A história “do fundo do baú” de hoje me remete a 1980, exatamente maio.

Eu trabalhava no Escritório Regional da Volkswagen no Rio de Janeiro, que abrangia a cidade, estado, e todo o Espírito Santo. Havia um clima de festa misturado com ansiedade e apreensão, era iminente o lançamento, para os concessionários da região, de um carro fadado a ter uma longa carreira de sucesso, o Gol (foto). Notícias alvissareiras chegavam das fábricas Anchieta e Taubaté; nesta, a produção do novo Volkswagen já havia começado.

A lista de convidados era grande. Só representantes das concessionárias da região eram mais de 200 pessoas, e havia convidados políticos, diretores de empresas, fornecedores etc., todos somavam mais de 500 convidados.

O local escolhido para este grande lançamento foi o Hotel Intercontinental, bem em frente à Praia de São Conrado, no Rio de Janeiro.

Tudo certo, tudo arrumado, veículos expostos prontos para serem apresentados aos convidados, toda a equipe do Escritório Regional pronta para a grande recepção. Todos elegantes, de terno e gravata, mas ainda bem que estava fresquinho (maio) e o ar-condicionado dos salões do hotel, ligado.

Os convidados chegaram, o coquetel foi iniciado e lá pelas oito da noite nosso gerente regional,  o Miguel Carlos Barone (falecido ano passado), responsável por todas as atividades das 77 concessionárias  da região, convidou a todos para se dirigirem ao auditório onde seria feita uma apresentação sobre o veículo e o programa de lançamento do novo carro, o Gol.

Depois de uma hora de palestra, diretor de Vendas discursando, finalmente os veículos foram mostrados aos convidados. Um verdadeiro show de luzes e música enriquecia o ambiente. Os comentários eram positivos, o termômetro indicava satisfação da rede de concessionários com o lançamento e novas esperanças para o mercado nacional.

Foi servido o jantar, uma entrada, um prato principal, uma deliciosa sobremesa e ao final um delicioso cafezinho. Tudo saía como programado.

Por volta das onze e meia fui chamado a um canto para conversar com o Barone. O que seria? Não era muito normal ele dar recados ou mandar chamar, mas desta vez ele queria falar comigo de forma mais reservada.

Nos reunimos em uma sala e de forma muito direta o Barone me perguntou: “Você bebeu?” Tomei um susto com aquela pergunta, o que teriam contado a ele a meu respeito? Eu não carregava nenhum mal entendido com qualquer convidado, nada de errado havia ocorrido. Pedi a ele explicações para tal pergunta. A resposta me deu mais tranquilidade.

“Tenho uma missão para você e só em você eu confio.” Ele sabia que eu era piloto de competição nas horas vagas, de pista e rali.

“Preciso que você pegue um destes carros do lançamento e o leve agora para Belo Horizonte. Um dos carros da apresentação local foi acidentado durante um test drive com jornalistas e precisamos repô-lo. Você está em condições? Trabalhou muito o dia inteiro e disse que não bebeu e pergunto também, não está cansado? Pode levar o carro até lá saindo agora?”

Minha resposta foi imediata, “Conte comigo, chefe”.  “Só vou até minha casa (na lagoa Rodrigo de Freitas), troco de roupa, falo com a minha esposa que esta grávida de oito meses, digo-lhe do que se trata e que volto na manhã seguinte de avião.

Depois do susto, minha mulher entendeu a emergência e respeitou o pedido do Barone. Despedi-me dela e peguei o caminho em direção a Belo Horizonte.

Lagoa Rodrigo de Freitas, túnel Rebouças, elevado Paulo de Frontin, avenida Brasil em direção a Petrópolis e à BR-040 que me levaria até Belo Horizonte.

Na subida da serra de Petrópolis, uma surpresa: o motor começava a falhar, fazia muito frio talvez uma das noites mais frias da serra. Parei o carro e verifiquei que a falha se devia a pouco aquecimento do coletor de admissão, mesmo que o motor 1300 fosse somente a gasolina (que na época nem tinha tanto álcool como hoje, seria pior).

Solução, fazer o motor esquentar; providência, fechar a grade dianteira. Para tal parei em uma banca das que durante o dia vendem banana e encontrei um senhor que me conseguiu algumas folhas de jornal.

Grade dianteira fechada, motor aquecido, problema resolvido. Paradas, só para abastecer o carro e me “desabastecer”, fazia frio (“pipi-stop”).

Cheguei ao Escritório Regional  da Volkswagen do Brasil sucursal Belo Horizonte às 7h30 da manhã são e salvo e o carro intacto, como era desejo de todos. Fui recebido com aplausos pelos colegas do Regional. Naquela época não havia telefone celular e a expectativa da minha chegada era grande.

Deixando o carro nas mãos dos meus colegas, fui de táxi até o aeroporto da Pampulha e, comprando uma passagem de última hora, voltei para o Rio de Janeiro, descendo no aeroporto Santos-Dumont com aquele alívio na mente de missão cumprida.

