A Ferrari não perde o sono com as críticas: todo o lote do Aperta foi vendido antes mesmo de o carro entrar em produção

Design de automóvel costuma despertar polêmica e nem sempre agrada a gregos e troianos. Quando a Fiat lançou o Uno no Brasil, foi logo chamado de “bota ortopédica”. Os marqueteiros de Betim correram para explicar: novidade que foge do padrão pode desagradar no começo mas depois emplaca durante uma vida e mais seis meses. Ao contrário dos que já chegam considerados “bonitinhos” ou “avançadinhos”: suas linhas cansam e são logo rejeitadas. O tempo provou que os italianos estavam corretos: o Uno durou “só” 29 anos.

Mas, o “feio” emplaca? Alguém acabou se encantando por aquela horrenda picape SsangYong Actyon? E o BMW X6, verdadeiro monstrengo de linhas abrutalhadas? Pois não é que este “quasímodo”, misto de SUV com cupê, conquista admiradores, clientes e a BMW ainda ri de quem a critica, pois a Mercedes a tomou como referência e lançou um trambolho semelhante chamado GTE.

Estas aberrações de estilo me vieram à lembrança na semana passada, no Salão de Paris. Um dos estandes mais badalados de qualquer mostra de automóveis é o da Ferrari. Que este ano exibia o Aperta (foto acima), uma versão meio conversível do LaFerrari (Aperta é aberta em italiano), forte candidato ao troféu feiura.  E páreo duro para outro cavallino que também estreava no estande, o GTC4Lusso,  versão mais simples do horroroso FF, primeiro modelo da marca com quatro lugares e tração integral, lançado em 2011 e ainda em produção. O motor do GTC4 perdeu quatro dos 12 cilindros, dispensou a tração integral do FF e tentou reduzir o impacto de suas linhas grosseiras. Mas ficou na intenção.

Aliás, a Ferrari decidiu fazer do salão francês o marco inicial para comemorar 70 anos de seu primeiro modelo (1947), festejados com a produção de  séries especiais que remetem a detalhes e cores de cinco de seus ícones.   A ideia de levá-los ao estande ressaltou o paradoxo entre as maravilhas criadas por Pininfarina no passado e as extravagâncias atuais da marca. Dos cinco, o California T (“The Steve Mc Queen”, referência ao Berlinetta Lusso 1963) é o mais harmonioso e remete aos tempos em que a Ferrari, além produzir os carros mais rápidos do mundo, exibia linhas elegantes e harmoniosas. Hoje, além do túnel de vento que limita a criatividade do designer, exagera nos penduricalhos estéticos raramente utilizados no passado. As linhas limpas e sedutoras de seus ícones das décadas de 70 e 80 (ah… que saudade do 275 GTB4…) deram lugar a defletores e aerofólios arrebatadores e pinturas metálico-acrílico-florescentes dignas dos mais bem elaborados hot rods da periferia.

Assim como a BMW com seu X6, a Ferrari não perde o sono pelas eventuais críticas aos seus recentes lançamentos: o Aperta, por exemplo, só foi levado ao Salão de Paris para marcar presença institucional, pois o lote limitado de 200 unidades foi vendido antes mesmo do início de sua produção em série.

Mas, se o passado vale como referência, o futuro avalizou as ácidas críticas dirigidas a alguns lançamentos da marca há 30 ou 40 anos. Apesar de assinado por Pininfarina e ter um poderoso V-12 sob o capô, o 400 i (década de 70) foi projetado especificamente para o mercado americano e o primeiro filho da Casa de Maranello com câmbio automático. O design está mais para russo que italiano e prova disso é sua rejeição pelos colecionadores: se qualquer outro Ferrari V-12 desta época não está cotado por menos de US$ 200 mil, o 400 i mal chega a US$ 50 mil. Outro deslize estético da marca, o Mondial (V-8, década de 80), dá para comprar por menos ainda…

Qual valerá mais dentro de 30 anos:  California T ou  FF?

BF

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A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


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  • Anderson Luiz Dias

    Me interessei por esse 400i…vou comprar.

  • Eduardo Mrack, inclusive eu, que o dirigi na pista de Fiorano, teste para a revista Autoesporte em 1995.

