* (mi.so.ne.ís.mo)

sm.

1. Aversão a tudo o que é novo ou representa mudança; NEOFOBIA [ Antôn.: filoneísmo, neofilia. ]

[F.: Do fr. misonéisme.]

(Dicionário Caldas Aulete Digital)

A definição do verbete ‘misoneísmo’ diz tudo, é desnecessário explicar ou dizer o que é. Só é preciso dizer a que se refere a aversão nesta matéria: ele mesmo, sua excelência o telefone celular.

Desde que apareceu na década de 1980 suscita controvérsias de toda ordem, do tipo ame-o ou odeie-o. E como suscita.

Lembro-me de ter lido alguns anos atrás que um famoso restaurante de Nova York obrigava os clientes a deixar seus telefones celulares na chapelaria. Não podiam tê-los consigo enquanto faziam suas refeições. Misoneísmo exacerbado. Mas quando ainda não havia telefone celular mas já havia o telefone sem-fio, era sinal de grande cortesia levá-lo à mesa do cliente que necessitasse telefonar ou receber ligação…

Há pouco tempo vi num filme europeu o personagem principal atendendo ao telefone celular e explicando ao interlocutor, em tom bem baixo, que não podia falar muito porque estava num trem. Misoneísmo exacerbado. Mas, que eu saiba, pode-se conversar num vagão ferroviário, com se pode num restaurante ou num ônibus, desde que educadamente — nisso reside uma grande dificuldade em si mesmo — em baixo e normal tom de voz.

Isso sem contar o “celular dá câncer no cérebro”, deixando muitos preocupados. Ou postos de gasolina que explodiam. Ou perturbava o tráfego aéreo usar o celular com o avião no solo.  O misoneísmo parecia não dar trégua.

Claro, o celular haveria de chegar ao automóvel, era inevitável que acontecesse, e acompanhado de todo misoneísmo possível e imaginável. Com a agravante de perseguição a quem o usasse dirigindo, com uma pitada de inveja no começo quando o aparelho era realmente acessível para poucos.

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Muitos tinham raiva quando viam esta cena, parte por inveja

Duraram um bom tempo os ataques a essa forma móvel e notável de se comunicar até que aparecesse em 1994 a tecnologia de comunicação sem fio universalmente conhecida por Bluetooth, criação da sueca Ericsson. O curioso nome escolhido foi para homenagear um antigo rei da Dinamarca e da Noruega, Harold Blatand, que é em inglês é Harold Bluetooth. Esse rei foi responsável pela façanha de unir as tribos norueguesas, suecas e dinamarquesas, já que a tecnologia é justamente uma forma de unificação de diferentes dispositivos.

Pronto, o motorista não era mais visto segurando o aparelho com uma das mãos e os ataques esse invenção fantástica se abrandaram.

Mas a tropa dos misoneístas não iria ficar quieta, conformada. Isso nunca! Começaram os famosos “estudos e estatísticas” alardeando e alarmando que falar ao telefone dirigindo, mesmo com as duas mãos agarradas ao volante, equivalia ao motorista estar alcoolizado… Igualzinho…

E chegaram os telefones inteligentes, os smartphones. Conexão com a internet, acesso ao serviço de correio eletrônico, Skype e, mais recentemente, o WhatsApp. Nunca foi tão fácil enviar e receber mensagens escritas.

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Escrever texto dirigindo, prática a ser coibida com todo o rigor

Só que agora, ao contrário das outras formas de comunicação, surge o real, e não inventado, perigo, a distração extrema que é  escrever mensagens  com o carro que se está comandando em movimento. Está dentro da mais absoluta razoabilidade coibir essa prática com todo rigor. Acho que ninguém discorda.

Veio a lei nº 13.281. de 4 de maio p.p., alterando vários pontos do Código de Trânsito Brasileiro, inclusive o valor das multas, congelado que estava desde 2001 quando foi extinta a Unidade Fiscal de Referência (Ufir), na qual se baseavam seus valores, que por isso mesmo previa atualização automática segundo a evolução da Ufir. Mas ela acabou.

Mas não foram só os valores das multas que mudaram, houve mudanças na severidade das infrações e nas punições administrativas, como tempo de suspensão do direito de dirigir, que de no mínimo um mês passou a pelo menos seis.

Entre as mudanças de severidade, a de dirigir usando o telefone celular. Aí o misoneísmo veio para valer, com a força devastadora de um tsunami. De infração média, punível com multa de R$ 85,13 e lançamento de 4 pontos no prontuário do motorista, passou a ser infração gravíssima — Oh, meu Deus, que coisa! O que um superlativo é capaz de fazer! Com o reajuste de 53,2% a multa agora é de R$ 293,47 e… 7 pontos na CNH.

Mas o tsunami avançou com seu ímpeto de destruição ao ficar decidido que não é mais permitido manusear o celular, mesmo sem falar, com a onda gigante dizendo que só é possível pegar o aparelho quando o veículo estiver estacionado — maneira escusa de dizer que parado num semáforo ou preso nos cada vez mais comuns congestionamentos, pegar no celular é proibido, ou seja, infração gravíssima e suas consequências. Carro parado!

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Mesmo com carro parado num congestionamento, pegar no celular é infração gravíssima: vitória do misoneísmo (foto LevelPlay Notícias)

Dia desses um desses “especialistas” em trânsito alertou que no caso de dispositivos de navegação, Waze, por exemplo, o motorista terá que definir seu destino antes de pôr o carro em movimento, depois não pode mais tocar no aparelho!

Mesmo que o motor desligue automaticamente em meio ao trânsito sob ação de sistema concebido para esse fim nas duas condições citadas de não haver tráfego em movimento, o patrulhamento, o misoneísmo exacerbado, o abuso de autoridade sobre o cidadão chegou a esse ponto.

É, como tenho dito, Brasil só reformatando o HD.

BS

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