E lá estava eu com tempo de sobra para observar com calma todos os modelos de moto da Honda, e são muitos os modelos, com diferentes tamanhos, cilindradas e propósitos. A pessoa que eu esperava naquele mostruário estava se demorando um pouco, então aproveitei a oportunidade para montar em quase todas as motos, observar detalhes, sentir seus pesos  e olhá-las sob diversos ângulos. Uma ou duas eram realmente bonitas, porém a grande maioria, achei que não. É uma opinião pessoal, portanto aceito divergências.

Analisando friamente, tirando de lado a excelente e moderna tecnologia que embarcam, a boa ciclística, o excelente motor, a característica docilidade com que todas nos obedecem, enfim, a boa moto que todas são, acho que bem que poderiam ser mais bonitas. Já foram lindas de babar, porém hoje parecem ter saído de um seriado do tipo Jaspion, e o duro é que quando a marca aqui chegou, no final da década de 1960, com motos ainda importadas, elas eram mesmo lindas; lindas, boas e chiques.

Quem se lembra da CB 450 importada, da sonora 750 K (com escapamentos 4 em 4), da sonora 400 Four (4 em 1), da sonora CB 125 (2 em 2)?, e isso só para citar algumas das que eu mais gostava. E esses sucessivos “sonora” é para lembrar o quanto cantavam bonito…

 

Honda CB 450 de 1970 (motoera.com)  OS FABRICANTES NÃO DEVEM ESQUECER SUAS ORIGENS motoera

Honda CB 450 de 1970 (motoera.com)

Não foi à toa que a Honda foi uma das causas da quebra de várias fabricantes ao redor do mundo, pois as Honda estavam entre as mais belas, as mais elegantes, e eram quase tão boas de ciclística quanto as melhores. Eram, como já disse, dóceis, de fácil pilotagem, menos problemáticas e, importante, eram mais baratas. Foi uma febre. A marca foi a maior responsável pela popularização das motos, principalmente aqui no Brasil, tanto que aqui a História da moto pode ser dividida em a.H. e d.H. Digo isso porque o vivi.

Minha primeira moto foi uma Honda 65, há 49 anos, praticamente meio-século. E de lá para cá nunca fiquei sem moto, sendo que a grande maioria delas foi Honda. Um dos motivos era a célebre frase: “Toda moto é boa, desde que seja Honda”, o que significava que as outras fabricantes também faziam motos boas, porém nem todas as motos que fabricavam o eram . Comprar uma Honda não tinha risco de erro. E eram belas.

Só que as coisas mudaram. Todo mundo evoluiu, a tecnologia veio e hoje, assim como acontece com os carros, quase todas as motos são boas e confiáveis, daí que o design passou a ter maior importância na hora da escolha desses dos veículos. O mesmo se passou com outras máquinas; por exemplo, o relógio. Há poucas décadas, antes do advento do relógio eletrônico, o sujeito comprava um bom relógio porque queria um relógio preciso, robusto e confiável. Hoje qualquer relógio “xing-ling” é tão preciso quanto um Rolex. E uma compra feita no espectro compreendido entre um e outro desses extremos as escolhas são feitas mais pelo design. Portanto, designers em geral, fiquem espertos, pois a bola daqui para frente estará com vocês.

Design irresistível (rotasem rodas.com)  OS FABRICANTES NÃO DEVEM ESQUECER SUAS ORIGENS jaspion rotas e rodas

Design irresistível (rotasem rodas.com)

E ali, esperando, observando as motos e divagando, me questionei: Mas será que essa sua opinião decorre de você ter uma queda por motos estilo retrô, tipo Triumph Bonneville, BMW nine T, Royal Enfield?. Não, pensando bem, não, pois gosto das Ducati, de todas elas, e todas têm design moderno, e todas são chiques, têm design de bom gosto.

Alguma coisa aconteceu com a orientação da Honda lá em cima. Acho que está faltando alguém com capacidade e poder de mando e que diga a todos os funcionários: “As motos têm que ser assim e fim de papo!”. Para isso, antes de tudo, ele tem que ser um apaixonado por motos, alguém como foi Soichiro Honda, o fundador, alguém cujo encanto seja as motos e não as cifras.

Soichiro Honda, o mestre, personificava a marca, era o espírito da marca. O que dizem é que ele não dava muita bola para a administração econômico/financeira de seu conglomerado de indústrias. O que dizem, ou melhor, o que se sabe, é que ele gostava mesmo é de influir nos projetos. Ele gostava é de fabricar motos e carros, de fazê-los. Ganhar dinheiro com isso lhe era secundário, só um meio dele continuar produzindo, cada vez melhores e mais bonitas, suas máquinas. Ele era um engenheiro genial apaixonado por criar. Era isso o que o fazia feliz.

