Longe de ser o estereótipo do alemão frio e calculista, Paul Rosche nunca escondeu suas origens bávaras: natural de Munique, a mais italiana das cidades alemãs, o engenheiro mecânico formado em 1957 era um dos personagens mais alegres e queridos onde quer que estivesse. O fato de ter viajado o mundo em pessoa ou através dos vários motores BMW que desenvolveu para as pistas dá uma boa noção do tamanho de sua reputação. Sua obra mais famosa é o motor 1,5 turbo de quatro cilindros que foi peça fundamental para Nélson Piquet conquistar seu segundo título mundial, em 1983. Enquanto os fanáticos das “Bimmers” insistiam em dizer que essa máquina produzia 1.500 cv, Rosche não navegou nessa onda:

“Não dá para garantir esse número. O nosso dinamômetro só mede até 1.280…”

20161116_f1_bt52b_spa Rosche PAUL ROSCHE (1934-2016) 20161116 F1 BT52b Spa

Piquet e o Brabham BMW BT52, combinação campeã na temporada de 1983 (Foto arquivo pessoal)

Sempre afável e acessível, Rosche se aposentou do trabalho na divisão Motorsport da Fábrica Bávara de Motores apenas como funcionário registrado, mas jamais deixou o convívio com o chão de fábrica após se aposentar em 1999. Quando foi decidido restaurar um exemplar do Brabham BT52, primeiro chassi a vencer um Campeonato Mundial equipado com motor turbo, Nocken Paul estava lá para deixar o carro em estado de 0-km para participar do Festival de Velocidade de Goodwood de 2013. Nocken Paul (Paulo Comando de Válvulas) era como Rosche era conhecido por seus pares, tamanha sua capacidade para desenvolver essa peça-chave no funcionamento de um motor.

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O 2002 Turbo de 1973 usava um motor desenvolvido por Paul Rosche (Foto BMW)

A lista de motores desenvolvidos por Paul Rosche para a BMW, marca à qual que sempre se manteve fiel, é enorme. Entre os destaques o 2,0 16V que dominou a F-2 durante várias temporadas e o 6,0 V-12, encomenda de Gordon Murray para equipar o McLaren F1, o primogênito dos carros de rua dessa marca. A encomenda especificava a potência mínima de 500 cv, os primeiros carros saíram de fábrica produzindo 10% a mais que essa premissa. Nas versões de competição esse motor chegou a 620 cv e venceu Le Mans em 1995. Quatro anos mais tarde a marca venceu com um chassi próprio.

Onde quer que esteja, Rosche certamente vai encontrar Brian Hart, outro mago dos motores de quatro cilindros. Os dois eram mais do que conhecidos ou colegas de profissão: eram parceiros de copo, prancheta e graxa e consta que quando os pistões do motor M12/13 de F-1, aquele dos BT52/53, quebravam mais pistões do outra coisa, foi Hart quem ajudou a resolver o problema. Paul Rosche faleceu ontem, 15/11/2016, de causas não reveladas.

WG

Sobre o Autor

Wagner Gonzalez
Coluna: Conversa de Pista

Jornalista especializado em automobilismo de competição, acompanhou mais de 300 grandes prêmios de F-1 em quase duas décadas vivendo na Europa. Lá, trabalhou para a BBC World Service, O Estado de S. Paulo, Sport Nippon, Telefe TV, Zero Hora, além de ter atuado na Comissão de Imprensa da FIA. É a mais recente adição ao quadro de colunistas do AUTOentusiastas.

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  • H_Oliveira

    O cara criou SÓ os motores do Brabham BT 52/53 e do Mclaren F1… Imagina a importância de um cara desses… RIP.

  • Rogério, o que houve em relação aos blocos foi recomprar BMW 2002 2-litros, já há bastante tempo em uso, para utilizar os blocos já com as moléculas acomodadas, visando maior resistência. Curiosamente, o mesmo fez a Vemag para os motores DKW de 1.089 cm³, cuja parede dos cilindros afinava muito com os pistões de 78 mm (a maior sobremedida era de 76 mm, mais 2 mm que a medida dos cilindros standard): comprou velhos motores de 900 cm³ de táxis da marca.

  • Dieki

    O mais impressionante: sem nenhum controle de tração e com um turbo lag gigantesco. A escalada de potência era superior a 100cv/1.000rpm. Um negócio para os fortes mesmo. Os pilotos da era turbo e os mestres do rali eram algo acima dos mortais.

  • Filipe, não é isso. 800 cv era a potência de corrida. Na classificação, motor que só durava duas voltas, a potência passava de 1.200 cv.

  • Lorenzo, nomes diferentes para o mesmo efeito. O seasoning nada mais é que acomodação molecular. No caso da Vemag não foi o que você diz, mas o mesmo caso do BMW.

  • Thiago Teixeira2

    Eu acho que já tem algo sobre o grupo B aqui no AE classico!

  • Alexandre, que legal, bela informação! Os caras da Mopar Performance eram muito bons mesmo!

  • Filipe, como você, também já li muito sobre esse assunto. A pressão de superalimentação era de 4 bar ou mais. Depois a FIA baixou para 2,5 bar máximo (em 2007, se não me engano) e as potências dos turbos se igualaram à dos aspirados.

  • Filipe

    Olá Wagner.
    Não concordo com a divulgação de que Piquet tenha dirigido em 1983 um carro de 1500 hp. Pra mim isso só alimenta desnecessariamente um mito errado.
    Por mais que tenha chamado a atenção para que o Rosche tenha dito sobre o máximo que o dinamômetro fosse capaz, eu tampouco acho crível que em 1983, durante uma sessão de classificação, Piquet tivesse uns 1300 hp ao seu dispor.
    Deixo claro que não estou desmerecendo em nada o que Piquet alcançou na época, até porque não é com 1500 ou 1000 que um carro deixa de ser impressionante ou não, mas é que ao meu ver, se estamos divulgando números vamos nos ater ao plausível para evitar lendas urbanas.
    Também não desmereço em nada o Paul Rosche, pelo contrário, assim que li a notícia na sua coluna eu avisei amigos pelo whatsapp e só faltou eu pedir um minuto de silêncio.
    Rosche disse certa vez (estou acreditando que o jornalista realmente notou que ele só falou sobre 1983 naquele comentário) que em 1983 o dinamômetro media até uns 1400 e que o motor estava entregando algo entre 1420 e 1450.
    E disse algo bem diferente anos antes para outro jornalista! E encontra-se valores ainda mais diferentes em publicações da época. Da época em que a era turbo ainda era o que existia nas pistas.
    Novamente, não desmereço o Rosche por isso. Acho fácil ser mal interpretado numa conversa e/ou confundir-se com dados e datas depois de tantos anos longe daquilo.
    E gostaria de dizer que aprecio sua coluna e que gostei muito do texto (exceto a parte dos 1500) sobre o Rosche. Sintetizou muito bem em poucas palavras o tanto que já li sobre ele, e ainda fez uma excelente lembrança do Brian Hart, outro imortal de que gostaria muito ter trocado pelo menos meia hora de conversa… quem sabe quando eu então também passar pro outro lado…