Se o futebol é uma caixinha de surpresas, a ciência não é uma caixinha menor. Grandes descobertas da ciência foram feitas por acaso e transformaram o mundo em que vivermos.
Pois ela acaba de nos brindar com mais uma destas surpresas.

A sorte sorri aos obstinados

Pesquisadores do Laboratório Nacional de Oak Ridge, nos Estados Unidos, estavam pesquisando o uso de materiais nanoestruturados em reações eletroquímicas, quando o inesperado aconteceu. Eles obtiveram etanol (álcool etílico) a partir de gás carbônico dissolvido em água usando uma pequena descarga elétrica em um eletrodo recoberto de nanopartículas, e logo de início com o rendimento de 68% sobre todo material gerado.

O objetivo da pesquisa realmente era tentar achar formas de criar combustível a partir do gás carbônico presente no ar por um processo simples de eletrólise usando um eletrodo revestido com nanopartículas, mas o que os pesquisadores não esperavam era obter um sucesso tão grande logo na primeira tentativa.

Num experimento convencional é possível fazer uma eletrólise de água com gás carbônico dissolvido, pois o gás se recombina com a água, formando um meio ácido, propício à passagem de corrente elétrica. O resultado, entretanto, é desanimador. As substâncias formadas são numerosas e geradas aleatoriamente, e nada de útil é realmente criado.

Para este experimento, os pesquisadores revestiram um eletrodo de silício recoberto com nanopartículas de cobre, carbono e nitrogênio, materiais bastante comuns até, e como resultado, em vez de uma concentração aleatória de diversas substâncias, foi obtido etanol numa concentração de 68% em relação às substâncias geradas no processo, partindo apenas de água e gás carbônico e uma pequena corrente elétrica.

O resultado surpreendeu, uma vez que a reação ocorreu em temperatura ambiente e usando materiais e técnicas comuns. Em outras aplicações baseadas em nanotecnologia, catalisadores como este normalmente exigem temperaturas ou muito altas ou muito baixas,  e materiais exóticos e caros, como platina, paládio, ródio ou nióbio.

Ao estudarem as conformações da estrutura formada com as nanopartículas em microscópio de tunelamento de elétrons, os pesquisadores descobriram que enquanto o cobre forma esferas, o carbono cria estruturas pontiagudas. A hipótese lançada pelos pesquisadores é que a estrutura pontiaguda de carbono acumule uma quantidade enorme de cargas elétricas, assim como ocorre com o para-raios, enquanto as esferas de cobre criem um campo elétrico mais esparso. A combinação de ambos no tamanho adequado pode criar uma armadilha molecular que remonte os átomos da água e do gás carbônico de forma ordenada, preferencialmente na forma de etanol.

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Além de poder operar em temperatura ambiente e usar materiais comuns, o eletrodo revestido funciona como um catalisador, pois não sofre desgaste com o processo. O fato de a conversão usar água e gás carbônico que pode ser obtido da atmosfera, somado aos detalhes anteriores possibilita que futuros reatores de conversão sejam abundantes e baratos de operar, e podendo ser escalados para qualquer tamanho.

As pesquisas ainda estão em seu princípio, faltando estudos mais aprofundados, tanto para explicar o processo de formação do etanol, bem como estudos práticos sobre rendimento energético e de conversão do processo.

Gerando combustível do ar

Vamos pensar em um caso bastante comum. Um grande edifício moderno é coberto por uma “pele” de vidro para oferecer um visual arquitetônico bastante atraente. Partes de concreto também ficam expostas, dependendo do projeto. Esta arquitetura é, por excelência, uma grande estufa, captando energia solar para virar calor tanto interna como externamente. Então ocorre o pouco lógico: para nos livrarmos do excesso de energia solar na forma de calor dentro do prédio, gastamos mais energia na operação de uma grande central de ar-condicionado a fim de manter o conforto térmico dentro do prédio. Pensado de forma racional, é um despropósito.

