, devido à diferença de tamanho e peso já dá para identificar quem saía perdendo. Separamos as duas pela primeira vez. Qual seria a razão do desentendimento, ciúmes? Não sei afirmar.

Uma única coisa que infelizmente se sucedeu foi a repetição de brigas, mais duas e estas foram terríveis, se não estivéssemos em casa seria fatal para a cocker, menor e mais frágil. Uma luta desigual. E agora, o que fazer?

Procurei ajuda com treinadores de cachorros, com veterinários, e as respostas sempre levavam para a mesma direção. Cachorro quando se desentende com outro normalmente é para sempre. Não podia correr o risco de ter em casa uma nova briga sangrenta como tinha sido a última, comecei a divulgar, com muita dor no coração, a necessidade de achar uma casa para a minha Bell.

Sabe quando as coisas acontecem de forma que você nem acredita? Minha sobrinha tem uma amiga e esta amiga tem uma casa em Campos do Jordão. Sua caseira tinha perdido recentemente, por idade, um pastor alemão e estava à procura de um novo cachorro para morar com ela.

Contatos feitos, fotos enviadas, conversas por telefone  e a aceitação veio com muita alegria. Quem ficou arrasado fomos eu e minha mulher, afinal já havia se passado um bom tempo e a Bell já fazia parte da família.

No dia marcado, fomos a Campos do Jordão, endereço na mão e ansiedade no coração.

Quando lá chegamos não acreditei, a casa era um palacete, enorme, moderna, com muitos jardins e gramados. Ao tocar a campainha, a Nice — o nome da caseira— veio ao nosso encontro. Abriu o portão e aí mais uma surpresa, e esta maravilhosa: a Bell pulou nela com as duas patas se apoiando em seus ombros como se fossem velhas conhecidas.

Entramos, conhecemos a casa os jardins e em poucos minutos a Bell seguia à nossa frente como se quisesse nos mostrar a sua nova casa.

Quanta alegria, que felicidade, que alívio, tudo conforme eu desejava. Fiquei na casa até o final da tarde e aí o ponto difícil desta história: a despedida. Lágrimas rolaram entre felicidade e tristeza.

Em março próximo a Bell completará quatro anos, está com uma saúde de ferro pesando 36 kg de puros músculos, sai para passear na cidade, tem veterinário que a pega para banhos e no mais, só posso dizer que esta tudo ótimo e a Agatha neste tempo voltou a ser a princesa da casa.

Em meados deste mês vou fazer-lhe uma visita, a última vez que a vi foi em abril passado. A saudade é grande mas ela está feliz, saudável, gostam dela e isto é o que interessa.

Como é bom ter o sentimento de ter feito a coisa certa. Tomara que outros animais encontrem seu “anjo da guarda” e possam ter uma vida como eles merecem.

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RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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