Na semana passada quando escrevi sobre o abominável hábito de digitar quando se está dirigindo, dois leitores, Mr. Car e Antônio do Sul, disseram que não usam espertofones. Pois é, caros leitores, vocês e muitíssimos outros terão mais uma dor de cabeça daqui para a frente quando quiserem transitar pela cidade de São Paulo. O futuro ex-prefeito anunciou que a partir de 20 de novembro não mais poderão ser usados os talões de Zona Azul para estacionar. Agora, só a Zona Azul Digital, mediante quatro selecionados aplicativos que só podem ser utilizados por quem tiver um telefone com acesso à internet e um cartão de crédito.

É sério. Ou, pelo menos, é sério que será assim, já que não consigo achar a medida em si séria. A partir de agora qualquer um que queira estacionar na rua terá de ter um espertofone com acesso a internet e um cartão de crédito válido. Se não, será obrigado a usar estacionamento particular pago. Faz somente duas semanas saíram números fresquinhos da consultoria IDC que mostram que as vendas de celulares sem acesso à internet e sem aplicativos cresceram 38,4% no segundo trimestre deste ano ao preço médio de R$ 134, enquanto as vendas dos espertofones subiram meros 16,6%, ao preço médio de R$ 1.045. Ainda assim, no acumulado do ano a queda total nas vendas de aparelhos com acesso à internet é de 1,7%. O motivo, mais uma vez, é a crise econômica. Tanto é que em doze meses o mercado de celulares “básicos”cresceu 35,1%, ainda segundo o IDC enquanto o de smartphones caiu 4,8%.

É natural que em tempos de desemprego de mais de 10% todos procurem formas de reduzir custos e escolham celulares mais simples, essa tem sido uma opção muito utilizada, assim como diminuir ou mesmo cortar o acesso a dados móveis. Isso sem considerar, ainda, que quase 80% dos celulares em todo o país são pré-pagos, com planos limitados de dados, chamados etc.

Para um prefeito que diz que governa para as classes menos favorecidas é um total contrassenso. Pelos números do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), 82% da classe B navegou na internet nos três meses anteriores à pesquisa. A proporção cai para 57% quando se fala em classe C e para somente 28% entre as classes D e E. Ah, na classe A o volume de acessos é de 95%. E 87% de todos os usuários fizeram conexão via celular por redes Wi-Fi. Ou seja, poucos das classes mais baixas poderão usar a Zona Azul Digital. Provavelmente o dono de um Brasília 1980 terá de usar um estacionamento particular, pois não se trata apenas de parar o carro na rua, mas de fazê-lo sem ser multado ou sem que o carro seja guinchado.

É claro que na faixa até os 20 anos a utilização de internet é maior, mas no Brasil somente a partir dos 18 anos é que se pode tirar CNH. Aliás, cerca de 80% da população na faixa etária dos 20 anos utilizou a internet nos últimos três meses. Mas o número cai de maneira estável com a idade, chegando próximo dos 20% na faixa dos 60 anos. No total, 45,6% não acessa a rede e do total da população, 22,1% não possui celular de nenhuma espécie. Ou seja, pessoas de mais idade, ou apenas que não querem conexões de dados, serão obrigadas a andar com um adolescente com smartphone… Cadê a dignidade de pessoas que podem dirigir corretamente, têm direito a ter um carro, mas não querem ou não podem ter celular com internet?

E qual é a justificativa para esta obrigatoriedade? “Acabar com as fraudes nos talões de zona azul”. O alcaide diz que a Prefeitura perdeu em 2015 R$ 50 milhões com fraudes e falsificações em cartões de papel. Ainda que o número seja correto, o motivo é bisonho. Trabalhei vários anos numa empresa especializada em prevenção a fraudes com cartão de crédito e outro tanto num grande banco internacional. Garanto que é muito, muito difícil prevenir fraudes com cartão. As administradoras de cartão de crédito e os bancos investem milhões nisso e ainda assim elas existem. Muito provavelmente vocês também foram vítimas de tentativas. Eu, apesar de todos os cuidados, já fui várias vezes. Logo, poderá haver fraudes nas compras dos cartões digitais. Isso sem falar que coibir fraudes não deveria ser motivo para excluir usuários. As autoridades é que devem evitar as falsificações. Se não, amanhã alguém pode decretar o fim do dinheiro vivo pois ele é falsificado o tempo todo.