Já há algum tempo foram desenvolvidas películas plásticas transparentes que podem ser aplicadas aos vidros das fachadas dos prédios que podem funcionar como placas eletrovoltaicas, captando energia do sol. Por pior que seja seu rendimento, estas películas transformam 20% da energia solar incidente em eletricidade, gerando cerca de 200 W para cada metro quadrado de célula geradora. De cada cinco partes da energia incidente que antes virava calor, pelo menos uma deixa de aquecer o prédio e exigir mais energia no sistema de ar-condicionado, e fica disponível para alguma tarefa útil, inclusive para ser aplicado no ar-condicionado do prédio.

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Edifícios oferecem grandes áreas de captação de energia solar

A economia desse processo é múltiplo:
– Parte da energia solar incidente deixa de ser absorvida de forma indesejável;
– Parte da energia investida no ar-condicionado para combater a energia solar indesejável se torna desnecessária;
– A parte da energia solar que antes era indesejável agora é energia útil que pode ser aproveitada;
– Esta energia extra é gerada sem a concorrência de qualquer combustível, não havendo este custo;

Entretanto, essa energia não é acumulada no processo. É necessário algum outro processo para acumular esta energia, o que poderia ser feito através deste reator de produção de etanol, e com custo operacional praticamente zero.

Os próprios inventores deram outra ideia. Hoje a geração de energia de base eólica se espalha pelo mundo, mas ela tem o inconveniente de gerar energia de forma inconstante e nem sempre coordenada com o consumo. Este é, aliás, um problema bastante comum às fontes de energia renováveis.

O uso desses reatores de etanol em larga escala poderia acumular com eficiência essa energia excedente que poderia ser usada nos momentos em que a demanda ultrapassa a geração, ou mesmo utilizada em outras aplicações, como combustível de automóveis, por exemplo.

 

Um concorrente para o etanol de cana de açúcar

Nós, brasileiros, temos a maior experiência do mundo em biocombustíveis, com a oferta de etanol combustível para automóveis e utilitários. Entretanto, algumas questões se impõem.

A primeira grande questão é a da eficiência com que as plantas convertem a energia da luz solar em açúcares. Ela é muito baixa, abaixo de 10%. Estamos falando de seres vivos, e a natureza prima por organismos eficientes apenas o suficiente.

Uma conta muito simples nos leva à grandes áreas de plantio para obtenção de uma certa quantidade de etanol.

A plantação da cana-de-açúcar exige o uso de tratores. Energia é usada na irrigação e fertilização da plantação. Outros tratores e caminhões são usados na colheita. Depois da colheita vem a moagem a fermentação e a destilação, quando então todo um complexo industrial é acionado para transformar o caldo da cana, terminado pela destilação do etanol. Também não podemos esquecer que os micro-organismos usados no processo de fermentação consomem uma certa quantidade de energia dos açúcares para produzir o etanol.

O processo todo é finalizado com o transporte do etanol da usina até o ponto de consumo.
Resumindo, investimos muita energia para obtermos essa energia do etanol. E esta conta sai cara.

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O complexo processo de produção do etanol de cana

Vamos voltar ao exemplo do edifício. Nossa película fotovoltaica tem eficiência muito mais elevada que a da cana na conversão da energia solar. Além disso, a energia solar do prédio é uma energia que, se não aproveitada, se torna indesejável. A geração do etanol ocorre local e diretamente, sem necessidade de transporte ou de complexos processos intermediários de produção. A matéria-prima é barata (na verdade, de graça) e fartamente disponível no local, não há consumo do eletrodo do reator e um processo simples permite obter etanol de alta pureza. O custo é praticamente de aquisição e manutenção do equipamento, mas o custo operacional é zero.

Estamos falando, portanto, de um etanol muito barato de ser produzido perto do etanol da cana.

