Iniciativa bastante válida do vereador Mário Covas Neto e apoiada pelo deputado federal Floriano Pesaro, a reunião realizada nesta terça-feira, 29, em auditório da Câmara Municipal de São Paulo para discutir a desestatização do Autódromo de Interlagos mostrou que sobra emoção e falta coerência entre os interessados no assunto.

Em meio a colocações que lembravam textos do gênero “esta é a minha história” e outras que tais , porém, porém salvaram-se propostas interessantes, algumas surpreendentes, e ficou clara a forma inadequada como a SPTuris trata do “equipamento”, como o circuito é chamado no jargão urbanístico.

A pasrtir da esquerda: Cyro Laurenza, FLoriano Pesaro, Mário Covas Neto, Alcino Reis Rocha, Wilson Fittipaldi Jr, Felipe Giaffone, Élcio de São Thiago e Francisco Lameirão (Foto Pedro Martins)  INTERLAGOS: SOBRA PAIXÃO, FALTA COERÊNCIA 20161129 ASSEMBLEIA

A partir da esquerda: Cyro Laurenza, Floriano Pesaro, Mário Covas Neto, Alcino Reis Rocha, Wilson Fittipaldi Jr, Felipe Giaffone, Élcio de São Thiago e Francisco Lameirão (Foto Pedro Martins)

Covas Neto e Pesaro lideram o processo de tombamento de Interlagos como patrimônio imaterial da cidade, algo por si só relevante e consequente frente às reiteradas menções do valor imobiliário do terreno com área aproximada de um milhão de metros quadrados. Cyro Laurenza, que faz parte da equipe que cuida da transição do poder municipal nas gestões Haddad e Dória, justificou sua presença ao mencionar que a área estar inserida em um portal de grande importância turística, mais importante:

“Não podemos privatizar (Interlagos). O terreno não tem dono.”

De maneira mais direta e sucinta, Floriano Pesaro tocou na ferida quando ao justificar o pedido de tombamento afirmou que “Interlagos é pista de corrida”. Covas Neto iluminou ainda mais a forma como a SPTuris administra o autódromo dando números:

“A F-1 cobra uma reforma anual e (nos últimos anos ) foram injetados em Interlagos R$ 316 milhões de dinheiro público, sendo que toda a renda do evento da F-1 vai para o promotor do GP”, que não contribui em nada nas reformas e manutenção.

O vereador lembrou ainda que o custo para construir o autódromo do Bahrein, um dos mais modernos no mundo, é estimado em US$ 150 milhões. Pior: todas as reformas realizadas em Interlagos levam em consideração apenas e tão somente as necessidades da F-1 e raramente contemplam e consultam o universo das equipes, pilotos e imprensa que usam o local nas datas em que são contemplados.

Integrante da mesa que mais se destacou pela maneira como se comportou na reunião, o presidente da SPTuris Alcino Reis Rocha usou do típico discurso de administrador público ao lembrar mais do mesmo. Admitiu que as obras estão atrasadas por causa do Governo Federal, que o deficit da administração do autódromo passou de “muito grande em 2015 para menor em 2016 e que deverá ser zerado em 2017”. Em todas as suas colocações Reis Rocha deixou claro que a F-1 é a principal preocupação da entidade, o que, obviamente, gerou protestos dos presentes. O administrador fechou sua participação no evento saindo apressadamente recusando-se a responder questões da imprensa.

Como era esperado, o público que atendeu ao convite de Covas Neto deixou clara a insatisfação como o automobilismo paulista é tratado pela SPTuris: dificuldade em conseguir datas, impedimento de usar os boxes, instalar as equipes sem prover infraestrutura mínima e, tal como anunciado há semanas, aumentar o aluguel da pista de R$ 16.095,00 para R$ 41.500,00 por dia.

O pior de tudo é o que revela a colocação do empresário Orlando Sgarbi: “Não se sabe qual é a prioridade sobre o uso de Interlagos. Fala-se de privatização mas há cerca de 11 anos o autódromo foi privatizado através do decreto municipal 45.822, de 7 de abril de 2005, pelo prefeito José Serra.”

A concessão, lembra Sgarbi, “é gratuita e precária”, o que deixa margem ao seu cancelamento, algo que se justificaria pela qualidade da gestão desenvolvida: a outorga é gratuita e livre de impostos e, como admitiu Alcino Reis Rocha, mesmo assim dá prejuízo. Boa surpresa David Costa, estudante de arquitetura e morador vizinho ao autódromo, que apresentou um estudo intitulado “Interlagos, polo sócio-cultural da velocidade”. Ainda que a volta do traçado antigo seja discutível e não prioritária, o gesto mostra que a juventude ainda tem olhos para o esporte.

Fazendo contraponto, o veterano piloto Ruy Amaral Jr ao notar um ambiente tenso ponderou que “a união em nosso meio tem que acontecer de baixo para cima, precisamos nos fortalecer para conseguir o que queremos”.