O corpo já reclamava de um natural cansaço. O dia anterior tinha sido repleto, uma noite preocupante recebendo os convidados e uma viagem inesperada, tudo isto somado deu como resultado um cansaço o que me levaria a um merecido descanso.

Chegando em casa, minha esposa feliz com a minha volta e eu feliz com o sucesso da “operação”.

Depois, de volta à normalidade, recebi uma carta da Diretoria de Vendas agradecendo o meu empenho, o que me deixou muito feliz.

É lógico que não foi por cumprir essa missão que fui promovido a gerente nacional de Assistência Técnica – Produto no fim do ano, como contei na coluna “Emoções paulistas no Rio de Janeiro“, mas que ajudou, tenho certeza.

A história do Gol você conhece e a sua evolução também, e estou sabendo que em futuro muito próximo que virá uma nova geração deste carro de sucesso. Depois de ter trabalhado 30 anos na organização Volkswagen, só posso desejar sucesso ao novo produto a caminho.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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  • Gerry P. Lewis

    Só quem trabalhou nas Engenharias Experimentais ou Serviço se delicia com essas experiências….um tanto loucas mais trazem muitas boas memórias. Parabéns, Berg!!

  • Carlos Alberto A. da Silva

    Bom dia, sr. Berg! Que belo relato de profissionalismo e comprometimento! Que seu exemplo sirva de norte para muitos! Um forte abraço!
    Carlos Alberto A. da Silva
    Porto Alegre/RS

    • Ronaldo Berg

      Olá Carlos Alberto, obrigado por seus comentários, na hora do sufoco e da necessidade se faz qualquer coisa para alcançar seu objetivo. Foi muito bom ter ajudado e principalmente agradecido pela confiança em mim depositada.

  • Mr. Car

    Mais uma deliciosa história de bastidores. Missão dada, missão cumprida, he, he! E Berg, por esta foto dá para ver: o interior deste Gol tem as forrações centrais dos assentos em xadrez, uma configuração que vi em fotos de carros testados por revistas especializadas na época do lançamento, mas nunca topei com um assim “na vida real”. Acho muito bacana. Sempre me pergunto se ainda existirá algum assim inteiro e rodando. Se sim, é uma verdadeira raridade. Suponho que deve haver pouquíssimos Gol 1300 ainda na ativa. Inteiros e com este interior então…mosca branca com um olho verde e outro azul. Aí vai o comercial de lançamento do Gol, com um carro com este interior.
    Abraço.

    • Romulo Rostand

      Possuo um Gol L 1300 , 1980, fabricado em julho. O tecido dos bancos é preto.
      Até hoje, também, só vi Gol com tecido xadrez nas fotos de revistas de testes e em comerciais.

      • Romulo, quanto tempo! Que legal, você tem uma joia nas mãos!

        • Romulo Rostand

          Olá Bob,

          Sim, passei um bom tempo afastado de outras atividades que não o trabalho.
          Inclusive, meu Gol tomou um longo chá de garagem, em dois anos só saiu uma vez.
          Mas, estou retomando as visitas a encontros e passeios de antigos e, também às boas leituras. Estarei mais presente aqui.

          A propósito, meu afastamento se deu parte por novos compromissos de trabalho e, principalmente, por problemas renais que demoraram a ser diagnosticados. Cálculo no ureter, rim bloqueado e nenhuma dor. Por pouco não comprometeu o rim direito. O tratamento que incluiu três cirurgias de baixo risco se arrastou por quase um ano. Saúde restabelecida, vida nova outra vez!

          • Caro Romulo, que sufoco! Ainda bem que está tudo resolvido e que assim fique. Abraço.

  • Denivan Vargas de Araújo

    Sensacional!

  • Claudio Abreu

    Ainda acho esse primeiro, faróis quadrados, para-choques comedidos, o mais bonito dos Gols.

  • Israel Simukaua

    Boa, Berg. Sempre entro domingo pela manhã para ler a sua história.
    Abraço e que venham mais histórias, por favor.

  • Guilherme

    Ótima história!

  • Gustavo73

    Muito legal o relato. E sem dúvida ajudoua contar pontos para a sua promoção. Afinal mostrou o comprometimento com a empresa. Dá trabalho? Como diria o Bob! Claro, e justamente por isso quem não tem medo dele deve ser valorizado. O novo produto a caminho deve ser o novo compacto, provavelmente a nova geração do mesmo Gol. Que a VWB tenha hoje pessoal dedicado como você foi Berg. O título até reflete de certa maneira a situação do Gol e até da VWB, queda nas vendas e problemas com fornecedores. Mas com trabalho e um bom produto a situação pode ser revertida.

  • Alexandre, a firma foi vendida em 1978 para a Abolição Veículos, do Paulo Simões. Mas a minha turma praticamente toda continuou lá, inclusive o recepcionista (consultor técnico) Jair Ribeiro.

