Os machistas de plantão dizem por aí que carro e mulher não combinam a não ser com ela no banco do carona. Relendo a história, encontro a incrível Bertha Ringer, mulher perseverante que participou ativamente no nascimento e na popularização do automóvel.

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Bertha Ringer

Bertha Ringer, nascida em 1849 em Pforzheim, na Alemanha, casou-se com o inventor Karl Benz em 1872 e juntos começaram a dividir vários projetos mecânicos, alguns relevantes, outros nem tanto. E foi neste caminho, no ano de 1886, após quatorze anos de casamento, que nasceu uma maquina motorizada de três rodas, o Patent-Motorwagen, considerado o primeiro automóvel fabricado no mundo.  Exceto o casal Benz, ninguém mais acreditava no triciclo e até o repudiava por achá-lo perigoso circulando entre os pedestres. Karl não sabia mais o que fazer para convencer a população que seu invento era revolucionário e não tinha nada de perigoso.

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Patent-Motorwagen

Bertha, com inteligência e perspicácia, teve uma grande ideia para impulsionar o novo invento.  Ela como motorista e seus dois filhos como passageiros, saiu acelerando o triciclo em uma intrépida aventura de 104 quilômetros na região de Baden, com o objetivo de propagandear a funcionalidade da máquina. Imagine o leitor aquele triciclo barulhento com motor monocilíndrico, quatro tempos, de 1 HP a 400 rpm circulando a 20 km/h pelas picadas da região alemã. Durante a viagem de ida que durou dois dias com um pernoite no caminho, ela aproveitou o tempo para anotar todos os problemas observados e que serviram para Karl Benz fazer profundas melhorias no carro. Porém o fato mais relevante foi que a primeira piloto de testes do mundo levou uma multidão de curiosos à sua oficina, dando uma reviravolta positiva à imagem do triciclo.

E foi assim que o Patent-Motorwagen serviu de estímulo para que outros veículos fossem desenvolvidos, não somente por Karl Benz, mas por outros empreendedores dentro e fora da Alemanha.

Hoje o roteiro turístico Bertha Benz Memorial Route é preservado como homenagem a uma verdadeira lenda dos tempos em que dirigir automóveis ainda era uma aventura. O trajeto entre Mannheim e  Pforzheim, passando por Heidelberg, atravessa uma belíssima região vinícola e gastronômica, com diversas atrações que mantém viva a história da primeira mulher piloto no mundo, a inesquecível  Bertha Benz.

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Bertha Benz Memorial Route

E falando francamente, antigamente a maioria das mulheres não tinha voz ativa com respeito ao automóvel. Eram os homens que os escolhiam, compravam e curtiam os seus veículos e a mulher somente os contemplava passivamente. Automóvel era coisa de homem e mesmo a publicidade tinha ares masculinos, raramente aparecendo uma mulher a não ser como coadjuvante. Principalmente nas décadas de 1920 e 1930 eram raras as propagandas de automóveis que incluíam mulheres ao volante.

 

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Raro exemplo de propaganda Ford na década de 1920, valorizando a mulher, a família e o automóvel.

 

Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos grandes vencedores junto com os aliados, vivenciaram um enorme salto desenvolvimentista, abrangendo novas tecnologias, novos produtos e também novos carros com desenhos modernos e muito mais femininos em sua essência. Os anos dourados nas décadas de 1950 e 1960 foram um grande salto em termos da valorização da mulher. Ficou comum a presença feminina em propagandas, cartazes, salões do automóvel e mesmo em corridas onde a classe masculina predominava.

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GM LeSabre 1951, carro-conceito valorizando a mulher ao volante e no banco do carona

E pouco a pouco as mulheres começaram a decidir fortemente na escolha do automóvel em termos de estilo, cor, acessórios e itens de conforto; as fábricas começaram a entender que o toque feminino influenciava positivamente os veículos, alavancando fortemente as suas vendas. Realmente, a maioria dos veículos na época tinha uma sensualidade feminina notável em seus estilos. E foi neste período que a arte começou a dar seus recados com as famosas pin-up girls, por exemplo, desenhos de grandes artistas retratando a mulher e o automóvel como um conjunto inseparável. Bons tempos…

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E continuamente a mulher foi tomando o espaço no mundo do automóvel enfeitando este espaço que era puramente masculino. Quem não se lembra das meninas do grid em competições automobilísticas na década de 1970 e que perduram até hoje. E os salões do automóvel, com as meninas fazendo mais sucesso que as máquinas. Na realidade elas são as verdadeiras máquinas.

