O título da coluna de hoje tem a ver com um causo — inédito — enviado pelo leitor do AE e da coluna “Falando de Fusca & Afins”,  Thyago Szoke, que mostra no que o amor de um menino pela Kombi pode resultar.


 

“Quer andar na jabiraca?”

Por Thyago Szoke

“Seu” Francis é o vizinho de frente da casa de veraneio dos meus avós, na Praia Grande, município da região metropolitana da Baixada Santista. Um senhor alto e forte, de voz pausada, mas firme, e enorme simpatia. Mas o que ele está fazendo nesta história?

Explico: ele, a esposa e três filhos são vizinhos dos meus avós desde a construção da sua casa, em 1981. Patriarca de uma família muito boa, educada e solícita, como aquelas de antigamente, era companhia para horas de conversa com meu avô.

Sempre fui fã, desde pequeno, de ouvir conversa dos adultos. Gostava da companhia e das histórias contadas, mesmo que censuradas em muitos aspectos. Não dispensava uma boa brincadeira com crianças da minha idade, mas quando havia uma roda batendo papo… lá estava eu, como ouvinte. E era um prazer ouvir o “seu” Francis, morador do ABC paulista, região tão importante na história da indústria automobilística brasileira.

Me recordo de quando estávamos na casa de praia e eu ouvia ao fundo aquele inconfundível ronco do motor 1600 “a ar”. Era o “seu” Francis chegando! Eu ia até o muro só para vê-lo encostar sua Kombi cabine-dupla 1982 branca na garagem (foto acima). Ela possuía uma capota de lona que cobria toda a caçamba e facilitava o transporte de bagagem sem molhá-la muito quando chovia.

Aquela Kombi me fascinava. O ronco dela, quando ligada, era inconfundível — aquele timbre mais agudo, típico dos 1600 pré-catalisador, é algo que me vem à memória imediatamente quando escuto um motor desses ligado: é aquela Kombi que dá a partida nos meus pensamentos.

Eu sempre torcia para ele deixá-la estacionada na frente de casa, pois era um motivo para eu fuçá-la em detalhes: olhava cada risquinho de sua pintura, cada serigrafia dos vidros, cada emblema VW gravado nas peças. Me fascinava! E, ao mesmo tempo, me dava uma enorme vontade de descobrir como era andar numa Kombi.

Como um garoto tímido nos meus 7 ou 8 anos, morria de vergonha de pedir para ele me levar para dar uma volta. Mas a admiração por Kombi era mais forte, o que me fez juntar todas as minhas forças e pedir, um dia que estava com meu avô na calçada do “seu” Francis, quando conversavam. De bate-pronto, ele respondeu:

— Dar uma volta na Jabiraca? Ah, uma hora dessas eu te levo!

Pronto. Foi o suficiente para eu não conseguir dormir à noite à espera do momento que ele tiraria a Kombi da garagem. E assim foi, dia após dia, até que ouvi o motor dela ligado. Pensei: “É agora! ” e corri para o muro de casa. Decepção: “seu” Francis iria resolver alguns assuntos “de adultos” na prefeitura e eu não iria andar na Kombi.

Confesso que fiquei absolutamente decepcionado. E tenho total ciência de que ninguém ali conseguia me compreender, uma criança que em vez de ficar querendo pôsteres de carros importados nas paredes do quarto, desenhava Kombis. Novamente, o que eu mais ouvia era coisas como “que besteira, tanto carro legal por aí e você interessado em Kombi! ”, ou “depois vamos até à avenida para você ver o carro importado do vizinho”, e por aí vai.

Horas se passaram e eu, absorto em meus pensamentos, ainda lutava para deixar a chateação de lado e voltar para minhas brincadeiras com carrinhos. Até que ouvi a Kombi do “seu” Francis vindo pela rua (eu a reconhecia a distância) e não dei bola, preferi ignorá-la, como que uma punição psicológica àquela que me renegou.

Eu estava na varanda, com meu pai, que estava fazendo palavras cruzadas dado uma  mudança de tempo na praia que trouxe um frio considerável e garoa fina. Por algum motivo, olhei na direção da rua e vi a Kombi passando reto pela nossa casa. Me amaldiçoei outra vez por lembrar da minha tristeza e, quando olhei novamente para meus carrinhos no chão, a Kombi voltou após manobrar na esquina e parou em frente de casa. “Seu” Francis, cabelos grisalhos encaracolados, com a cabeça para fora da janela, olhou para mim ao mesmo tempo e disse: “Quer andar na jabiraca? ”

Não havia carro esportivo que cobrisse a distância da varanda da minha casa até à Kombi em menos tempo do que eu fiz naquela manhã de 1991. Lembro que um nervosismo tão forte tomou conta do meu corpo que eu tremia e meu pai trouxe um casaco para mim achando que eu estava com frio. Ele quis ir junto e lá fomos nós.

