O novo Citroën Aircross foi lançado há um ano (23/11) e o Wagner Gonzalez esteve lá. Três meses depois foi a vez do Arnaldo Keller fazer um teste “no uso” do 1,5 Live manual, o segundo na escala da linha que, como o nome indica, só vem com câmbio manual de cinco marchas. Coube-me mais um teste desse tipo, desta vez o da versão topo de linha 1,6 Auto Shine, que tem o motor 120 VTi Flex Start e câmbio automático de quatro marchas somente. Antes dela existe o 1,6 Feel, que pode ser manual ou automático.

Gosto do pão de forma — o formato nos carros, bem entendido. O Citroën Aircross é um deles. Desde seu lançamento em 2010 que imagino este filhote de C3 (boa parte dele deriva do hatch, sabiam, não?) como um candidato forte à garagem de casa.

citroen-aircross-15  CITROËN AIRCROSS 1,6 AUTO SHINE, NO USO Citroen AirCross 15

Bem que o estepe externo poderia ser opcional

Antes de ser tachado de esteticamente deformado, justifico o gosto dizendo que é fruto da visão prática, aquela que valoriza a função em detrimento da forma, um modo de ver o automóvel como instrumento de utilidade. Aprecio e preciso de espaço interno estilão Kombi associado à razoável dirigibilidade.

O Aircross 1,6 com o qual passei bons dias é um exemplo desta linhagem. A unidade cedida para teste foi a mais equipada – e cara – dentre todas. O 1,6 Auto Shine, que tem tudo e mais um pouco. Custa, no “monte o seu…” do site Citroën exatos R$ 76.780, dos quais R$ 1.790 referentes à cor Blanc Nacré, enquanto as outras quatro cores custam R$ 1.390.

Por esta dinheirama (acho tudo caro ultimamente…) levam-se mimos variados. Um sistema multimídia amiguinho de smartphones, uma tela tátil, um  sistema de áudio completo com direito a 16 GB no jukebox, um navegador e até câmera de ré.

Há mais? Sim, há: volante revestido de couro e borboletas para troca das marchas do câmbio automático de quatro marchas. Controlador automático de velocidade, acendimento de faróis e acionamento do limpador de para-brisa, por sensores respectivos, também tem, junto ao revestimento misto tecido-couro e, oh céus, o estepe pendurado do lado de fora do porta-malas e os pneus 205/60R16 com banda de rodagem de aparência off-road.

Bonito? Não. Chamativo? Sim. Prático? Seria mais se não tivesse o tal estepe externo, que exige mais movimentos do que o simples apertar de um botão e puxar a tampa. É necessário, além disso, afastar a estrutura não exatamente leve que sustenta o pneu-reserva.

Gosto não se discute. Mas gosto ruim, se comenta. No look aventureiro o pneu pendurado na traseira é detalhe ainda apreciado. Remete a desafio e superação, à fuga da cidade em favor da natureza. Daí a decisão da Citroën de pegar seu C3 Picasso nascido como urbano charmosinho para o mercado europeu e fantasiá-lo de Rambo para agradar nos trópicos. O resultado é surpreendente no aspecto estético. Mas devedor em coerência e praticidade.

De minha parte acho estranho o Aircross nas configurações topo, com motor 1,6-litro e câmbio automático, só existirem com o estepe externo, o que implica na comentada (e trabalhosa) manobra para abrir a tampa traseira para ter acesso ao porta-malas. Deve ter gente que não se incomoda, deve ter quem não compre por causa disso. Em minha opinião, versão topo sem o look aventureiro era obrigatória.

Lado bom neste Aircross fantasiado de off-road são os pneus Pirelli Scorpion ATR, exclusivamente. A banda de rodagem tem visual off mas o comportamento em asfalto está longe de ser ruim. Certamente é um pneu mais barulhento que um normal e quando a tocada fica mais “alegre” o Scorpion deve na aderência. Mas compensa não apenas no aspecto óbvio, no piso não pavimentado, como também no enfrentamento das crateras, da pavimentação degradada cada vez mais comum no Brasil onde quer que seja.

