Período de campanha eleitoral é o suprassumo das bobagens. Se o Conar não fosse um órgão de autoregulamentação publicitária e, portanto, de punições limitadas, seria uma festa. É tanta propaganda enganosa e tanta incoerência que considero que só acredita quem quer ou quem não se informa.

Sou viciada em notícias de todo tipo. Mas minha adicção não me tira o senso crítico que, pelo contrário, fica cada vez mais agudo pela quantidade de dados a processar. Por isso mesmo leio muito, escuto muito rádio e vejo muita TV. Mas tem coisas que nem assim consigo entender.

É claro que saúde, educação e segurança são as primeiras preocupações da população e, justamente por isso, os focos das atenções dos candidatos às Prefeituras e às Câmaras Municipais. Nesse caso, a maioria segue um roteiro previamente aprovado pelas assessorias e já tem respostas prontas e números na ponta da língua. Acredito que algumas coisas realmente podem e devem ser feitas sim, mas quando a pessoa é questionada no varejo e fora  desses carros-chefes costumamos ouvir besteiras.

Vemos candidato que vetou proposta de passe gratuito para os desempregados nos ônibus depois de ter sido aprovada pela Câmara de Vereadores brandir essa ideia como algo que fará se reeleito. E então por que vetou quando podia implantar?

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São Paulo já teve diversas motofaixas (foto Infomoto blgosfera.uol.com.br)

No debate da televisão com os candidatos à Prefeitura de São Paulo no dia 29 quando Luiza Erundina perguntou ao candidato à reeleição por quê ele não havia feito nada pela mobilidade das motos a resposta me deixou estupefata. O alcaide disse que “estudos internacionais” que ele e sua assessoria haviam consultado apontam que não há vantagem em utilizar vias segregadas para motos. Segundo ele, os técnicos consultados “foram categóricos em dizer que elas aumentam em vez de diminuir a vulnerabilidade do motociclista” (sic). Segundo ele, a solução recomendada pelos organismos mundiais seria a redução do limite máximo de velocidade.

Na hora confesso que me assustei. Não sei por que, pois não deveria após quatro anos de ouvir coisas desse tipo. Mas ainda assim às vezes eu tenho lá meus momentos Velhinha de Taubaté e me surpreendo com o óbvio. Na dúvida, consultei meu marido que assistia ao debate comigo. Não, eu não havia alucinado. Era isso mesmo o que ele havia dito. Descrente ainda, no dia seguinte foi consultar diversos vídeos e encontrei a mesma coisa que meus ouvidos e meu cérebro haviam registrado. Vai ver que a insone Norinha havia sido vencida pelo cansaço e havia confundido as coisas? Não, necas. Cá está a prova:

Caros leitores, raciocinem comigo. Não vou entrar no mérito dos tais estudos, nem os da ONU, da OMS ou de onde for, nada disso. Nem se corredor para motos é recomendável ou não pois pretendo pesquisar mais e voltar ao assunto com números. Aliás, nem pesquisei sobre o assunto e pretendo fazê-los mais adiante. Só não o fiz pois me deparei com um problema logo de cara com essa teoria. Vamos trabalhar em cima do, vá lá, raciocínio do burgomestre e vamos repetir o que ele disse: motociclista fica mais vulnerável em faixas segregadas – lembrem-se, segundo ele.

Desnecessário dizer que imediatamente lembrei das muitas semelhanças que há entre um motociclista e um ciclista. Ambos circulam sobre duas rodas, os ângulos de visão são basicamente os mesmos, a proteção física (ou falta) de ambos é praticamente a mesma (para-choque das duas categorias é joelho, lateral é cotovelo e por aí vai). A principal e talvez única diferença é a velocidade máxima alcançada. E aí vem a segunda parte da teoria da “otoridade”: “seguro para o motociclista é andar mais devagar”. Foi o que ele disse, caros leitores. Não eu, ele, tá? Pronto, igualamos as duas categorias sobre rodas, já que ciclistas andam, genericamente, mais devagar do que motos. A pergunta do milhão de dólares que me tortura desde a semana passada então é: para que ciclofaixas e ciclovias então?