Sendo assim, alguém acha que o Dr. Honda dava muita atenção às pesquisas de mercado ou às tais clínicas, onde se expõe protótipos e se pede opiniões a pessoas cujo perfil seria o de possíveis clientes? Não. Ele sabia fazer motos legais e não ia deixar que a opinião, muitas vezes leviana, avoada, de neófitos, prevalecesse. Quem sabe o que faz não gosta nada de opinião. Pois até o mestre de cerimônias do Vaticano se lascou quando foi dar opinião ao Michelangelo quando este pintava a Capela Sistina? “Tem muita mulher pelada aí”, o enxerido saiu falando. Em represália Michelangelo o pintou enrolado por uma serpente, e o cara está lá enrolado até hoje. Experimente alguém opinar a um mestre enxadrista durante o jogo, experimente alguém ensinar a rainha da bateria a sambar.

Castigo eterno para um enxerido  OS FABRICANTES NÃO DEVEM ESQUECER SUAS ORIGENS minos wiki

Castigo eterno para um enxerido

Por sinal, lembro que anos atrás foi feita uma dessas pesquisas tipo clínica, onde foi “montada” a mais bela mulher com a escolha da mais bela boca, os mais belos olhos, o mais belo cabelo, e por aí vai. Bom…, juntaram isso tudo e saiu uma mulher feia pacas. Sendo assim, que deixem a beleza da mulher por conta de Deus, que esse manja. Ele as faz e a gente admira.

Vejamos o que aconteceu com a Jaguar. Enquanto Sir Williams Lyons, o fundador, estava no comando, coisa que ele fazia sem consultar muita gente, a Jaguar era só sucesso. Carros belíssimos, bons, velozes, e baratos em relação à concorrência. Logo depois da 2ª Guerra Mundial ela lançou o revolucionário XK 120. Em seguida venceu a 24 Horas de Le Mans por cinco vezes num período de sete anos. Logo depois, início dos anos 1960, veio o E-type, um dos melhores e mais belos esportivos de todos os tempos, e vieram também elegantes sedãs como o Mark II. A fábrica foi arrasada por um incêndio e mesmo assim se reergueu.

Mas em 1972 Lyons desligou-se definitivamente da empresa e daí para frente nada de novo e bom surgiu, e consequentemente as vendas caíram. A Jaguar, para não fechar, acabou sendo estatizada. Daí, em 1990 a Ford a comprou. Melhorou a qualidade mecânica, a confiabilidade. Melhoraram um pouco as linhas apelando para o estilo retrô que recordava a tradição do passado, mas não passou disso, pois de algum modo aqueles modelos carecem da felinidade que trouxe o sucesso para a marca.

Daí um sujeito admirável, o Sr. Ratan Tata, um indiano genial, bilionário, dono de siderúrgicas e da Tata Motors, comprou a Jaguar e Land Rover numa só tacada, e ele, como é genial, conseguiu recuperar a alma da Jaguar (e da Land Rover). Uma das coisas que fez foi comprar uma coleção inteira de 500 carros ingleses de um milionário britânico, sendo que 200 deles eram Jaguar. Parte deles mandou colocar “a punto”, como dizem os hermanos argentinos, ou seja, colocá-los em perfeita ordem mecânica, e os anda espalhando mundo afora para competir nos mais bacanas ralis de clássicos.

E-type Lightwieght (foto: favcars.com)  OS FABRICANTES NÃO DEVEM ESQUECER SUAS ORIGENS favcars

E-type Lightweight (foto: favcars.com)

A Jaguar também tem fabricado pequenas séries de seus clássicos, como o E-type Lightweight e XKSS exatamente iguais aos da época, coisa que a Aston Martin agora tratou de imitar. Acredito que se Sir Lyons estivesse vivo na certa aprovaria o que está sendo feito; assinaria em baixo. O Sr. Tata vem acertando. Conseguiu reacender a chama e o sucesso veio. Um Jaguar, hoje, voltou a ser um Jaguar, um carro que desperta enlouquecedoras paixões.

E as paixões não proveem de números. Não me venham com os “zero-a-cem”, com as “forças G” e com as velocidades máximas; estas que, por sinal, nunca ninguém as alcança, seja por paúra ou falta de espaço. Os números são só uma das facetas do conjunto e eles são fáceis de obter. Há muitas outras, muitas, e algumas delas sutis. E muitas vezes certas sutilezas particulares são o que mais nos desperta a atração irresistível por algo ou alguém. O cheirinho de um Fusca novo, por exemplo. Os Fuscas quando novos vinham com um cheirinho particular — quem os cheirou, há de lembrá-lo, já que o olfato é o sentido que mais fundo cala em nossa memória — que durava vários meses, e esse cheirinho era tão bom que aposto que muita gente comprou Fusca para sentir aquele cheiro.