Lembro de, finalmente, entrar naquela Kombi, que tanto namorei de vidros fechados e portas trancadas. O cheiro característico dos VW a ar estava lá: só quem tem um é que sabe qual é. Fiquei impressionado com o espaço, mesmo indo sentado no meio.

O banco já havia sido refeito, era forrado com um tecido preto simples, mas confortável. Olhei para o banco traseiro e vi que o mesmo era original, de courvim. No mais, tudo original, incluindo a iluminação no centro do teto, característica das cabine-dupla. Achava curiosíssimo a traseira ter apenas uma porta, do lado do passageiro, um veículo legitimamente três-portas (Veloster quem?). Procurei me recompor e aproveitar ao máximo aquele momento.

Ele saiu com a Kombi com suavidade, acelerando pouco, mas o suficiente para eu ouvir aquele tão característico ronco médio para agudo, enquanto o banco de molas me fazia saltar a cada solavanco da rua, pavimentada com bloquetes sextavados de cimento. Foi até à avenida e entrou à direita, ganhando o asfalto e uma condução refinada, que na minha concepção não devia nada ao Del Rey 1987 que meu pai tinha à época. Embora estivesse um pouco frio e garoando, havia muita gente nas ruas, o que evitou que ele passasse de 40 km/h — o que achei ótimo, pois meu passeio não iria acabar tão rápido.

A primeira surpresa que tive e, confesso, achei muito estranho, foi quando passamos por uma lombada. Acostumado com carros comuns, esperava que a frente subisse e, logo depois, eu subisse. Porém, por estar sentado diretamente sobre o eixo dianteiro, quem subiu fui eu, e sendo uma lombada razoavelmente alta, vi o chão se aproximando de mim na descida. Até hoje acho um dos aspectos mais fascinantes da Kombi, essa localização do banco dianteiro.

Após oito quadras, ele manobrou e voltou. Vim olhando cada textura do painel, sentindo cada molejo do banco e da suspensão, aquele ronco inconfundível, mas distante pelo motor estar num compartimento separado da cabine. Parou em frente de casa, agradeci muito o passeio e pensei: preciso ter uma Kombi!

Sabe aquele amor platônico, que você vê passar na rua e fica com vergonha quando olha de volta para você? Pois esse amor platônico não só me olhou de volta, como me deu um abraço, e me levou para um passeio de mãos dadas.

Agora, eu precisaria de um plano para conseguir uma Kombi para mim. Quanto tempo mesmo faltava para o Natal?


 

ag-49a-foto-01

Thyago em uma Kombi “Corijinha” em evento de 2014 em Interlagos

Nosso leitor aqui no AUTOentusiastas, Thyago Szoke, 34 anos, é paulistano,  respira automóveis praticamente desde que nasceu, tamanho é seu fascínio por este meio de transporte. Autodidata, estuda há décadas o mercado automobilístico brasileiro e mundial; antigomobilista assumido, tem na Kombi sua verdadeira paixão, sem deixar de lado a admiração por outros carros, antigos e novos. Desde 2005 preside o Santana Fahrer Club, entidade sem fins lucrativos que reúne aficionados pelo saudoso carro de luxo da Volkswagen que fez muito sucesso nos anos 1980 e 1990.

Este é mais um interessante capítulo relatando este intrigante relacionamento entre homem e “máquina”, onde as aspas na “máquina” são para indicar que em muitos casos, para seus donos, ela tem vida a tal ponto que vários fãs destes carros relatam que falam com seus carros, e outros dizem que, da alguma maneira, eles respondem…

AG

A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


  • Lorenzo, como tem idiota, é impressionante. Cada vez mais!

  • Leandro, ambos.

  • Posso imaginar a farra da garotada na caçamba da C-14, caro Mr. Car…
    Estas experiências é que nos enchem de uma gostosa saudade de nossa infância.
    Lembro de meus sobrinhos, quando pequenos. Minha irmã e meu cunhado vieram da Alemanha para dar aulas no Colégio Porto Seguro. E quando os sobrinhos foram crescendo ele adoravam andar comigo no Fusca com o teto solar aberto e eles em pé sobre o banco traseiro, Meu sobrinho Kalex é quem puxava o coro, falando com forte sotaque alemão, repetindo: “Rosinha-Auto”, até que saíssemos para uma volta…
    Grato por reportar as suas experiências com a picape do tio Zezé.