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Diversas cidades têm parquímetros (jornaldevalinhos.com.br)

Em cidades como Florianópolis, Jundiaí e Pindamonhangaba (essas duas em São Paulo) também existe a zona azul digital mas pelo menos até agora ela é opcional. Continuam podendo ser utilizados parquímetros com dinheiro. Em Jacareí o tempo pode ser de 30 minutos até 4 horas e a opção digital funciona desde 2014 e o pagamento no parquímetro pode ser feito via aplicativo ou ainda via SMS (em São Paulo essa opção não existe) ou em dinheiro. E lá o aplicativo roda também no Windows phone. Em Pindamonhangaba também há um sistema semelhante.

Tecnicamente ainda tem outros problemas. Apenas um dos aplicativos funciona em Windows Phone. E não preciso falar de quão ampla é a rede de Wi-Fi na cidade de São Paulo… O espaço ocupado por estes aplicativos oscila entre 7 MB e 102 MB, portanto, esvaziar os vídeos e fotos do zapzap pode ser uma necessidade real. Até porque nada garante que se você baixar apenas um dos aplicativos você consiga concluir a operação.É provável que tenha de tentar outro.

Mas ainda tem mais pegadinha. Em São Paulo não é possível pagar pelo tempo fracionadamente. É R$ 5 pelo período, que varia de lugar para lugar, mas pode ser de 30 minutos até duas horas. Se é digital e mediante aplicativo, por que não fazer por 15 minutos? Ou 30? Ou 8? E, claro, o valor é o mesmo que era com o talão em papel apesar da óbvia aceleração na arrecadação e da fiscalização que será toda ela exclusivamente digital.

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As placas serão trocadas? (foto bertioga.sp.gov.br)

E quanto ao cartão? Quem já não fez, ou conhece alguém que tenha feito, uma compra em nome de outro porque a pessoa tinha problemas de crédito? Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em setembro 58,2% das famílias brasileiras estavam endividadas. É lógico calcular que uma parte muito significativa tem problemas de crédito e seja porque a administradora negativou o nome ou porque assim decidiu para evitar dever ainda mais, é muito possível que essas pessoas tenham cancelado seus cartões.

Assim, além de muita gente ser empurrada para estacionamentos particulares, outros muitos dependerão dos sempre aproveitadores “flanelinhas” que farão a compra do cartão — certamente mediante uma “comissão”.

E dica para quem ainda tem talões em papel, vá até a Gerência Comercial da CET para fazer a troca em créditos ou pedir reembolso. Para que facilitar, não? Eles mudam as normas e nós temos de nos deslocar para cumprir as novas regras. E outra, será que vão trocar todas as placas que dizem “obrigatório o uso de cartão? Quanto custarão as novas placas e quem será o beneficiário disso?

Mudando de assunto:  Há poucos dias o Bob Sharp escreveu aqui no AE sobre os guardas do aeroporto de Congonhas.  Estive duas vezes nos últimos 15 dias e pela primeira vez estacionei na garagem do aeroporto. Apesar de estar no carro de uma pessoa de idade, com cartão de idoso e tudo, mal conseguimos estacionar. Todas, e digo todas mesmo, as vagas para idosos estavam ocupadas. Além das outras, é claro. O mais estranho é que nenhum carro tinha a tal credencial de idoso, muitos tinham adesivos de lojas mais de moleques (incluindo de produtos para surfistas), racks esportivos no teto, 95% eram modelos tipo SUV, com janelas com filmes escuríssimos, vários deles até no para-brisa. Convenhamos que todas essas coisas são pouco prováveis em carros de pessoas acima dos 60 anos, não? Ao chegar ao saguão do aeroporto, disse isso a um dos guardas que encontrei e solicitei que avisasse a central. Resposta? “Não posso deixar meu posto”. Mas eu não pedi isso — certamente vocês têm comunicação via rádio ou telefone, não? “Então ligue você no 1188”. Então tá. Fiquem multando quem para por alguns segundos (eu nem isso fiz) e permitam que pessoas sem educação cometam infrações e ocupem espaços de quem não tem tanta facilidade para andar — durante horas ou mesmo dias. Ou pessoas que apenas têm o direito de parar em lugares especiais mas não podem fazê-lo porque a CET prefere causar no rápido embarque do que fazer seu trabalho. Se eu pensei que é de propósito porque o estacionamento, que é uma concessão, não quer isso? Mas é claro que sim. Quem não pensaria nisso?

