Agora em dezembro o espírito de Natal se torna presente, as decorações natalinas começam a surgir e começam os preparativos para as Festas de fim de ano. Nosso causo une tudo isto com um enfoque surpreendente que liga um menino, o seu veículo pelo qual ele é apaixonado e Papai Noel… Boa leitura a todos!

 


 

UMA CARTA PARA PAPAI NOEL

Por Thyago Szoke

O passeio na Kombi do “seu” Francis havia me deixado ainda mais apaixonado por aquele veículo, de modo que eu precisava encontrar alguma forma de conseguir uma Kombi de forma mais presente na minha vida.

Agora, imagine que você é um garoto de sete para oito  anos, obviamente não trabalha e nem vive numa família rica: o que você faz? Decidi apelar ao bom velhinho.

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Eu com sete anos em foto foi tirada por meu avô paterno durante as férias de julho

Sei que lá para fins de setembro já comecei a preparar a carta para o Papai Noel. Afinal, eu tinha sido um bom garoto e, à parte algumas pequenas travessuras aqui e ali, normais de qualquer criança, não havia nada que me desabonasse a ganhar o presente — nem mesmo a falta da CNH, pois fiz questão de deixar bem claro no meu texto que a Kombi ficaria sob meus cuidados, mas seria dirigida apenas pelos meus pais ou pelo meu avô enquanto eu não completasse 18 anos.

Lembro até hoje do meu pedido: uma Kombi Standard movida a álcool (afinal, a crise do álcool já tinha passado e os carros de casa ainda eram movidos por este combustível), na cor branca e equipada com o pacote mais completo de equipamentos da época, vidros verdes com para-brisa degradê, desembaçador do vidro traseiro e janelas laterais corrediças. Linda, na minha humilde opinião de garoto e também de adulto (sempre tive bom gosto).

Entretanto, ainda não me sentia seguro de convencer o bom velhinho. Fiquei receoso, inclusive, de ele aposentar suas fiéis renas e trenó para passar a utilizar minha Kombi para sua árdua tarefa de visitar todas as casas do mundo na noite de Natal, carregando presentes. Capacidade de carga ela teria; espaço, também.

Achei melhor incluir a observação que ele poderia inclusive utilizá-la nessa noite, mas caso gostasse dela, compraria uma igual para si depois.

Dobrei a carta e coloquei-a num envelope, endereçado ao Papai Noel. Na hora que ia passar a cola, me detive e novamente pensei que talvez aquilo não fosse o suficiente. E se ele não soubesse o que era uma Kombi? Sem problema!

Apaixonado que era por carro desde pequeno, meus desenhos raramente eram de uma casinha, meu pai, minha mãe, meu cachorro, e uma árvore no quintal. Eram 99% de carro e por conta disso fui me aperfeiçoando com o passar do tempo. Dito isto, decidi desenhar uma Kombi e incluí-la na carta (Nota do colunista: é a foto de abertura).

O desenho carecia de alguns detalhes, e não era totalmente fidedigno à Kombi mas, convenhamos, foi feito de memória. O número de vidros estava correto, assim como a localização das portas e também a grelha de refrigeração na lateral (um pouco fora de proporção). Me dediquei até a destacar as maçanetas da tampa traseira e do capô do motor, numa vista lateral. O formato da tampa do tanque era similar ao de fato utilizado, exceto pelo fundo em baixo relevo (apenas a “estrela” sobressaiu), e o escrito “álcool” junto à tampa estava equivocado — deveria vir nela mesmo. Faltou apenas desenhar os orifícios das rodas de aço e acertar um pouco melhor as quinas, por demais arredondadas, mas para um garoto de oito para nove anos estava ótimo.

Dois erros (crassos) foram o recorte da porta dianteira, invertido, e o sistema de escapamento começando do meio do chassi, um arranjo que nunca existiu.

No desenho é possível ver, inclusive, os encostos das três fileiras de bancos.

Satisfeito com o desenho, dobrei-o e coloquei-o junto da carta e pedi aos meus pais que colocassem no correio.

Daí para a frente era só ansiedade! Os dias foram passando e a expectativa, aumentando. Não saía da minha cabeça a possibilidade de finalmente ter o objeto dos meus sonhos.

Como tradição familiar, passávamos todos o Natal na casa de veraneio, no litoral. Chegávamos alguns dias antes da festiva data e por lá ficávamos até pelo menos após o réveillon — na maior parte das vezes meu primo e eu (as crianças) conseguíamos ficar com nossos avós até o fim de janeiro, aproveitando as férias escolares.