  • Lorenzo Frigerio

    Era para não canibalizar a Brasília. Mas acho que depois sentiram firmeza de fazer isso.

    • Fat Jack

      O Brasília foi tirado de linha justamente para facilitar as vendas do Gol, e em alguns aspectos o Brasília era superior, por exemplo em espaço interno.

  • Lorenzo Frigerio

    Devia ser o tecido xadrez do Passat Surf… uma bela edição especial da qual poucos se lembram.

  • m.n.a.

    Legal, factível, mas compara 1980 com 2016 em termos de quantidade de veículos nas estradas, radares etc…stress 1000x maior….

  • Bera Silva

    Sr. Berg, suas histórias são muito gostosas de ler.

  • Mr. Car

    Daniel, tenho a vaga impressão de já ter ouvido falar nisto. Raridade mesmo, nunca vi um assim.
    Abraço.

  • ochateador

    Falando na SpaceFox, eu queria saber o que aconteceu para a VW retirar ela do configurador do site.

    • Fat Jack

      Eu confesso que não sabia disso. Depois de guiar por alguns dias uma I-Motion do meu cunhado fiquei com uma imagem bastante positiva do carro, mas seus preços são bastante exagerados.

  • Alexandre, claro, só na rua Assunção havia a Cota e a Star, ambas VW. Havia a Mecânica Victori, especializada em Alfa Romeo, a AGO Mercedes-Benz na rua transversal; a Automóveis Citroën na rua Bambina. Era cheio por lá.

  • PauloHCM, como assim, “gambiarra”?Então o Karmann-Ghia era uma gambiarra só por ter a base mecânica do Fusca? Não tinha nada de barulho interno “insuportável”, andei muito de Brasília e digo que era como outros carros. Foi bem no mercado por ter conhecidas características de robustez e seu ótimo espaço para ocupantes.

  • Muito legal esse texto xará!

    Já disse alguns “conta comigo chefe” algumas vezes, e sei bem como é isso. Fora a responsabilidade que fica nas nossas costas em assumir uma situação dessas e o orgulho de entregar um trabalho bem feito e perfeito.
    Parabéns pelo texto.

  • Pablo Lopes

    Que história bacana! Empenho, dedicação, disponibilidade e profissionalismo, o resultado não poderia ser outro, promoção no fim do ano, resultado de inúmeros bons serviços realizados, que certamente outros você não se lembra, mas seus chefes viram!!! Parabéns por dividir conosco essa história, que nos encoraja nesses momentos difíceis da atualidade, a tentar cooperarmos mais com nossas empresas, principalmente em momentos como o relatado!!!!

  • Aquiles

    Eu achava o barulho dentro do Brasilia menor que no Gol refrigerado a ar.

  • PauloHCM, então você não andou nos Brasílias quando novos, em estado original.

  • Fat Jack

    Vou arriscar um chute, mesmo temendo errar para menos: R$65 k?

  • Fat Jack, é perfeitamente possível acesso ao motor pelo habitáculo. A Variant e o TL eram assim, como são o smart e o novo Clio. O isolamento acústico pode haver, não há dificuldade maior. O maior ruído do Gol arrefecido a ar era de aspiração, questão meramente de projeto do ou dos filtros de ar.

  • Fat Jack, antes de se pensar em manta acústica pode-se certificar que a borracha de vedação entre a tampa e o assoalho do porta-malas esteja em ordem e que as duas linguetas rotativas quando em posição fechado promovam a correta pressão da tampa no assoalho.

  • Janos Markus, mecânica, total certeza que não; acabamento e isolamento fonoabsorvente, havia. Não há justificativa para pedais e direção mais leves.

  • Carlos A.

    Caro Ronaldo, que bacana essa ‘aventura’ na época e a responsabilidade de conduzir um lançamento para outro Estado. Sei bem como é esse coletor de admissão longo, meu Fusca 1300 gasolina ano 1980 possui o afogador funcionando e todo sistema de aquecimento do coletor em perfeitas condições, fundamental para o perfeito funcionamento na fase fria. Atualmente com nossa ‘alcoolina’ realmente o sofrimento é maior.

  • Janos Markus

    Tem também uma outra história (ou lenda) quando foi desenvolvido o 1.6 com dupla carburação. O estepe foi deslocado para o porta malas porque não haveria espaço no cofre devido ao carburador da esquerda. Mas um mecânico de uma concessionária do interior de São Paulo resolveu essa questão de uma forma engenhosa simplesmente virando o tubo de entrada de ar desse carburador 45 graus para baixo e colocando o estepe com a parte côncava virada para cima, sobre o filtro de ar, escondendo-o. Consta que isso foi visto por um inspetor da fábrica, o que gerou uma certa agitação na área de desenvolvimento de produtos…
    Isso procede?