 

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Meninas do grid

 

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Meninas do Salão do Automóvel

Pilotar um automóvel de corrida não é a praia das mulheres, porém algumas se destacaram como foi o caso da espanhola Carmen Jordá Buades que já aos 17 anos estreando na Master Junior Formula, foi sétima colocada na temporada de 2005. Em 2009, Jordá competiu na Fórmula 3 na Europa, conquistando a nona posição em Magny-Cours como seu melhor resultado. Mesmo tendo desempenho discreto, foi contratada para disputar a Indy Lights Series em 2010, na equipe Andersen Racing, marcando 84 pontos em cinco corridas disputadas. No início de 2015, Carmen foi anunciada como piloto de testes pela equipe Lotus de Fórmula 1 e atualmente na Renault vem exercendo a mesma função. Carmen tem sido considerada a musa do automobilismo mundial.

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Carmen Jordá Buades

As mulheres certamente inventaram os suves. Vejo com frequência estes veículos grandalhões com mulheres na direção, seja em São Paulo, seja em Tatuí, onde resido atualmente. Elas realmente tomaram conta do pedaço, se sentindo poderosas ao volante destes veículos que pelo tamanho, ajudam a atrapalhar ainda mais o trânsito congestionado das grandes cidades.  Hoje em dia elas possuem poder aquisitivo para comprar o que quiserem sem depender de ninguém, o que faz a grande diferença em relação ao passado recente.

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Mulher combina com  suve

E certamente foi a Ford que acelerou este processo, sendo a primeira fábrica a apostar no segmento de utilitários esporte compactos.  O programa Amazon, em meu ponto de vista, foi o melhor programa da Ford em toda a sua história no Brasil e foi parte importante para o sucesso da globalização da companhia como um todo. O Amazon não foi somente um programa de carros, mas de construção de uma fábrica com a logística dos fornecedores dentro do complexo fabril. Foi em 2002 que o EcoSport foi apresentado ao público no Salão do Automóvel de São Paulo, causando grande aglomeração dos visitantes para ver o novo jipinho da Ford. O “Eco” chegava às ruas em 2003 causando correrias às concessionárias que acumulavam pedidos antecipados do novo Ford.  Todos queriam conhecer e comprar o suve derivado do Fiesta. O EcoSport foi imbatível em termos de custo benefício, com seu desenho espartano de jipinho, seu espaço interno com excelente posição elevada de dirigir e a excelente visibilidade. E com todas estas características importantes, ele se tornou o queridinho das mulheres, sendo adorado por dez entre dez proprietárias.

03/01/2012. Credito: Ford/Divulgacao.Vrum - Linha do tempo do EcoSport: Ecosport 2004 4x4.  MULHERES E AUTOMÓVEIS eco 4wd

EcoSport 4WD (foto de divulgação)

Enfim, parabéns as mulheres que por mérito próprio, conseguiram se posicionar fortemente no mercado de trabalho, enfeitando com charme o espaço das quatro rodas. Meu desejo é vê-las cada vez mais, integradas ao mundo dos autoentusiastas.

Hoje a homenagem vai para o Renault Duster , também queridinho delas, que com seu projeto cópia, porém inteligente, conseguiu fazer frente ao EcoSport , deixando a Ford “com as barbas de molho”.

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Renault Duster (foto de divulgação)

CM

Créditos: classicchevy.com – globoesporte.globo.com – pinterest.com – google images – tamannakanwar.com

Sobre o Autor

Carlos Meccia

Engenheiro mecânico formado pela FEI (Faculdade de Engenharia Industrial) em 1970, trabalhou 40 anos na Ford brasileira até se aposentar. Trabalhou no campo de provas em Tatuí, SP e por último na fábrica em São Bernardo do Campo. Dono de amplo conhecimento de automóveis, se dispôs a se juntar ao time de editores do AUTOentusiastas após sugestão do editor Roberto Nasser.