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O problema está na velocidade? (foto www.redetransito.com.br)

Se ciclistas naturalmente andam em baixa velocidade, e isso por si só já elevaria a segurança deles, por que não deixá-los andar junto com os demais veículos pelas mesmas faixas de rolamento em vez de criar faixas segregadas? Novamente, não entro nas questões técnicas. Aponto apenas os pontos da teoria do candidato derrotado. Seguindo essa linha de pensamento, não precisaria ter gasto milhões com ciclofaixas e ciclovias, não? Era só os ciclistas andarem no meio dos carros. Ou isso ou não é verdade que motociclistas estejam mais seguros andando no meio dos carros desde que em baixa velocidade. Mas aí tem outra falha na teoria. A diminuição nos limites de velocidade ocorre há um ano nas marginais e mais do que isso em outras vias — e o índice de mortalidade entre motociclistas no trânsito continua o mesmo. Segundo a CET, nas seis primeiras semanas depois da redução dos limites de velocidade nas principais vias da cidade em 20 de junho do ano passado, 82% dos acidentes envolveram motos. E então, como é que é mesmo?

Mas é fato que não encontrei propostas para o trânsito de motos nem no agora ex-burgomestre de São Paulo nem dos outros. Sequer em outras cidades.

De acordo com o Detran, há 1,1 milhão de motos registradas na capital de São Paulo. Eu sempre digo que essas estatísticas são superestimadas mas não acredito que no caso das motos haja maiores divergências pois o “boom” do mercado se deu nos últimos dez anos. Portanto, proporcionalmente poucas devem ter deixado de circular e não foi dada baixa delas. Ao contrário, é mais provável que haja algumas circulando sem registro. Obviamente a questão das motos é seríssima. Afinal, morrem 3 motociclistas a cada dois dias na cidade e sei lá que quantos ficam feridos — muitas vezes com sequelas irreversíveis e para o resto da vida.

O trânsito de São Paulo não é nenhuma maravilha, mas os números publicados distorcem tudo. A Prefeitura divulga números absolutos de 47 mil mortos no trânsito por ano quando o critério correto e mundialmente aceito é o de mortes por 100.000 habitantes. Se não, a China com 1,36 bilhão de habitantes certamente superaria em centenas de vezes o Uruguai, com somente 3 milhões. De acordo com o Observatório de Saúde Global da OMS (Organização Mundial de Saúde) o Brasil registra quase 23,4 mortes por 100.000 habitantes. Com isso, estamos num nada elogioso 56º lugar no ranking de mortes no trânsito, mas considerando que a ONU tem 193 nações registradas não é a hecatombe que alguns propagam. O que não quer dizer que não deveríamos lutar para estar melhor. Apenas que não é assim que estamos.

Mudando de assunto: Gostei da corrida da Malásia, exceto, é claro, da primeira volta. Onde é que o Vettel estava com a cabeça quando abalroou o Rosberg e ainda quase tira o Verstappen?  Belíssima recuperação do Rosberg, Räikkönnen sempre correto e uma ultrapassagem linda e um emocionante pega entre Ricciardo e Verstappen do tipo “por aqui não, mate”. E o que dizer do estouro do motor do Hamilton? Ele saiu chutando o balde com a equipe, mas falta um pouco de autocrítica. O inglês mesmo disse que de oito carros com motores iguais só o dele quebra. Pois é, por que será? Nada a ver com sua forma de dirigir, claro… E o que dizer do comentarista que disse que quem deu sorte na Malásia foi o Rosberg? Óbvio que o sonho dele era largar em segundo, tomar um baita totó na traseira na primeira volta, cair para último, levar um segundo a mais do que o companheiro de equipe na troca de pneus por causa de um parafuso e ainda tomar uma punição de dez segundos… Isso é que é sorte! Pelo mesmo raciocínio, Hamilton deve estar feliz da vida: agora poderá usar um motor novinho em folha.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


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Sobre o Autor

Nora Gonzalez
Coluna: Visão Feminina

Nora Gonzalez é jornalista, foi repórter (inclusive de indústria automobilística) e editora da Gazeta Mercantil e de O Estado de S. Paulo durante muitos anos. É fã de carros desde pequena, especialmente de Fórmula 1.

  • Renato Amorim

    Hehe Nora…. acho que entender a lógica(??) de políticos (especialmente mal intencionados (?? de novo) como o citado por você) não será possível em nossa passagem por este planeta! Muito boas suas colocações!
    abraço!

  • Marco Schneider

    Acredito que o pior de tudo é se basear nas “regras” da OMS e da ONU como se estes fossem autoridade em todos os assuntos. São um bando de globalistas querendo ditar regra.

    • Marco, exato, quem é OMS e ONU para dizer qual deve ser a velocidade das vias? Idiotas completos.

  • Nora Gonzalez

    Cristiano Zank, não, está errada. Mil desculpas. É 23,4 por 100.000. Peço ao Bob para alterar no texto para que não fique registrada uma informação errada. Já temos suficientes bobagens circulando por ai.