Em um mercado de competição, a nova opção pode liberar solo hoje utilizado para a produção de etanol combustível para uso de produção de alimentos, uma aplicação muito mais nobre do solo plantado.

Enquanto a produção do etanol como biocombustível é altamente questionável por ocupar vastas áreas importantes no lugar de cultivo de alimentos, o uso do reator tira proveito de energias que de outra forma seriam desperdiçadas e provavelmente de forma danosa.

Fala-se muito do uso de biocombustíveis, mas uma simples conta mostra que a produção nacional de etanol dá conta essencialmente do consumo interno deste combustível. Fazer do Brasil o equivalente a uma Arábia Saudita de biocombustíveis para o mundo seria inviável, a menos que a procura fosse muito baixa.

E o Brasil tem esse potencial graças ao seu clima e ao tipo de terreno propício à sua produção. Outros países não têm a mesma possibilidade.

Com o conversor, mesmo em países de elevada latitude, como o Canadá e a Noruega, poderiam produzir seu próprio etanol combustível localmente. Este é um grande incentivo ao desenvolvimento deste tipo de tecnologia.

 

Um concorrente inesperado para a pilha a hidrogênio

Hidrogênio e oxigênio podem ser combinados para formar uma chama. Esta chama, chamada de oxídrica, é apenas poucos graus Celsius mais fria que a chama de acetileno (que muitos funileiros/lanterneiros/chapeiros usam). É uma chama que não apaga nem mesmo sob a água, e é largamente empregada para reparação de submarinos e partes submersas de navios por mergulhadores.

Não poderia ser diferente: podemos queimar o hidrogênio em motores de combustão, embora seja um combustível deficiente perto da gasolina.

Maçarico de chama oxídrica

Maçarico de chama oxídrica

A pilha a combustível — desculpe-me o leitor por eu usar um termo que ninguém se atreve a usar, mas o fato é que “cell” em inglês, nesse contexto, é pilha mesmo —  é um dispositivo surpreendente para a maioria, mas não para os químicos moleculares. Ela foi criada há mais de um século, mas foi aperfeiçoada para ser a fonte elétrica primária para as missões Apollo para a Lua, aproveitando o fato do combustível dos foguetes ser hidrogênio e oxigênio líquidos.
Ela é surpreendente porque é um meio termo entre os extremos de queimar hidrogênio com oxigênio numa tocha e a eletrólise da água.

Ela tira proveito do hidrogênio ser o átomo mais elementar. Quando removemos o elétron, o átomo de hidrogênio se resume a um núcleo com um próton na média. Um fluxo de núcleos de hidrogênio gera um tipo de corrente elétrica, e este fluxo torna-se possível graças à seletividade de uma membrana que só os deixa passar para que se combinem com o oxigênio e novos elétrons, formando água.

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Diagrama de funcionamento da pilha a combustível hidrogênio

Entretanto, os químicos moleculares pensam nesse processo de forma mais genérica. Toda reação química é uma reação eletroquímica. Há sempre eletricidade envolvida numa reação química. Quando queimamos alguma coisa, o combustível se combina com o oxigênio com movimentação de elétrons, mas como a energia liberada precisa ser descarregada, as moléculas formadas com a queima emitem energia na forma de calor.

Em tese, se em vez de gerarmos a queima de um combustível genérico pudéssemos fazer como na pilha a hidrogênio, com a separação dos elétrons de um lado e criarmos um fluxo de moléculas positivamente ionizadas de combustível do outro para uma recombinação com o oxigênio, teríamos uma célula para este tipo de combustível.

O resultado seria a transformação de um processo de reação química exotérmica num outro de geração de energia elétrica.

Há uma vantagem nessa abordagem. Ao tentarmos usar o calor como fonte de energia, estaremos limitados ao Ciclo de Carnot, que é imperdoável e gera baixo rendimento, mas se a mesma energia for convertida na forma elétrica, o rendimento é sempre elevado, na ordem de 90%.