No período de uso do Aircross tive a chance de viajar com o carro carregado, inclusive usando o teto e suas robustas barras longitudinais. Rodei 500 quilômetros tanto em rodovia excelente quanto em estrada de terra. Piso seco e piso molhado. O cardápio promoveu os Pirelli Scorpion ATR assim como o ajuste das suspensões, que nessa última edição do Aircross recebeu acertos, resultando em um agradável mix: não é exageradamente macia e tampouco áspera. Não deixa o carrinho, que é alto, inclinar de maneira exagerada em curva e com carga plena não sofre com um excessivo afundamento. É o que se espera de um utilitário.

Apesar do saudável comportamento dinâmico, o Aircross deveria estar equipado com controle de estabilidade e de tração. Do primeiro não senti falta mas se tivesse que desviar de um imprevisto, um animal cruzando a via, rodando nos 120 km/h da lei com carro carregado, preferia ter o controle de estabilidade do que não. Já o controle de tração, este sim, senti falta: subir o morro na estradinha de terra molhada exigiu atenção e em mais de uma curva apertadinha a roda interna se entregou ao giro inútil sem empurrar o Aircross para a frente como deveria. Compensou um pouco o pneu misto, mas a eletrônica deveria ajudar o Aircross a cumprir melhor suas tarefas.

Se o ajuste de suspensões merece, no meu modo de entender, uma nota 8, o conjunto motor e câmbio não chega a tanto. Especialmente carregado, o 1,6-litro deve respostas mais ágeis, especialmente nas retomadas. Os 122 cv declarados (com álcool; se gasolina cai para 115 cv) parecem poucos para fazer progredir a massa não indiferente (pesa 1.328 kg) e uma área frontal grande que não contribui muito para a desenvoltura. Mas em velocidade de rodovia (120 km/h) vai tranquilo com o motor a 2.400 rpm.

citroen-aircross-03  CITROËN AIRCROSS 1,6 AUTO SHINE, NO USO Citroen AirCross 03

O bom motor 1,6 de 115/122 cv pena um pouco para deslocar o Aircross Shine; não tem injeção de gasolina para partidas a frio com álcool

Reflexo ocorre na média de consumo. Na porção da cidade de São Paulo onde rodo usualmente, cheia de sobes e desces, faz 6 km/l com álcool e 8 km/l com gasolina. Na estrada estes números sobem a 9,5 km/l e 11,5 respectivamente. Um pé mais atento que o meu faria melhor? Sim, mas não muito. Como referência, o consumo Inmetro/PBVE é 10,2/11,7 km/l cidade/estrada com gasolina e 7,2/8,2 km/l, idem, com álcool.

Algo que gosto muito no Aircross é a insonorização. Pouco se ouve do motor e mesmo do ruído urbano. Apesar de um ou outro cri-cri nos acabamentos internos onde reina o plástico, este Citroën é silencioso. Outra coisa que me agrada é a conformação dos bancos dianteiros, confortáveis, gostosos, e que oferecem uma postura de condução  “sentada” e uma ergonomia que só peca pelo posicionamento da alavanca do câmbio, baixa demais. E ainda falando do interior, gostaria de no futuro ver o Aircross ter seus porta-objetos revolucionados, pois nenhum cumpre bem seu papel, seja por estar localizado, seja por não ser bem desenhado.

Por último, uma menção, positiva, sobre a sensibilidade do pedal do freio. Mais do que oferecer uma frenagem potente, o Aircross é um bom exemplo de pedal de freio que permite uma modulação precisa, algo especialmente útil tendo em vista, inclusive, o fato de ele vir dotado de pneus que no asfalto oferecem uma aderência peculiar se comparados à pneus convencionais. A intervenção do ABS não é excessiva e o conjunto transmite segurança.