  • Fernando

    Eu acho que o FF é horrível, claro que para um Ferrari. Se fosse um Alfa a história era outra.

    Para mim, Ferrari que me desperta sempre atenção é o 550. Olha o ronco neste vídeo do filme Bad Boys II: https://www.youtube.com/watch?v=PW5p3VKg3uA
    O que é aquele Ferrari puxando cavalo de pau, patinando… não fazem perseguições assim nos filmes mais.
    Pergunta, talvez o Bob saiba responder: é possível repetir esta perseguição com um Ferrari moderno, principalmente quando na cena que ele puxa o cavalo de pau, manta bala nos bandidos e rapidamente engata a ré. Creio que esse pensamento rápido não é possível fazer em um Ferrari com câmbio robotizado, pois teria que caçar onde estaria o botão da ré em vez de automaticamente deslizar pela grelha que me parece mais intuitivo, hehehehe. Só uma curiosidade.

  • WSR, sim, em Interlagos numa seção de filmagem. Andei bastante com ele. Mas o 355 é bem melhor de atitudes e tinha câmbio manual normal, além de uma coisa que reputo essencial (e só vi até hoje nele); interruptor para desligar o ABS. O 430, robotizado, nem alavanca tinha, eu ficava procurando-a…

  • André K
  • André K

    Depende muito do referencial… para ficar na mesma marca: https://en.wikipedia.org/wiki/Fiat_Multipla

  • André K

    F-Zero era ótimo!

  • Eduardo Mrack, além do fato e do carro em si, ao chegar ao portão de acesso à propriedade e ler a placa “Pista di Fiorano” deu tremedeira.

  • Maycon, o F430 de 2004 era V-8. Assim de pronto não sei dizer mais.

  • Lorenzo, ao trafegar sobre asfalto ondulado e frear, em que o ABS é “enganado”, acha que a roda está travando e o freio atua menos. Hoje esse problema praticamente não existe mais.

  • Eduardo Sérgio

    Eduardo Mrack,
    Um dos aspectos que confirma o pouco autoentusiasmo de muitos abastados ao adquirir carros como os Ferrari é o impressionante descaso com o uso ou manutenção desses modelos, inclusive chegando ao cúmulo de ser destruídos em acidentes estúpidos, muitas vezes em clara demonstração de soberba, apenas, pois via de regra sequer são cobertos por seguro.

    Quem incendeia a própria Ferrari 458 com a intenção de adquirir o modelo 488 é digno de ser chamado de tudo, menos de entusiasta – exatamente como você mencionou em seu comentário -, já que seu prazer está na ostentação e não na condução.
    http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2015/08/suico-coloca-fogo-na-propria-ferrari-porque-queria-modelo-mais-novo.html

    • Eduardo Mrack

      Sinal de fraqueza e falta de personalidade a tal da ostentação, para falar o mínimo. Eu a vejo como o exato oposto do entusiasmo. Usar e demonstrar coisas feitas pelos outros pela simples vontade de se promover ? Digno de pena.

  • Mineirim

    “Horrenda picape SsangYong Actyon” e “BMW X6, verdadeiro monstrengo de linhas abrutalhadas”: o Boris falou tudo!

  • Opiniões à parte, das quais algumas tem minha concordância parcial, este trecho “…E páreo duro para outro cavallino que também estreava no estande, o GTC4Lusso, versão mais simples do horroroso FF, primeiro modelo da marca com quatro lugares e tração integral, lançado em 2011 e ainda em produção. O motor do GTC4 perdeu quatro dos 12 cilindros, dispensou a tração integral do FF e tentou reduzir o impacto de suas linhas grosseiras. Mas ficou na intenção.”, é digno de uma criança de 12 anos que passou a gostar de carros ontem e não de um respeitado e experiente jornalista automobilístico.
    O que está sendo lançado é o GTC4Lusso T, versão de entrada do GTC4Lusso que substituiu o FF e teve seu lançamento oficial no Salão de Genebra, em março. O que se espera de um assunto abordado por um profissional com tamanha bagagem são informações corretas.
    Como ferrarista, faço um clamor para que troquem ou arrumem os teclados do departamento de nomenclatura de veículos, pois essa ausência de espaço nos nomes dos carros é muito incômoda.