Delas todas, talvez a faceta mais importante seja o “espírito” do carro, ou da moto. Defeitos pode ter. Quantos defeitos tinha o primeiro Porsche 911? Vários, mas vários mesmo, e mesmo assim de pronto multidões se derramaram a seus pés loucas de paixão. E assim se passou na certa com todos os automóveis que viraram ícones. E quantos defeitos têm, ou tiveram, as Harley-Davidson? E nem por isso ela deixou e deixa de ser tatuada na pele de milhares fanáticos. Defeitos a gente perdoa, desde que as qualidades despertem uma paixão forte o bastante para nos cegar.

O charme é algo tão importante que só o dom divino o concede (www.culturapoprigor.com.br)  OS FABRICANTES NÃO DEVEM ESQUECER SUAS ORIGENS www

O charme é algo tão importante que só o dom divino o concede (www.culturapoprigor.com.br)

Uma mulher bacana de verdade — que além de bonita é inteligente — não perde muito tempo tentando esconder seus pequenos “defeitos de fabricação”. Ela investe nas suas qualidades, pois bem sabe que é com elas que vai fisgar definitivamente quem deseja. Coincidentemente, o mesmo se passa com as motos e os carros. Alguns chefões acham que basta eliminar defeitos e atender às demandas práticas do consumidor para que um carro ou uma moto se torne atraente. Esses são simplistas, simplórios. A coisa não é bem assim, é mais complexa. Paixão não se explica. Ela é tão complexa que, ao final, só cabe senti-la. Portanto, não adianta; quem não tem paixão pelo que faz, nunca fará algo que desperte paixão, já que a máquina apaixonante é como uma obra de arte onde o criador expressa o que sente por ela. Sem alma, a máquina é só um bom ou ruim utensílio.

As empresas, em geral, têm que ter muito cuidado para substituir seu fundador. Há grande probabilidade de o sujeito não consegui-lo.

Nota: os exemplos de fabricantes que dei foram só exemplos. Isso não exime os outros de críticas e/ou elogios, ambos construtivos.

AK

Sobre o Autor

Arnaldo Keller
Editor de Testes

Arnaldo Keller: por anos colaborador da Quatro Rodas Clássicos e Car and Driver Brasil, sempre testando clássicos esportivos, sua cultura automobilística, tanto teórica quanto prática, é difícil de ser igualada. Seu interesse pela boa literatura o embasou a ter uma boa escrita, e com ela descreve as sensações de dirigir ou pilotar de maneira envolvente e emocionante, o que faz o leitor sentir-se dirigindo o carro avaliado. Também é o autor do livro “Um Corvette na noite e outros contos potentes” (Editora Alaúde).

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  • Acyr Junior

    Excelente texto, AK. Partilho da mesmíssima opinião.

  • Alexandre Zamariolli

    Calma, Arnaldo. Esta maravilha aqui embaixo, a CB 1100 EX, demonstra que a voz de Soichiro-san ainda se faz ouvir…

    • E ainda branca! Bela moto! Deveriam importá-la. Ia vender a um monte de fãs das antigas, caras como eu.

  • Mr. Car

    Origens, talvez características…é interessante andar em um carro e notar características que revelem ser da marca “tal”. E ganhei mais uma frase muito boa para minha coleção, he, he!: “O charme é algo tão importante que só o dom divino o concede”. Esta filosofada sobre o charme eu não conhecia. E já que se falou em charme, e ainda estamos em clima de Natal, fuçando no “Youtube” dei de cara com isto: a taxa de concentração de charme desta menininha beira o absurdo, he, he, he!
    Abraço.

    • Mr. Car, sensacional a menininha, que graça! Essa vai longe.

  • Claudio Abreu

    Na mosca, Arnaldo! Brilhante.
    Hoje em dia parece termos nos rendido à paixão pela opinião do vizinho, pelo bolso, pela preguiça… Smartphones rolantes? Cápsula de deslocamento aclimatado?
    Que pelo menos haja sempre espaço para paixão pelas velhas máquinas motorizadas.

  • Matheus Ulisses P.

    Texto profundo e mais que perfeito, Arnaldo!
    Quanto aos novos Jaguar que você citou, além da dinâmica afinada e beleza das linhas, eles tem no ronco uma arma de sedução poderosa! Para mim o ronco gostoso é um fator fundamental, pena que tem sido negligenciado com o advento dos downsizing!

    • Matheus, o V-6 da Jaguar é o que melhor ronca. É mais afinado que o V-8 deles e parece que combina melhor com o carro.

      • Matheus Ulisses P.

        Eu e a grande maioria das pessoas com quem converso achamos o mesmo!

  • Carlos Eduardo

    Soichiro gostava de veículos sonoros mesmo.

    Que ronco!