Lembro que cheguei e, ansioso, comecei a planejar como faria para que o Papai Noel a estacionasse junto à árvore de Natal, que ficava na sala. Impossibilitado de montar a árvore na parte externa da casa (pois iria estragar com a chuva), tive a ideia de deixar nela um bilhete ao bom velhinho, pedindo que seguisse o caminho planejado — e lá fui eu, montando uma trilha de pequenos papéis de rascunho até uma vaga na garagem, onde não deixei ninguém estacionar. O último bilhete, além de marcar o local onde a Kombi deveria ficar estacionada (de frente para a rua, para facilitar a saída, lembro bem), também pedia com toda a educação do mundo um último favor: após estacioná-la, deixar as chaves debaixo da árvore de Natal.

Certamente aquilo tudo deve ter sido muito divertido para quem via a cena, mas em momento algum fui informado que, na verdade, o bom velhinho era apenas o espírito do Natal traduzido em presentes entre amigos e familiares. O plano seguiu.

Ceamos e fui para o quarto. Os adultos colocavam os presentes sob a árvore depois que as crianças iam para a cama, de forma que os encontrassem logo pela manhã no dia 25. Pois bem, nunca demorei tanto para dormir, e nunca tive o sono tão leve. Cada barulhinho na rua já me despertava, na expectativa de ouvir o famoso boxer a ar. Enfim, adormeci pesado.

Dia de Natal, 25 de dezembro. Levantei pela manhã com calma e tanto nervosismo, que até tremia. Saí do quarto devagar, em busca das chaves da Kombi. Lá, encontro um bilhete:

“Não pude te trazer uma Kombi, pois não cabia no trenó. Mas quando você for maior, poderá ter uma sem ter de esperar o Natal”.

A decepção tomou conta de mim e só passou quando, enfim, fiquei sabendo em segredo (por causa do meu primo mais novo) que o tal Papai Noel não existia.

Agora eu tinha duas decepções. Mas a vontade da Kombi não havia passado. E agora?

 


 

O Thyago, quando enviou este causo, comentou:

“Por minha família já passaram cinco Kombis, desde os anos 1950. Ambos meus avôs tiveram Kombis, sendo meu avô paterno o pioneiro no assunto: dirigiu uma Kombi do primeiro lote vendido no Brasil, ainda importado, quando trabalhava para uma confeitaria. Depois disso adquiriu para uso próprio outras duas Kombis, em momentos diferentes, que levaram a família — enorme, como era comum naquela época — para passeios em todo o Brasil. Com meu avô materno, não foi diferente: teve duas Kombis de primeira geração e uma Clipper, ano 1976, logo que foi lançada. Foi uma festa, todos queriam saber se ela era tão boa de dirigir quanto a antiga e, bem, as excelentes vendas estão aí para confirmar. Guardo foto dessa Kombi até hoje! O mais curioso disso tudo é que ambos passaram para carros Volkswagen quando se aposentaram, antes do meu nascimento, de forma que muitos anos se passaram até que eu viesse a andar numa. Surpreendentemente, sempre fui apaixonado por Kombi, mesmo sendo um veículo com apelo tão comercial. Desde criança, era doido para ter uma!
Anos se passaram e outras Kombis fizeram parte da minha vida. Em todas andei de carona, algo que me entristece ainda hoje. Até mesmo na internet, de tempos em tempos, escrevo perguntando se alguém tem uma Kombi para emprestar para dar umas voltas, sem nenhum resultado. Ainda me pego pensando em uma, branca ou prata, com vidros verdes e desembaçador, para passear em finais de semana e levar coisas para a casa de praia.
A Kombi sempre morou e sempre morará no meu coração. Mas até hoje me entristeço não por aquelas em que andei apenas como passageiro, mas por aquela que nunca foi minha, em Natal algum. Nem por uma voltinha…”

 

AG

REGISTRO: após da mudança de provedor ocorreu a perda parcial de material fotográfico que foi recolocado nesta matéria no dia 04/02/2017. Este procedimento, feito pelo autor, complementou o trabalho feito pelo Staff do AUTOentusiastas na condução da transferência de muitas centenas de matérias para “seu novo lar”. Com isto esta matéria foi reconduzida à sua condição original, respeitando as condições de arquivo existentes, pequenas diferenças podem ter ocorrido.
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A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Alexander Gromow
Coluna: Falando de Fusca & Afins

Alemão, engenheiro eletricista. Ex-presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor dos livros "Eu amo Fusca" e "Eu amo Fusca II". É autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Além da coluna Falando de Fusca & Afins no AE também tem a coluna “Volkswagen World” no Portal Maxicar. Mantém o site Arte & Fusca. É ativista na preservação de veículos históricos, em particular do VW Fusca, de sua história e das histórias em torno destes carros. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

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