Compraria o Aircross 1,6 Auto Shine? Sinceramente não e a única razão é a que você já imaginou, a ojeriza à manobra que aquele pneu pendurado exige para a abertura do porta-malas. Ao constatar isso me dei conta que talvez eu seja um usuário incomum, que tem necessidade de abrir e fechar tal compartimento, pois vivo carregado de mochilas, malas, compras e badulaques que não gosto e nem posso deixar exibidos na cabine. Se não tivesse esse tique, o pãozinho de forma da Citroën atenderia meus anseios, bom cumpridor dos trajetos urbanos, bom carregador de tralhas e gentes nas viagens de fim de semana. E, pensando bem, perto do que há por aí nem tão caro assim pelo que oferece.

citroen-aircross-14  CITROËN AIRCROSS 1,6 AUTO SHINE, NO USO Citroen AirCross 14

RA

 

FICHA TÉCNICA NOVO CITROËN AIRCROSS 1,6 AUTO SHINE 2017
MOTOR
Denominação do motor120 VTi Flex Start
Tpo de motorOtto, arrefecido a líquido, flex
Material do bloco/cabeçoteFerro fundido/alumínio
Nº de cilindros/disposição/posiçãoQuatro/em linha/transversal
Diâmetro x curso (mm)78,5 x 82
Cilindrada (cm³)1.587
Taxa de compressão (:1)12,5
Nº de com. de válvulas/localizaçãoDois, no cabeçote; fase variável no de admissão
Acionamento dos comando de válvulasCorreia dentada
Nº de válvulas por cilindroQuatro
Potência máxima (cv/rpm) (G/A)115/6.000 / 122/5.800
Torque máximo (m·kgf/rpm) (G/A)15,5/4.000 / 16,4/4.000
Formação de misturaInjeção no duto
SISTEMA ELÉTRICO
Tensão/alternador (V/A)12/55
TRANSMISSÃO
TipoTranseixo dianteiro automático de 4 marchas + ré, tração dianteira
Relações das marchas (:1)1ª 2,727; 2ª 1,500; 3ª 1,000; 4ª 0,711; ré 2,455
Relação do diferencial (:1)3,48
SUSPENSÃO
DianteiraIndependente, McPherson, braço triangular transversal, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra estabilizadora
TraseiraEixo de torção, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra estabilizadora integrada ao eixo
DIREÇÃO
TipoPinhão e cremalheira, assistência elétrica indexada à velocidade
Diâmetro do volante de direção (mm)375
Diâmetro mínimo de curvan.d.
FREIOS
Dianteiros (Ø mm)Disco ventilado, 266
Traseiros (Ø mm)Tambor, 229
OperaçãoServoassistência a vácuo, ABS, EBD e assistência à frenagem de emergência
RODAS E PNEUS
RodasAlumínio, 6Jx16
Pneus205/60R16H (Pirelli Scorpion ATR)
CONSTRUÇÃO
TipoMonobloco em ação, crossover, 4 portas, 5 lugares
DIMENSÕES (mm)
Comprimento4.307
Largura sem espelhos1.767
Altura1.742
Entreeixos2.542
CAPACIDADES E PESOS
Compartimento de bagagem (L)403 (1.500 com banco traseiro rebatido)
Tanque de combustível (L)55
Peso em ordem de marcha (kg)1.328
Carga útil (kg)400
DESEMPENHO
Aceleração 0-100 km/h (s)n.d.
Velocidade máxima (km/h)n.d.
CONSUMO DE COMBUSTÍVEL INMETRO/PBVE
Cidade (km/l) (G/A)10,2 / 7,2
Estrada (km/l) (G/A)11,7 / 8,2
CÁLCULOS DE CÂMBIO
v/1000 em 4ª (km/h)49,7
Rotação a 120 km/h em 4ª (rpm)2.400
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
Intervalo de revisões/troca de óleo1 ano ou 10.000 km
GarantiaTrês anos

Sobre o Autor

Roberto Agresti

Experiente jornalista especializado em veículos de duas rodas e editor e publisher da revista Moto! desde 1994. Além de editor do AE também tem a coluna semanal Dicas de Motos no G1 e é comentarista da rádio CBN no programa CBN Moto, aos domingos às 11h50.

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  • Ronaldo, o Agresti viajou ontem à Itália e quando fora não acessa tanto o site. Se ele nada comentou é porque o câmbio atende às necessidades.