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  • Alexandre Zamariolli

    Falando em mulheres e carros, e parafraseando o Meccia, quero deixar aqui minha singela homenagem a uma grande mulher.
    Que, tendo aprendido a dirigir em um Willys Jeep, e sem jamais haver dirigido em uma cidade grande, saía de Osasco e ia até o Ipiranga, em São Paulo, ao volante de um Opala 1972 de três marchas, levando meu pai — impossibilitado de dirigir devido a uma fratura na cabeça do úmero — para a fisioterapia no Sesi com duas crianças pequenas no banco traseiro.
    Que, ao se mudar do interior paulista para Joinville, a 700 km de distância, foi dirigindo um de nossos dois Corcel 1975, enquanto meu pai dirigia o outro.
    Que, em Joinville, escolheu para a família nosso carro mais bacana até então, um tremendo Opala 250-S, hoje em minhas mãos.
    Que logo percebeu minha paixão por carros e despejou litros e mais litros de gasolina na fogueira, comprando todos os carrinhos de brinquedo e as revistas automobilísticas que caíssem na minha frente.
    Obrigado, mãe.

    • Alexandre, que linda reverência à sua mãe, parabéns.

    • Alexandre Zamariolli, parabéns pelo relato e pela homenagem à sua mãe.

  • m.n.a.

    Não é querer ser chato, mas é fato: aqui em Curitiba, pelo menos 6 em cada 10 mulheres ao volante estão prestando mais atenção no WhatsApp que no trânsito…

  • Fat Jack

    “…As mulheres certamente inventaram os suves…”
    Ou um marketeiro digno de troféu.
    Mulheres no volante são realmente partes do cotidiano, guiando SUV sempre que possível (não conheço uma que não goste, mesmo a minha que considero “ponto fora da curva” adoraria ter um), bem mais difícil é uma que saiba trocar um pneu ou goste de antigos, esportivos o seja entusiasta.
    O autoentusiasmo ainda é um reduto masculino na essência a meu ver, basta um breve olhada em qualquer evento sobre o tema, as mulheres ficam tão confortáveis quanto homens em eventos de artesanato.
    A grande mudança foi que o mercado deixou de desconsiderar as mulheres como público alvo.

    • Nora Gonzalez

      Fat Jack, mulher que sabe trocar um pneu, gosta de carros antigos, esportivos e seja entusiasta? Presente!!! Mas, sim, somos poucas. Geralmente converso sobre esse assunto com homens ou comigo mesma, kkk.

      • m.n.a.

        Legal, sim, são pouquíssimas !

        Você, como colunista do AE, qual sua opinião sobre meu comentário, a maioria delas no WhatsApp?

    • Fernando

      Felizmente a minha esposa não deseja um SUV, e nem vê vantagem em se sentir alta dentro de um, nem usar o carro(maior) para pressionar os outros, mas realmente é o que vejo acontecer muito nas ruas.

      Mas também, ela gosta de antigos e esportivos, já é um ótimo indício.

  • Nora Gonzalez

    Meccia, lindo post! Adorei a história da sra. Benz. Mais um roteiro para conferir numa próxima viagem.

  • João Gabriel, perfeito!

  • Fat Jack

    Isso sim é um clube feminino merecedor de todo respeito!

  • CorsarioViajante

    Brilhante. Aliás as campanhas desta época da VW eram muito boas.

  • Fat Jack

    Aí sim, pena que o parente que eu tinha nessa região se mudou pra Recife, senão era bem capaz de eu fazer uma visitinha programada a ele!

  • Fat Jack

    Realmente devo confessar que agrada mesmo. E já demos muitas risadas por causa disso, uma vez por motivo de saúde eu estava proibido de guiar e nós fomos a um shopping com essa D-10, jamais esqueci da expressão de surpresa e incredulidade da atendente do shopping quando ao entregar o ticket de entrada ao estacionamento viu que era uma mulher guiando aquele “minicaminhão”, de verdade, foi hilário.