Sem dúvida, a união da comunidade automobilística será uma arma poderosa na luta para devolver Interlagos à razão de sua existência, algo que não exclui a utilização da pista para eventos outros que não sejam vinculados ao esporte a motor. A semente lançada por Mário Covas Neto deixou isso claro, assim como o fato que o novo prefeito não transmitiu claramente o que quer fazer com o autódromo. Deixá-lo nas mãos da SPTuris, que comprovou sua inépcia na gestão da pista e também no Parque Anhembi, outrora centro de exposições dos mais ocupados do Brasil e atualmente praticamente abandonado, está longe de ser uma solução aceitável. Que o tombamento seja a primeira batalha vencida nessa guerra para salvar o primeiro autódromo brasileiro e um dos primeiros do mundo.

WG

Sobre o Autor

Wagner Gonzalez
Coluna: Conversa de Pista

Jornalista especializado em automobilismo de competição, acompanhou mais de 300 grandes prêmios de F-1 em quase duas décadas vivendo na Europa. Lá, trabalhou para a BBC World Service, O Estado de S. Paulo, Sport Nippon, Telefe TV, Zero Hora, além de ter atuado na Comissão de Imprensa da FIA. É a mais recente adição ao quadro de colunistas do AUTOentusiastas.

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  • Walter Svitras

    Muito obrigado, Wagner, pelo resumo do encontro. Infelizmente não se pode esperar outro comportamento e atitude das pessoas que os prefeitos de plantão são obrigados a colocar em cargos estratégicos, pessoas despreparadas, incapazes e manipuladas por seus padrinhos com objetivos nem sempre republicanos.

    • Wagner Gonzalez

      Walter,

      Apenas cumpri a missão, valor e objetivo deste site. Fico contente em saber que o material lhe agradou.

  • Angelito

    Bom saber que colegas da Arquitetura e Urbanismo estiveram presentes e tiveram presença marcante. Procurarei o referido trabalho, que acredito ser direcionar a algo que penso a um tempo: que esses autódromos tenham no seu entorno condições especiais no plano diretor e outros instrumentos urbanísticos para fermentação do automobilismo, com oficinas, escolas de pilotagem, dentre outras pequenas empresas que dependem aí de um autódromo

    • Wagner Gonzalez

      Angelito,

      Pedi ao David que me enviasse o estudo, pois pretendo escrever mais sobre isso.

    • Roberto Da Silva Zullino

      O projeto original foi totalmente estuprado. A idéia era manter a “massa” de construção e virar a entrada principal do autódromo para onde hoje é o antigo Retão (setor G), pois fica mais perto do Metro CPTM.
      O que seria construído ness nova área principal seria contrabalançado pela demolição do monte de puxadinhos hoje existentes na entrada da Av. Teotônio Vilella.
      Sairia muito mais barato que os 200 milhões que enterraram para fazer mais um remendo, destruir a Torre, aumentar o Paddock em apenas 2 metros e fazer uma favela que foi o que ficou.

  • Marcelo Conte

    Wagner, obrigado por divulgar essa notícia. Entre tantas coisas fiquei impressionado com o “aumentar o aluguel da pista de R$ 16.095,00 para R$ 41.500,00 por dia.” Isso não faz sentido para o desenvolvimento do automobilismo em SP. Na minha opinião R$ 41.500,00/dia para um show de música ou para é F1 que arrecadam muuuito com bilheteria é muito pouco porém R$ 16.095,00/dia para categorias nacionais é até muito alto. Talvez, para ser mais justo deveria haver escalonamento na cobrança da locação.

    • Wagner Gonzalez

      Marcelo,

      Independente do valor — que também acho abusivo —, aumentar algo em 200% em época de PIB negativo é mostra da capacidade do gestor que está à frente da SPTuris.

      • CorsarioViajante

        É mentalidade de burocrata concursado acomodado. Se falta dinheiro, é só aumentar os preços / impostos. Se não resolver, é só aumentar mais. Se ainda assim não resolver cria um novo imposto na compra do carro zero.

  • Wagner Gonzalez

    Caro,

    Vai demorar uns dias: são mais de 150 páginas…

  • Roberto Da Silva Zullino

    Vamos ter que focar apenas no automobilismo paulista e sermos firmes, pois a PMSP e São Paulo Turismo (SPTuris) fazem todos os acertos e arreglos em cima do automobilismo paulista ao arrepio da Lei do Floriano Pesaro que nós dá prioridade.

    Na hora que o automobilismo paulista formar um bloco de COMBATE junto com o pessoal da Motos essa turma da São Paulo Turismo (SPTuris)i aprende.

    Hoje, definem as prioridades sem a menor base LEGAL:

    1-Provas da Fia, basicamente a F1 porque o Bernie não deixa as outras, ele se considera dono de Interlagos e sabota WEC, Nascar, Indy. A F1 nada paga para usar Interlagos e ainda exige um monte de obras e a imoral construção das caríssimas Arquibancadas de Canos para que o Bernie fique com a receita. Fora a roubalheira nessa montagem, tem um monte de gente que leva grana desde 1991. As arquibancadas são o melhor exemplo de que nada mais definitivo que o provisório, pois o provisório pereniza a roubalheira. O resto das chamadas obras não passam de troca de 3 a 4 torneiras, 10 privadas e uma mão de cal e para isso gastam 30/40 milhões todos os anos incluindo as arquibancadas e eventual recapeamento. Fui engenheiro de pavimentação e jamais vi tanto roubo nem em obras do DNIT ou DER.