  • Devia ser o ponto alto para você, caro Luciano Gonzalez, dar a partida no carro se seu pai…
    E certamente, nos fins de semana, em algum lugar ermo, sobravam alguma “pilotagens” do jovem petiz….

  • Excelente apanhado histórico, caro e douto amigo André Antônio Dantas!
    Colocado de uma maneira muito didática.
    Uma beleza!

  • Cristian_Dorneles

    Gostava mesmo de ficar sentado, ”dirigindo” ela por horas à fio… Alisando seu volante branco enorme, passando marchas…. tinha 7 anos, e até então não tinha ”despertado” para a a maravilha chamada carro. Tempos bons, inocentes, não voltam mais….

  • Luiz

    Quando eu era garoto lá pelos idos de 1981, todo o ano ia passar as férias no litoral de Santa Catarina, na casa de meus tios. Meu outro tio que morava em São Paulo costuma passar as festas de Natal e Ano Novo lá. Meu saudoso tio Moacir tinha um Puma GTS cinza metálico 1978 e costumava abaixar a capota, colocar eu e meus primos no carro, ao som das Patotinhas ou dos Três Patinhos e nos levar para passear pela cidade. Ah, como nós adorávamos aqueles passeios! Como coisas absolutamente simples podem nos trazer tanta felicidade!

    • Matuck

      Meu Deus! Patotinhas e Três Patinhos! Você desenterrou memórias bem antigas em mim. Uau…

      Vi-me na sala de nosso antigo apartamento pegando os discos. O dos Três Patinhos era amarelo, o das Patotinhas estava riscado. Eu tinha também outro de historinhas, o Ratinho e o Leão, que era verde. Caramba, que memória forte de ser revivida… Sensação boa demais.

      Minha tia, que é minha segunda mãe, tinha um Puma vermelho lá por 1982. Também consegui me lembrar da última vez que andei nesse carro, fomos a um supermercado. Logo depois o Puma foi vendido e minha tia me levava no Dart da minha avó. Essa tia adora carros, guia muito (acompanhá-la em trechos de serra é duro), foi minha primeira influência como autoentusiasta. Ótimo, agora o velho ogro aqui se emocionou.

      Sua história fez-me reviver a minha. Obrigado!

  • Cara, FlatOut e AE são as bíblias para quem gosta de carros e boa escrita, cultura, etc.

  • Lorenzo Frigerio

    Um grande intelectual do Rio foi José Guilherme Merquior. Aliás, um dos raros intelectuais de direita. Ele lia e estudava muito e pegou a Marilena Chauí cometendo plágio numa tese. Ela nunca mais foi a mesma.

  • Francamente, Lorenzo, defender bandido? Defender maconha? Decepção.

    • Lorenzo Frigerio

      Pau que bate em Chico também tem que bater em Francisco.

  • Rubergil Jr

    “Doria precisa ouvir a engenharia de trânsito”

    Ué, desde quando engenharia de trânsito existe no Brasil?

  • Nora Gonzalez

    Alexander Gromow, delícia de história! Tenho uma família argentina muito amiga que quando veio para o Brasil tinha em mente comprar uma Kombi. Sabe como é, casal e seis (6!!!) filhos. Mas aí alguém disse para eles que era carro de pobre — ou algo assim — e optaram por um belo Opala. Mas obviamente não cabiam todos e as viagens estavam limitadas à lotação do veículo. Grande erro, na minha opinião. Nada substitui uma viagem em família, com todos juntos.

  • Newton (ArkAngel)
  • Mike, tudo é resultado do maldito patrulhamento. Parece que as pessoas adoram patrulhar, se sentem importantes.

  • Ronaldo, não podemos nunca nos dar por vencidos. É combater os idiotas sempre, sem esmorecer. Como você vez e por isso tem os meus parabéns!

  • Fat Jack

    “… (olha o politicamente incorreto aí gente!)…”
    Bem-vindo ao clube! Tenho um filho com 17 e já saímos diversas vezes para o seu aprendizado, e não tem outra forma haja visto que a autoescola não cumpre seu papel de “escola” e no máximo ensina macetes de como finalizar a avaliação.