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade da sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.


  • smarca

    Ridícula essa do Doria.
    Acho até que é venda casada e inconstitucional: planos de internet no celular e cartão de crédito.
    Eu, por opção pessoal, jamais digitei meu cartão de crédito na internet, muito menos em um celular o farei.
    Se não há outra opção de compra, transferência bancária, boleto etc., compro em outro lugar.
    Tenho a chave da minha casa, mas não tenho a chave da rede mundial.
    E não sou contra a tecnologia, pelo contrário, toda a rede cabeada e wireless de casa, bem como da clínica de minha mulher fiz eu mesmo. Aprendi e fiz. Tudo o suporte de TI em ambos os locais é por minha conta tem mais de 15 anos. Minhas jovens filhas e seus namorados, quando quiseram trocar seus HDs por SSDs vieram a mim. Não sabem. Usam com desenvoltura os infinitos aplicativos e só.
    Êêê São Paulo … sem comentários.

    • smarca, ei, a Nora escreveu futuro ex-prefeito = Fernando Haddad (rsrsrs)

  • Nora, cada dia que passa eu fico com menos vontade de ir a São Paulo de carro…
    Estou pensando em ir, e deixar o carro lá na Castello, perto do Rodoanel, em algum SAU. Pegar um ônibus na estrada e ir fazer minhas coisas em Sampa, rsrsrs!
    Que nojeira esse lance do zona azul. Tomara que o novo prefeito corrija essa idiotice.

    • Fat Jack

      Mike, não faça isso, pois esta foi justamente a intenção deste mentecapto desqualificado que foi eleito há quatro anos, e deixar este pensamento prevalecer é ruim a todos. Espero que a nova administração indique uma correção de rota assim que assumir.

      • Apesar de dar muita vontade, infelizmente não posso fazer isso, Fat Jack…
        Toda vez que vou a SP, independente do que faça aí, tenho que ir ao Butantã, Brás, São Bernardo (Riacho Grande), rsrsrs. Amigos e parentes que sempre cobram uma visitinha, mesmo que seja para um café.
        Nesses casos, depender de transporte público complica, meu amigo.

        • Fat Jack

          “Complica” é uma forma gentil de dizer que é praticamente impossível…

  • Diogo

    Aqui em Florianópolis, temos todas as opções possíveis: pagamento digital (cadastrando o CPF e a placa do carro e colocando créditos no sistema, que são debitados a medida que vai se utilizando as vagas), parquímetro, os “amarelinhos” vendendo o bilhete na hora, e pontos de venda próximos das vagas (bares, lanchonetes, chaveiros, bancas de revista…). Ninguém fica sem opção. É a melhor forma.

  • Nora Gonzalez

    Programador Maldito, Fat Jack, Ronaldo: para mim é coisa de quem vive numa bolha ou numa dimensão paralela. Falta sair do gabinete, camelar e viver no mundo real dos outros 10 milhões de pessoas. E, claro, ainda tem os asseclas que não dizem ao rei que ele está nu.

  • Nora Gonzalez

    Fat Jack, a lista de inconvenientes quanto a esta “mudernidade” não pára de crescer. Afff!!!

  • Nora Gonzalez

    Juvenal Jorge, obrigada pelas suas palavras. Mais uma bomba-relógio para o próximo alcaide. O orçamento da Prefeitura apresentado esta semana é outra pérola – incluíram repasses do PAC do governo federal que não foram feitos na gestão anterior (e porque seriam agora?), R$ 1,5 bilhão em multas como se fosse receita livre e uma previsão de arrecadação com impostos que não foi alcançada na última gestão. Uma verdadeira herança maldita.