  • Andre Sampaio

    Tenho um Tucson pelo mesmo motivo que você e me atende muito bem, mas tenho que confessar que estou louco para pegar uma Golf Variant, o problema é o preço.

  • João Vicente, certamente, mas você não teria o Aircross. Há duas maneira de escolher qualquer produto, por o que ele é e pelo preço.

  • João Guilherme Tuhu

    Um produto muito caro pelo que oferece. E concordo com o articulista: não compraria, exatamente em razão deste horroroso estepe externo. Uma versão completa, sem esse abscesso na traseira, com preço mais palatável, poderia ter sucesso.

    • Lorenzo Frigerio

      “Abscesso” é boa! Eu chamaria até de “furúnculo”.

  • Eduardo Sérgio

    Eu tinha um Renault Clio e fui surpreendido com a aparição de um misterioso amassado na ponta do capô. O que teria provocado aquilo? Grade e parachoque estavam íntegros! Provavelmente a resposta esteja nos estepes pendurados na traseira desses esquisitos veículos aparelhados para a guerra urbana.

    • Fernando

      Detalhe: para a guerra que não existe.

  • Eduardo Edu

    Sei lá, a inflação corroeu minha maneira de escolher carros. Mas que a atual tendência de minissuves está colocando em xeque a existência dessas versões “Rambo” que as fábricas disponibilizaram para o consumidor assim como o estepe para fora, está.

  • guest, o original

    Acrescento que, segundo a ficha técnica disponível no sítio da Citroën, com motor de 1,6 l também há a versão Live, apenas com câmbio automático, a partir de R$ 64.690 (talvez com melhor custo-benefício em relação à versão Auto Feel, que custa a partir de R$ 68.290 e pouco agrega em equipamentos). Surpreendeu-me ainda constar versões do Aircross com o motor de 1,5 l, substituídos nos outros carros da PSA pelo motor tricilíndrico.
    Gosto do desenho do carro, principalmente nas versões “civis”. Pena ser tão pesado…

    • Afonso Tesch Moussaoni

      O 1,2 não empurraria muito bem os 1.300 kg desse carrinho. Na Europa, o C4 Cactus conta com os PureTech 82 e THP 110, mas pesa em torno de 1.000 kg. Já está na hora de dar as caras por aqui…

  • guest, o original

    Provavelmente você vai me criticar, mas se o principal motivo para escolher um carro é “a necessidade de um porta-malas grande e de fácil acesso”, ainda mais para quem tem um sedã médio, a escolha racional é o Chery Celer Sedã.

  • Geovane Paulo Hoelscher

    E o melhor é que, sem o pacote aventureiro o preço cairia um bocado.

  • Roberto Alvarenga

    A Grand Livina seria uma boa. O problema da SpaceFox é o preço…

  • Diney

    Se interessar, estou vendendo ouvtrocando C3 picasso AT 12/13 com 16 mil km. Pois não preciso mais do espaço que o carro oferece. (Moderador, não lembro se este tipo de mensagem é permitido, se não for; desconsidere a mensagem).

    • Diney, tratando-se de comentário de leitor conhecido como você é perfeitamente aceitável.

    • Roberto Alvarenga

      Obrigado, mas não tenho interesse. Abraços!

  • Christian Govastki

    Estes 644 l que eles consideram é até o teto. Acredito em algo, até o nível do vidro algo como 350/380l.

  • Alex N.

    Se precisar abrir esse porta-malas numa baliza apertada, pelo que vi pela foto é impossível.

  • rpl

    A posição da alavanca de câmbio realmente é muito ruim, fruto da tropicalização que compartilhou peças demais com o C3 original. O modelo europeu tem um painel muito mais atraente e com alavanca em posição elevada, adequada à maior altura dos bancos.

    • Afonso Tesch Moussaoni

      O interior do C3 brasileiro, com radinho Pioneer, já é uma gambiarra. Esse do AirCross então, com a multimídia desalinhada, é uma piada de mau gosto. Falta porta-trecos num Citroën!

  • m.n.a.

    Vento é “wind”, essas seriam traduções pra lá de “forçadas”…

    Na verdade é um nome ridículo, na minha opinião, mas claro que gosto não se discute!