Acho que muitos já ouviram falar, ou até já caíram na tentação de experimentar métodos mirabolantes para economizar combustível, que em regra não passam de falácias que podem até estragar o carro, no mínimo a regulagem do motor é prejudicada nas tentativas de ajustar a economia prometida. Nosso amigo Afrânio Benzaquem de Souza enviou mais um causo* deliciosamente escrito sobre a sua experiência com um destes métodos de economia de combustível, confiram no que deu…


 

ECONOMIA… DE MENTIRINHA

Afrânio B. de Souza

Na década de 80 houve um desusado interesse dos automobilistas em economizar combustível. Vez por outra, aparecia um método novo, que até prometia duplicar a quilometragem útil, rodada por litro. Até com água, diziam e provavam que os carros funcionavam.

Eu tinha um Fusca 70 e olhava essas notícias com cautela e incredulidade. Contentava-me com o tradicional consumo de um litro a cada 12 ou 13 quilômetros, usual numa estrada.

Entretanto, um dia, eu vi, num Fusca 68, uma geringonça esquisita no carburador. Esse carro pertencia a um competente mecânico de avião, e também piloto privado que, eu sabia, bebia além da marca “socialmente” configurada…

Aproveitei um momento de sobriedade e interroguei-o sobre aquele curiosíssimo engenho. “Ah, isso é um método de injeção de água no carburador… Aumenta a compressão nos cilindros… Economiza quase 50% de combustível… Mas tem que avançar 15o no distribuidor”… Foram suas entrecortadas respostas, que não achei conflitantes. Insisti se tinha efetuado a prova, tirando a média de consumo ao encher o tanque, com a quilometragem devidamente anotada. “Não”, respondeu-me. “Estou me baseando no ponteirinho”…

Mesmo assim, resolvi experimentar a genial alternativa. A coisa consistia num depósito plástico de água, de cerca de três litros, ligado por uma fina mangueira de soro fisiológico, que terminava numa agulha hipodérmica, calibre 25, injetada no carburador.

Quando a minha mulher me viu preparando essa improvisada aranhola, resumiu numa sábia e premonitória frase: “Que besteira é essa que você está inventando aí?”

Mas não me deixei abater e fui em frente. Conferi a abertura do platinado, avançando o distribuidor, conforme o requerido. Limpei e calibrei as velas para maior garantia.

A prova, eu planejei com todos os parâmetros controlados. Medi cuidadosamente a distância a percorrer. Parti com o tanque cheio, anotando a quilometragem. Numa projeção pessimista de consumo, um litro para cada 10 quilômetros rodados, chegaria ao ponto de reabastecimento com uma sobra de cinco litros no tanque.

A prática mostrou-me outra realidade. O carro “amarrava” em 80 quilômetros por hora. Não conseguia nem mais um milímetro no indicador. A princípio, imaginei que dali provinha a economia. A estrada era deserta (como a da foto) e, felizmente, não precisei de ultrapassagens. Mas a indicação de combustível baixava de forma acentuada e contínua.

Minha mulher começou a prever que não iríamos chegar. Mas insisti. Mesmo porque o último posto já ficara à retaguarda. A 15 quilômetros do destino, o motor começou a tossir e engasgar. Alguns metros adiante, finalmente apagou-se… Mas o maldito reservatório da “injeção de água” ainda continha mais de um litro! Arranquei-o, sem piedade, danado da vida, enquanto ouvia mais uma lapidar frase da minha interlocutora e consorte: “Eu não lhe disse que essa porcaria não ia dar certo?”

Fui salvo por uma Kombi, cujo motorista parou, perguntando-me o ocorrido. Respondi simplesmente que o tanque secara e o ponteirinho enganou-me, omitindo a fracassada experiência. Será que o mecânico-piloto me passara um trote?

O Fusca, até hoje, está traumatizado. Não pode ver seringas e mangueiras que fica todo ouriçado… Mas, felizmente, ficou vacinado contra essas inovações fajutas!

Tanto assim, que agora sonha em adquirir para si um verdadeiro sistema de injeção eletrônica!


* Afrânio Benzaquem de Souza é nosso velho conhecido e já contribuiu com dois outros causos reproduzidos nesta coluna: “Eles têm artes… do cão!” e “Vacas afetuosas”. No final do primeiro causo consta uma apresentação do Afrânio, para quem ainda não o conhece.

AG

REGISTRO: após da mudança de provedor ocorreu a perda parcial de material fotográfico que foi recolocado nesta matéria no dia 05/02/2017. Este procedimento, feito pelo autor, complementou o trabalho feito pelo Staff do AUTOentusiastas na condução da transferência de muitas centenas de matérias para “seu novo lar”. Com isto esta matéria foi reconduzida à sua condição original, respeitando as condições de arquivo existentes, pequenas diferenças podem ter ocorrido.

 

A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Alexander Gromow
Coluna: Falando de Fusca & Afins

Alemão, engenheiro eletricista. Ex-presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor dos livros "Eu amo Fusca" e "Eu amo Fusca II". É autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Além da coluna Falando de Fusca & Afins no AE também tem a coluna “Volkswagen World” no Portal Maxicar. Mantém o site Arte & Fusca. É ativista na preservação de veículos históricos, em particular do VW Fusca, de sua história e das histórias em torno destes carros. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

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