Assim, um carro com pilha a combustível é muito mais potente e econômico que outro com motor a combustão, com ambos usando a mesma quantidade de combustível. É por isso que quando se fala em usar hidrogênio como combustível de automóveis, sempre se mencionam as pilhas a combustível e nunca motores a combustão.

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BMW Hydrogen 7: hidrogênio combustível para motor a combustão

Embora essa ideia tenha fundamento, realizá-la tem se mostrado muito difícil. Pilhas a combustível para diversos tipos de combustível são difíceis de construir. A pilha a combustível hidrogênio é praticamente a única utilizável dada a extrema simplicidade do hidrogênio. Ainda assim ela é um dispositivo complexo, exigindo materiais exóticos, o que a deixa muito cara.

Já o reator de etanol descoberto pelos americanos nos acena com uma promessa inesperada.
O reator produzido em Oak Ridge aparentemente produz preferencialmente etanol por configurar uma armadilha para átomos ionizados pela eletrólise, e esta armadilha é seletiva de maneira a formar etanol. Ocorre que, se esta teoria for correta, o processo eletroquímico de montagem do etanol é reversível, e portanto é possível produzir uma pilha a combustível que funciona com etanol, gerando eletricidade e emitindo água e gás carbônico de volta para a atmosfera, e de uma forma muito mais simples que a pilha a hidrogênio.

Enquanto a pilha a  hidrogênio é cercada de problemas técnicos e polêmicas (até hoje não resolveram a troca dos materiais exóticos por outros mais comuns e baratos, sem falar nos problemas de produção, estocagem e transporte do hidrogênio), o reator de etanol opera com baixa energia, em temperatura ambiente e usa elementos químicos comuns e tem baixo custo de produção. Se uma pilha for produzida com a mesma tecnologia básica do reator de Oak Ridge, enterra-se de vez a pilha a hidrogênio, pois etanol é um combustível muito mais conveniente que o hidrogênio para qualquer aplicação. Conveniente por ser líquido.

 

De tecnologia subversiva a um novo paradigma econômico

Muitos podem pensar que é uma ideia subversiva a geração de combustível (quase) de graça. Talvez não seja bem assim.

A internet vem mudando a forma de pensar de economistas e empresários, e isso pode criar um novo paradigma econômico, o da economia pela abundância.

Hoje não há mais dúvidas que países que investiram mais em oferecer uma internet mais acessível, barata, de alta velocidade e sem restrições são os que colhem os melhores frutos, caso da Coreia do Sul. A internet promove com sua gratuidade de recursos abundantes o crescimento econômico do país.

A ideia já contaminou o ambiente da oferta de energia na Europa. Agora, muitos europeus instalam painéis solares de geração de energia em suas casas, alcançando a independência energética. Os equipamentos podem ser caros, mas além de isenção fiscal há subsídios do governo e, se não bastasse a loucura, as companhias de energia ainda compram o excedente de energia que o morador gerar.

Essa ideia não combina com a nossa imagem de que energia temos que comprar de um fornecedor. Obter energia de graça e ainda ganhar dinheiro com o excedente parece loucura, ou pior — pirataria.

Mas o fato é que todos estão felizes com os resultados, porque na verdade todos estão ganhando:

  • Quando o cidadão instala um painel solar em sua casa, ele deixa de consumir da rede. É uma perda de receita para a operadora de energia elétrica num primeiro instante. Porém a energia que ele deixa de consumir se transforma em uma folga no sistema elétrico que permite que o consumo das fábricas cresça sem que a operadora tenha que investir em novas usinas e ampliação das redes de distribuição.
  • Como o cidadão agora tem independência energética, ele deixa de gerar um pico de consumo na rede ao tomar banho ou cozinhar, e a redução do pico é um alívio nos investimentos da operadora.
  • Quando este cidadão gera mais do que consome, a operadora lucra porque atua como uma distribuidora: paga barato para o cidadão e revende mais caro para a indústria, sendo que ela própria não investiu um centavo na construção de uma usina para oferecer essa energia extra. O pagamento pela energia da energia para o cidadão é usado para amortizar o investimento nos equipamentos de geração.
  • É antigo o conhecimento que o modelo centralizado de geração de energia elétrica com poucos pontos de elevada potência são um ponto frágil dos sistemas elétricos e que a geração por pequenos geradores distribuídos ao longo da malha elétrica tornam o sistema mais robusto, evitando os chamados “apagões”. Isso é do interesse de consumidores e operadores do sistema elétrico.
  • Por fim, se sobra mais energia para a indústria, e sobra mais dinheiro no bolso do cidadão, o resultado é maior atividade econômica, o que é bom para o país e para a arrecadação de impostos.

Não estamos acostumados com isso, já que energia sempre foi negócio de grandes corporações e ter energia de graça parece que estamos roubando, pirateando de alguém. Mas isso não é verdade, porque todos saem ganhando no final das contas.

O mundo está passando silenciosamente por uma lenta e profunda transformação na sua matriz energética. Energia abundante e barata sempre será um incentivo ao desenvolvimento de qualquer país e a entrada de novas fontes no mercado que podem ser obtidas localmente a custo muito baixo pode revolucionar toda a nossa sociedade.

Há 20 anos, na Europa, as energias renováveis representavam menos de 1% da energia total gerada. Hoje elas respondem por mais de 15% do total e continuam em forte crescimento. Na China, instala-se um gerador eólico de grande porte a cada 2 minutos para substituir as poluentes usinas a carvão. Nos EUA e na China há também forte crescimento das usinas de energia solar. Tem havido forte incentivo corporativo e governamental nestes países no sentido da pequena cogeração, com a instalação de painéis solares e geradores eólicos em residências, edifícios e empresas. E todos num caminho de diminuir o consumo de combustíveis fósseis.

Transportes respondem sozinhos por metade do consumo global de energia, e se tem feito muitos esforços no sentido de que o setor não fique de fora desta transformação.

Um sistema como um catalisador que converta diretamente energia solar em combustível líquido como o etanol com baixo custo de produção estaria em perfeita sintonia com esta filosofia, e é bem provável que agora que o potencial para tecnologia foi demonstrado, é previsível que maiores investimentos na área sejam feitos.

 

Um milagre chamado materiais nanoestruturados

O trabalho em Oak Rdige coloca em evidência uma ciência e uma tecnologia revolucionárias: a nanotecnologia. Junto com a informática (esta bem madura), a biotecnologia (incluindo a engenharia genética), a nanotecnologia forma um tripé sobre o qual acredita-se que o futuro tecnológico estará se estruturando. Dentro do que sabemos, os limites entre homem e máquina poderá lentamente desaparecer com o avanço destas tecnologias.

Pense num fio de aço tão fino quanto um fio de teia de aranha capaz de levantar uma picape de 2 toneladas. Isso não é ilusão, existe de verdade. Um fio muito fino de ferro nanoestruturado tem essa capacidade.

A área de materiais nanoestruturados é apenas uma parte da nanotecnologia. Nela manipulamos os materiais átomo por átomo, obtendo um material diferenciado, construído com recursos de engenharia.

No caso do ferro, ele naturalmente se forma criando minúsculos cristais metálicos que se colam e criam um material com uma certa resistência. A orientação de cada cristal é aleatória, limitando a capacidade do ferro em absorver esforços. Entretanto, quando obtemos um fio de ferro nanoestruturado, a estrutura é única e altamente regular, conferindo uma resistência mecânica várias vezes maior que a possível de obter com o ferro convencional, mesmo com a adição de outros materiais de liga.