    • agent008

      Que motorzinho ardido. Delícia total! Nem importa o quanto anda…

  • LuizMelloSampayo

    Texto bem postado, prende nossa atenção. Anos atrás, em evento Honda, tive a honra de conhecer pessoalmente o senhor Soichiro. Concordo plenamente ser ele portador de todas qualidades que o amigo brilhantemente citou. Permita acrescentar: além da educação e simplicidade, ficou em minha memoria a certeza de sua capacidade de ouvir, mesmo simples mortais, aí por sorte me incluo. Por isso, “Quem sabe oq faz não gosta nada de opiniões”, não creio que tenha sido o caso desse genial engenheiro. A exemplo: foi o maior incentivador do Concurso de Ideias Honda iniciado em 1970.

    • Sampayo, o Sr. Sohichiro era muito educado, sem dúvida, conforme é a tradição japonesa. Eu falei sobre opiniões tolas, não de abalizadas.

  • Rhuam, o ronco desse Marea era mesmo um show. Pedia para ser acelerado.

  • Reparei melhor no quadro do Michelangelo e vi que a coisa estava ainda mais feia pro mestre de cerimônias. Olhe só onde está a cabeça da cobra. Que situação delicada!

  • Christian Bergamo

    Tirou as palavras da minha boca. Eu fui lendo essa parte que fala das paixões da matéria, e só conseguia pensar na paixão que me despertou a primeira vez que andei na Marea Weekend turbo do meu primo, e no prazer que eu sinto cada vez que levo minha Marea 5 cilindros até deliciosas 6.500 rotações por minuto, só para escutar aquele urro embaralhado ávido por giro gritando por aí. Nunca esqueço o dia que dobrei uma esquina e vi num bar todos virando a cabeça olhando para o meu carro e tive que dar aquela estilingada porque certamente era o que todos queriam ouvir. Detalhe, escape original.
    Mas é justamente a paixão por automóveis que diferencia um autoentusiasta de alguém em busca de status. Já bati nessa tecla em outros comentários meus aqui no AE. O prazer que sinto acelerando minha Marea é o mesmo prazer que sinto andando no meu Versailles, que é o mesmo prazer que sinto andando no meu Galaxie, ou no Monza que meu avô tirou zero-km. Acho que é disso que a matéria trata. Quando um carro é feito com paixão, ele vende. Pode ter os defeitos que for, quem gosta de automóvel, saberá apreciar suas qualidades.

    • Rhuam Peixoto

      Exatamente isso! Autientsiasmo vai muito além de status… Quando digo q gosto de carros baixos (hatchs principalmente), em detrimento de SUVs, muitas pessoas olham pra mim com estranheza. Mas por mais q um SUV ou minivan sejam acertados de suspensão, jamais terão o prazer de contornar uma curva estando próximo ao chão. Paixão não se discute, pois não se relaciona com razão.

  • Marco de Yparraguirre

    Você está se superando, caro Arnaldo.

  • Exatamente, Rafael! Pode até fazer outros diferentes, mas têm que ter o que os trouxe até aqui.

  • Renan

    Ótimo texto, fazer o que se ama, deve gerar uma satisfação imensa, caso ao qual eu não me enquadro ainda.
    Agora voltando ao foco das montadoras, o destino é trazer carros seguros, com desenhos iguais, e velozes, e só.
    Acredito eu que antigamente você comprava um carro pelas sensações que ele lhe passava e que depois vinha o status (claro que, isso é um pensamento meu), mas, quem conhece de carro, prefere mil vezes um Alfa do que um ONIX; já hoje prefere mais o status que o carro passa do que suas sensações, a unica sensação que ele tem que passar é de ser seguro, e de economia no bolso.

  • Cláudio P

    Arnaldo, parabéns por esta verdadeira homenagem a beleza que carros e motos podem ter, muito tiveram, mas se tornou uma qualidade rara hoje em dia. Curiosamente, até um pouco desapontado, tenho ouvido e lido opiniões sobre isso não ser importante. Que o que importa mesmo é a boa dinâmica e outras competências que se esperam de um carro, ou uma moto. E de fato são, mas por que não ser bonito também? Só porque não é possível admirar o design de um carro, por exemplo, enquanto o dirige? Uma estranha separação de conceitos. Dizem também que beleza é subjetiva, será mesmo? Design certamente não é. E o design mais belo não é encontrado apenas no mais inovador e criativo objeto, mas também no mais sóbrio e previsível, desde que o objetivo final do design seja ser bonito. O que até algum tempo atrás independia de preço e categoria. Quantos belos carros populares já tivemos, hein? Aprecio sim todas as qualidades que um carro pode nos entregar em movimento. Adoro explorá-las e faço questão que sejam as melhores possíveis, mas carro feio é, em minha opinião, imperdoável. Isso vale para motos também, claro, é que eu não curto andar em duas rodas, mas me coloco no lugar de quem gosta.