  • Nora Gonzalez

    Acyr Junior, provavelmente não. No ano passado quando o motor do Nico quebrou em Monza ele não disse uma palavra. Aliás, nem o alemão culpou uma conspiração quase intergaláctica, como fez o Hamilton agora.

  • Ricardo Talarico

    Mais uma vez, político vomitando mentiras.
    DUVIDO que a ONU e a OMS tenham estabelecido ou indicado velocidades.
    Essas entidades elaboram estatísticas e propõem metas. Jamais indicam ou sugerem limites de velocidades, porque isso requer estudo específico de cada situação.
    O grande segredo é senso crítico.
    Como boa parte das pessoas acreditam nos números sem raciocinar ou pesquisar, esses políticos continuam a “bostejar” (desculpem, não achei sinônimo melhor) mentiras e invenções.

  • eNe

    Aqui em minha cidade não foi diferente, mas se eu votasse em São Paulo,certamente anularia meu voto, pois não considerei nenhum dos candidatos aptos. Nem o vencedor!
    Mas pior mesmo está no Rio de Janeiro. Votar em padre e pastor é coisa que jamais faria, só que “o outro”, também não me agrada. Voto nulo também!
    O que precisamos mesmo é de uma democracia de fato, onde antes de votar nesse ou naquele, filiados fariam uma votação pré para escolher seus candidatos, onde todos os que fazem parte dele concorreriam.
    Eu não vejo mudanças tão cedo.

    • Caio Azevedo

      Não tem solução, eNe. Também votei nulo no Rio.

  • Gustavo73

    Segundo estudos, que não sabendo a metodologia ou se realmente foram feitos podemos afirmar qualquer coisa. Qualquer um que já trabalhou com pesquisas e estudos sabe que é muito fácil ter um viés para um lado ou outro mesmo que bem intencionado, imagine quando a ideologia usa antolhos

  • Luiz AG

    Gostaria que comentassem sobre esse simulador de trânsito:

    https://www.hacklab.com.br/simulador-de-transito/

  • Heitor Wanussi Amaral De Olive

    Acredito que dado correto seria 23,4 pessoas mortas por grupo de 100.000 habitantes.

  • Victor H, você estava sob influência quando escreveu essa asneira?

  • Roberto Alvarenga, a chave da questão se chama velocidade relativa. Até 20 km/h de diferença para a coluna de tráfego não há risco de acidente.

  • David Diniz

    Nora, Aproveitando ontem no SPTV Segunda Edição passou uma matéria em que o Ilustríssímo Fernando Haddad e seu cupincha (By Bob Sharp) Jilmar(eu chamo carinhosamente de Jumento sem insultar o pobre animal claro) Tatto estão em seus últimos momentos no comando da cidade experimentando uma “técnica milenar” de proibir os carros (ou táxis não lembro ao certo) entrarem nas faixas de ônibus para poder fazer as conversões para entrar na rua algo assim por que meu cérebro não entendeu o que eles certamente querem fazer. Você assistiu a matéria no jornal?

  • David Diniz

    Victor, imagine uma cidade com mais de 12 milhões de habitantes sem motos. Pois é, São Paulo sem moto a cidade PARA.

  • Ronaldo

    Concordo plenamente. O público que compra e anda de moto, em sua maioria no país, não tem educação/cultura para andar nesse veículo, que sem os devidos cuidados na condução, se torna muitíssimo perigoso. Aí vemos o quadro onde, embora seja minoria na frota circulante, a maioria dos acidentes são com motos e que grande parte dos leitos de hospitais públicos e dos gastos do INSS são com condutores de motos acidentados. Não acho que seu uso deva ser estimulado até que nossa sociedade esteja educada o suficiente. Não acho que deva ser proibido, pois fere a liberdade individual, mas com toda certeza não deve ser estimulado.
    E não adianta alguém dizer, que “ah, não é assim, eu piloto muito bem tem não sei quantos anos.” Não estou levando em conta a capacidade individual de pilotagem de ninguém, mas a da grande maioria dos condutores de moto que estão no trânsito em todo o país.

  • Jorge A, então isso quer dizer que você acha que para as pessoas andarem de bicicleta os carros deveriam trafegar à velocidade delas! Brilhante!

  • Victor H, me excedi, peço-lhe desculpas.

    • Eduardo Silva

      Bela atitude Bob, mas olha… Não é fácil não, viu…

  • [:-)

  • Eduardo, e é tão fácil conduzir veículos de duas rodas com segurança, não?

  • Lorenzo Frigerio

    Que pena que não existe mais VHS… o cara tem que filmar a tela da TV com celular. Barbaridade! Desculpem pelo off-topic.