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Estrutura cristalina do aço vista ao microscópio

Materiais nanoestruturados são sempre surpreendentes, mas nem sempre de forma favorável.
Eles conseguem exibir propriedades que nenhum material convencional oferece, mesmo usando a mesma substância de base.

Ferro nanoestruturado é altamente resistente, mas também é um dos materiais mais tóxicos conhecidos, sendo altamente tóxico por simples contato. As propriedades químicas do ferro são tão alteradas quando ele é organizado em nível atômico, que de material essencial à vida, se torna um dos mais letais a ela na forma nanoestruturada. Isso exige responsabilidade no uso desses materiais.

Vejam esse vídeo:

É empolgante. Mas certamente você não gostaria que esse material se acumulasse na sua corrente sanguínea e atingisse seus sistemas digestivo, respiratório e urinário que funcionam pela permeabilidade de membranas. É útil, mas também é letal, e o descarte deste material exige alta responsabilidade para evitar um tipo novo e nocivo de poluição.

Nanopartículas como estas que causam fluidofobia em materiais são a parte mais evoluída da nanotecnologia porque foram descobertas reações químicas controladas que geram estes materiais em grande quantidade, mas não são as únicas comercialmente utilizáveis. Existem vários tipos de nanopartículas com diferentes propriedades não convencionais. Há alguns tipos de tintas e plásticos com a propriedade de autorregeneração, permitindo que eliminem sozinhos pequenos riscos, mantendo a superfície sempre polida.

Outra questão é que os processos que lidam com materiais nanoestruturados ainda estão na infância do processo tecnológico. Ainda são difíceis de se obter, são caros, e grande maioria das propriedades surpreendentes desses materiais são descobertas por puro acaso, como ocorreu em Oak Ridge. Isto ocorre porque ainda não existe uma engenharia estruturada que permita projetar esses materiais. Algumas coisas são previsíveis, outras ainda não.
Por isso, materiais nanoestruturados já se fazem presentes em algumas das nossas aplicações diárias, ainda de forma tímida e limitada, mas a evolução é inequívoca.

 

A nanomecânica e a nanorobótica

Mas a nanotecnologia não é feita só de materiais nanoestruturados. A junção de vários ramos da tecnologia, como a química, a robótica, as tecnologias de fabricação de chips, entre outras tecnologias, vem propiciando a criação de nanomecanismos, nanomáquinas e nanorobôs. O limite destes dispositivos é o próprio átomo.

 

Nanomáquinas e nanorobôs, ou mais especificamente, nanoagentes, circulam pelo imaginário da ficção científica há décadas. A partir de um livro de Isaac Asimov (“Fantastic Voyage”) foi lançado com enorme sucesso no ano de 1966 o filme homônimo (aqui conhecido como “Viagem Fantástica”, com Rachel Welch), onde um grupo de médicos e cientistas é embarcado em um minissubmarino, passam por um processo de miniaturização até atingirem o tamanho de uma célula e são injetados na corrente sanguínea de outro cientista para operar um coágulo no cérebro numa intervenção cirúrgica por dentro do organismo.

Novamente a ficção científica vem se mostrando profética. Ainda não é possível miniaturizar um  minissubmarino (embora teoricamente factível), mas é possível construir nanomecanismos até mesmo com a complexidade de um robô, e deixar que milhões dessas máquinas circulem na corrente sanguínea, combatendo doenças antes que elas se manifestem macroscopicamente.

Hoje há um ramo da medicina focado no estudo da aplicação de nanomáquinas na saúde humana em diferentes escalas, desde algumas de tamanho de células, a outras ainda menores, de tamanho molecular, capazes de penetrar em uma célula e operar diretamente um código genético defeituoso.