    2-Provas CBA das categorias nacionais, mas alto lá, o Brasil e os brasileiros nada pagam e nunca pagaram nada para se fazer e manter o autódromo, nós PAULISTANOS que pagamos tudo via nossos impostos. Tem que ir para depois de nós na prioridade. Interlagos não é da PMSP, é nosso que pagamos tudo. Stock, Truck ficam com o que sobrar, virem-se.

    3-Finalmente, vem o automobilismo paulista, mas isso é mentira, a São Paulo Turismo (SPTuris)) vive sabotando e dando datas para montadoras, shows e outras coisas. Não somos a terceira prioridade e deveríamos ser a PRIMEIRA pela Lei.

    4-Eventos como Shows e outros. Nada contra, o Lolapalooza e outros chows ocupam pouco tempo, cuidam da pista e pagam muito bem. Não são eles que nos tiram datas.

    Quem nos tira datas é F1 em conluio com a rede Globo que obriga a PMSP fechar 21 finais de semana por ano para reformas que não passam de roubalheiras. Se a F1 parar com essa palhaçada vão sobrar datas para todos. Com um evento de um dia ocupando 4 meses fica difícil sobrar datas para os outros, pois a F1 ocupa 44% do tempo anual de Interlagos.

    Ou a F1 se comporta e fica com 15 dias ou temos que nos unir e impedir o GP da Miséria.

    A audiência na Câmara de SP foi o primeiro passo, vamos para o confronto, não temos que ter medo de nada, ou fazemos isso ou o automobilismo paulista morre. Vamos falar a verdade, quem formou os nossos campeões foi o automobilismo paulista, sem o regional de São Paulo forte não tem futuro, vai apenas se ter um evento exótico como é aF1 nesses países da Asia e Oriente Médio onde um Sheik resolve brincar de fazer GP.

  • Mineirim

    Wagner Gonzalez,
    Não entendi sobre Interlagos:
    – um autódromo como patrimônio “imaterial”?
    – privatizado há 11 anos?
    – outorga precária para qual empresa?
    – o terreno não tem dono?

  • Roberto Da Silva Zullino

    Ninguém é contra se colocar palco, montanha
    russa, roda gigante e outras coisas, o Emerson colocou um monte de
    atrações nas corridas da WEC e ficou muito bom. Tampouco se deve ser
    contra shows, todos os autódromos do mundo fazem isso e de certa forma
    todas essas coisas atraem a curiosidade das pessoas para a pista de
    Interlagos que hoje em dia é um lugar desconhecido e mistificado pela
    população geral.
    O que não pode é permanecer essa
    mentalidade e atuação de se privilegiar a F1 fechando Interlagos por 21
    finais de semana para se fazer obras que não passam de roubalheiras,
    gastam milhões para passar uma mão de cal e trocar umas torneiras e
    privadas. A cada 3 anos recapeiam a pista, mas nem isso fazem direito, o
    asfalto feito em 2014 foi mal feito e teve que ser remendado. A PMSP
    tbem não pode dificultar o acesso de outras categorias como WEC, Nascar,
    Indy por imposição do Bernie. O fechamento e a não reabilitação do Anel
    Externo fazem parte dessa estratégia nefasta. Fora que é errado se
    atrelar Interlagos apenas em uma categoria e se ficar na mão que é o que
    está acontecendo agora com a chantagem da F1 colocando em dúvida a
    realização do GP do Brasil. O Haddad enterra 200 milhões para a F1 sem a
    menor garantia? Que tipo de administrador público é esse? Um retardado
    ou corrupto ou os dois. Em qualquer lugar do mundo estaria na cadeia por
    investir recursos públicos sem garantias.
    O futuro
    concessionário não poderá ter essa mentalidade tacanha de fazer apenas
    UM EVENTO por ano, pois quebraria. Terá que usar o autódromo 365 dias
    por ano com corridas, inclusive de categorias internacionais e outros
    eventos. Interlagos tem apelo para categorias Internacionais porque nos
    complementamos com Buenos Aires e as equipes estrangeiras gostam de vir
    para o hemisfério sul no inverno europeu. Carro de corrida é máquina
    como de fábrica, tem que ser usado o tempo todo para dar dinheiro.
    Uma
    alternativa se não se conseguir um interessado é fazer uma Outorga Não
    Onerosa para uma Oscip, Organização da Sociedade Civil para o Interesse
    Público como foi feito em Silverstone que foi outorgado para o
    BRDC-British Racing Drivers Club na época presidido pelo Damon Hill.
    A SPTuris já demonstrou que não sabe sequer cuidar de Notas de Escolas de Samba dos Desfiles de Carnaval.

  • Mineirim

    Eu sei o que significa. Mas o autódromo é bem material, além de cultural. hehe