  • Nora Gonzalez

    Mr Car, apesar do que nos fazem crer algumas autoridades, você tem, sim, todo o direito de não ter espertofone. Além da imposição que esta arbitrariedade traz em si penso justamente naqueles que não podem pagar estacionamento mas tem o direito de parar na rua e estariam dispostos a pagar zona azul mas não tem como (ou não querem) ter espertofone de milhares de reais e plano de dados de centenas de reais. Pior ainda, em alguns lugares como nas proximidades da casa do tio do meu marido não há opção de não parar na zona azul. É isso ou andar 5 quarteirões de pura pirambeira.

  • Nora Gonzalez

    Christian Govastki, desculpe mas uma alteração no artigo 181 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e a sanção da Lei 13.146, em julho de 2015 passaram a considerar infração grave o estacionamento irregular em vagas exclusivas em qualquer local (público ou privado), passíveis de sanção. A própria Consultoria Jurídica do Ministério das Cidades diz que quem não tem mobilidade reduzida e nem é idoso, caso estacione em vagas preferenciais em áreas privadas pode sim, ser autuado e até ter o veículo removido do local.

    • João Carlos

      E quanto às vagas de idosos em estabelecimentos privados, vale a mesma regra dos deficientes (art. 47 da Lei 13.146), por analogia? Ou há regra explícita para eles também?

  • Rafael, não é questão de investir, é que isso dá um trabalho danado…

  • Juvenal Jorge

    Lorenzo,
    também já armei confusão no telefone com o Token do Itaú. Me recuso a tê-lo virtual no espertofone. Nem pensar.

  • Christian, sem o cartão não há como evitar a autuação. Os portadores de necessidades especiais precisam obtê-lo e você colocá-lo no carro quando transportar alguém e precisar estacionar nessas vagas.

  • AC2016

    Essa está fácil de derrubar na justiça hein?
    Mas… quem vai fazê-lo?

  • Fat Jack

    Imagina, acontece!

  • Janduir, seu raciocínio está errado. Compra com cartão de crédito é compra à vista e portanto não pode haver diferença de preço entre usar o mecanismo ou pagar em dinheiro. Esse assunto é antigo, inclusive havia postos que tinham preço do combustível diferente para os dois tipos de pagamento, tipo a dinheiro na bomba A e com cartão de crédito na B.

  • Janduir, nem sei se isso é lei; se for, acho-a corretíssima. Essa não é a finalidade do cartão de crédito, atrair clientes e servir de mecanismo de manobra para dar desconto.

  • H_Oliveira, doença só, não, doença séria. O outro dia almoçava com um diretor de comunicação de uma fabricante e o sujeito sem a menor cerimônia (e educação, nem licença pediu) começou a digitar mensagem.

  • Nora, ótimo, boa notícia!

  • Boa ideia, Nora!

  • H_Oliveira

    Concordo plenamente Nora. Isso de obrigar o cidadão a ter um smartphone (e com acesso à internet!) para poder ter acesso ao estacionamento zona azul é ridículo.

  • Newton (ArkAngel)

    Resumindo, quem não tiver smartphone ou não quiser usar cartão, terá de adquirir créditos nos pontos de venda…não me parece haver muita diferença em relação ao sistema atual ou vantagem significativa, a não ser para o próprio CET.
    Quem trabalha para quem mesmo?

  • ochateador

    Mas tem a chance de roubar o dinheiro da prefeitura.
    Em minha cidade tem esses parquímetros (onde só podemos usar moedas ou o cartão recarregável) e acho incrível que os bandidos não repararam nele.
    Vi uma vez (às 6 da manhã) a empresa trocando a caixa cheia de moedas por uma vazia e até perguntei o peso dela carregada. 5 kg só de moedas, me responderam.

    Apesar de ser um saco trocar as moedas por nota… são 5 Kg.

  • ochateador

    Nos outros comentários disseram que “independente de ser estacionamento público ou privado, estacionar em vaga incorreta é passível de multa e remoção do veículo”.