Da mesma forma com que as nanomáquinas e nanorobôs podem cuidar da saúde do ser humano, elas podem ser adaptadas para a manutenção de máquinas macroscópicas. Já foi especulado que nanorobôs em suspensão no óleo que usamos no motor do carro seriam capazes de capturar partículas metálicas em suspensão, oriundas do desgaste natural do motor, e soldá-las de volta em seus pontos de desgaste, tornando o motor praticamente imune ao desgaste. Nanorobôs poderiam igualmente cuidar de outros componentes, como não permitir o ressecamento das borrachas de mangueiras e vedadores, repor o desgaste natural dos bancos do veículo, mantê-lo limpo, evitando que a sujeira consiga aderir às superfícies… As possibilidades são infinitas.

 

A promessa de Oak Ridge

O experimento de Oak Ridge é apenas um exemplo até simples do que a nanotecnologia promete. Mais do que isso, é uma tecnologia que promete uma revolução técnica tão fantástica dentro daquilo que já conhecemos, que pode tornar muito do que hoje é cotidiano em coisas do passado.

Computadores 1000 vezes mais rápidos, componentes mecânicos centenas de vezes mais resistentes e à prova de desgaste, lâminas com afiação permanente, baterias ultraleves e ultrapotentes, bobinas supercondutoras à temperatura ambiente para uso em veículos de levitação magnética…

Já há muitas destas maravilhas sendo testadas em laboratórios enquanto outras são promessas. Há ainda uma barreira tecnológica a ser vencida para que estas maravilhas cheguem até nós em larga escala, mas o fato de elas existirem mostra que esse futuro é possível.

O experimento de Oak Ridge buscava exatamente o que conseguiu: uma forma de sintetizar combustível a partir de coisas simples fartamente acessíveis. O inesperado foi terem conseguido isso na primeira tentativa. Essa facilidade pode indicar que esse caminho aberto pela nanotecnologia seja muito mais fácil do que se imaginava, e muitas outras conquistas possam ser alcançadas num futuro próximo, talvez até mesmo a aplicação comercial do invento.

Sobre o experimento ser voltado justamente para a síntese de combustível é uma mostra de uma transformação silenciosa mas em franca implantação, que é a troca da matriz energética em muitos países. Há forte incentivo para a troca de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia. O carvão deverá ser o primeiro combustível fóssil a ser substituído, e o petróleo mais lentamente a seguir. Dentro desse cenário, é praticamente impossível que a matriz energética dos sistemas de transporte não seja atingida por essa transformação.
Este experimento tende a ser apenas uma opção no meio de várias outras que veremos no futuro. Estejam preparados para elas.

Se o experimento de Oak Ridge surpreendeu, ele é só a ponta do iceberg de um ramo da ciência e da tecnologia que será confundido com a mágica, pois todos verão seus resultados, mas ninguém verá que  opera esta magia.
Que venham novas e surpreendentes descobertas e aplicações. Com elas nossa sociedade nunca será como antes.

AAD

 

Obs: Matéria feita por sugestão do leitor “BlueGopher” nos comentários da matéria Motores, emissões e a síndrome de Cassandra
Origem das imagens:

http://www.solidsmack.com/fabrication/nano-scale-3d-printing/
https://seminarlinks.blogspot.com.br/2014/03/micromachining-seminar-report.html- https://readingmedievalbooks.wordpress.com/2014/08/19/the-museum-of-mansplaining-art/
http://www.velovision.com/ftp-admin/VVArchive/www.velovisionmag.co.uk/showStory243e.html?storynum=299
http://www.digitaltrends.com/cars/2020-bmw-hydrogen-car-news-specs-rumors/

http://www.sugarproducer.com/2016/10/chemists-accidentally-turn-carbon-dioxide
http://sun-news.ru/nauka/1209-amerikanskie-uchenye-sluchayno-prevratili-uglekislyy-gaz-v-etanol.html
http://www.foresight.org/Nanomedicine/Gallery/FanVoy/
https://sites.google.com/a/sau.ac.th/lect-amonpong-sa-nguansin/

http://www.waterflame.co.th/demo/HO_200-th.html

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