  • Lemming®

    Grato pelas dicas Nora. O livro realmente vale a pena. Estou em 40% no Kindle…hehe
    O filme mais antigo sobre manipulação de notícias, ou informação, pela mídia que me lembro é “O quarto poder ” com Dustin Hoffman e John Travolta (se a memória não falha…rsrs).

  • C. A. Oliveira

    Acho difícil. Entre os ciclistas impera a falta de educação. Aliás, existe meio de transporte mais individualista?

    • C. A. Oliveira, bicicleta não é meio de transporte, é uma mistura de auxiliar de transporte com aparelho de ginástica.

  • Nora e Fat Jack, por falar em comentarista, meu filho descobriu que em certos canais a cabo é possível tirar só o áudio da narração. Outro dia ele assistia a um jogo de futebol só com o som do estádio, como se estivesse lá. Como é bom!!!

  • Joe

    A faixa segregada tinha como principais problemas na minha visão :
    Era estreita para o volume de motos no horário de pico – por isto a proibição de motos na 23 não vingou;
    Possibilitava que as motos atingissem velocidade muito maior que os carros, especialmente no horário do rush. Com isto, veículos fazendo conversão (proibida), pedestres atravessando sem olhar (porque o trânsito estava parado) geravam acidentes graves;
    Obrigava as motos atravessarem todas as pistas para qualquer conversão.
    Resumindo, qualquer interferência tinha potencial para acidente grave. Além disto, requerem o estreitamento das demais faixas para liberar espaço, complicando a vida de todos.

  • David, opinião correta.

  • Nora, no nosso caso é Vivo TV e só no canal Fox Sports; na configuração do áudio há as opções Português e Original: escolher esta.

  • Manoel Malafaia, já fiz tanto, isso usar a moto vestindo terno. Não tem problema nenhum, experimente.

  • Nora Gonzalez

    José Rodrigues, grata pela dica. Pesquisarei o site. Quanto aos que reclamaram eram motoqueiros – do mesmo tipo que fazem manifestação e param o trânsito cada vez que se diz que vão exigir deles coisas “absurdas” como documentação do veículo, CNH específica e outras coisinhas assim. Digo pelas imagens das quais me lembro na época. Pessoalmente, diferencio motoqueiro de motociclista por esse tipo de perfil. Você parece se encaixar no segundo. Parabéns.

  • Eduardo

    Pablo, concordo plenamente no que se refere à educação para os ciclistas. E mais, isso é importantíssimo para os pedestres também, mas sabe como é, dá um trabalhão… Só uma coisa, onde você escreveu “um certo espaço para chegar à inércia”, acredito que você queria dizer “um certo espaço para chegar à imobilidade”, pois inércia é definida como a capacidade de um corpo de manter a velocidade na inexistência de forças contrárias. Não é de forma alguma uma crítica, pois acredito que tenha sido uma má sugestão do corretor ortográfico, que também me coloca por várias vezes em situações desagradáveis.

  • Eduardo Cabral

    Mas para trânsito o índice por 100.000 habitantes também não é o mais correto. Um país pode ter mais carros, pode ter mais deslocamentos. Com certeza 10 mortes por 100.000 habitantes nos EUA, são menos do que 10 mortes por 10.000 habitantes no Brasil. Mas 10 mortes por 10.000 habitantes no Brasil deve ser mais do que na Bolívia, que tem menos carros por 100.000 habitantes. Deveria entrar aí mais um fator de correção.

    Agora, o alcaide cita a obediência a ONU como se isso não fosse um atentado à soberania nacional.

    Tráfico de drogas mata muito mais, mas esse mesmo alcaide criou o programa de financiamento do tráfico na cracolândia. Dando dinheiro para viciados sem compromisso com tratamento. Se ele desse tanto valor a vida humana como ele diz que dá, ele faria o que fez na cracolândia?

    • Nora Gonzalez

      Eduardo Cabral, certamente seu critério faz muito mais sentido pois há várias variáveis que deveriam ser consideradas. Mas pelo menos o de usar por 100.000 habitantes é um padrão internacional. Pior ainda é usar números absolutos. Mas, novamente e para que fique bem claro, concordo com você.

  • Lorenzo Frigerio

    1 GB (imagino) de corrida em Full HD também deve ser difícil de compartilhar.

  • Newton, visão perfeita do problema, comentário perfeito. Parabéns.

  • Mike, tudo isso? Quer dizer que você passou mais de 15,2% das horas acordado durante o ano, pedalando???

  • Mike, caramba, li ‘pedalei’, daí meu espanto! Desculpe-me, está bem?