Esta matéria versa sobre uma dupla que me agrada bastante, a dupla picape-moto. Para não elevar em demasia o preço da dupla, peguei uma “picapinha” e uma “motinha”, a Strada Working, a picape de entrada da Fiat, e a Pop 110i, a moto mais acessível da Honda. Se a dupla funcionasse, funcionaria também com duplas mais caras, tipo uma picape cabine-dupla Ford Ranger levando uma Ducati Scrambler, sendo a montagem da dupla por conta do gosto e bolso de cada um.

Outro motivo, dessa vez prático e importante, foi o peso da Pop 110i. Ela pesa 87 kg e é a mais leve da linha. A Honda Fan 125i, por exemplo, pesa exatos 20 kg mais. Como eu não teria uma rampa para carregar e descarregar a moto, calculei que com a Pop eu me viraria sozinho e no muque mesmo; e calculei certo, pois consegui na boa, sem drama. É importante ser independente.

Sobra espaço

A ideia, que me é muito atraente, é o sujeito sair de viagem com a namorada ou esposa numa dupla dessas. O casal viaja e se hospeda em algum lugar que o agrada, seja praia, montanha, cidade ou campo. Ali baixa a moto e faz a região passeando de moto. Acho isso muito legal, já que praticamente elimina os inconvenientes que uma viagem só de moto costuma trazer, principalmente se for longa. Inconvenientes como um frio danado, calor danado, chuva inclemente, chuva ininterrupta, falta de espaço para bagagem, estrada muito perigosa etc.

Viajar sem medo do mau tempo

Viajar sem medo do mau tempo

Até agora, que eu saiba, há dois tipos de viajantes de moto, os que já viajaram bastante e estão conscientes dos contras que costumam ocorrer, e mesmo assim os aceitam e se preparam o melhor possível para encará-los; e há os que nunca, que antes de empreendê-la só pensam nas partes boas, daí provavelmente não irão devidamente preparados material e psicologicamente para os tais “perrengues”. Bom, esta minha matéria quer criar um terceiro tipo, que é o sujeito que já viajou bastante de moto, sabe dos inconvenientes e não está mais disposto a encará-los ou não quer submeter sua acompanhante a eles, mas também não quer abrir mão dos prazeres que só a moto pode proporcionar.

A moto nos tira da “sensação de cinema” que os carros dão ao percorrermos uma região. Os carros são uma espécie de aconchegante casulo, casinha ambulante, o que é muito conveniente na maioria dos ambientes, porém, por outro lado, essa qualidade nos isola de paisagens em que desejamos nos inserir mais profundamente, como lindas e calorentas praias ou verdejantes, frescas e perfumadas montanhas. A moto também tem um apelo que é só dela: ela nos convida ao passeio. Com ela fica agradável explorar caminhos que não estaríamos dispostos a ir de carro.

Moto nos chama a passear

Moto nos chama a passear

Acontece que muitas vezes, infelizmente, esses locais estão demasiadamente longe de casa; demasiadamente longe para uma moto, mas não para um carro, e é aí que entra a dupla picape-moto, a dupla que une as qualidades particulares que cada um oferece.

Tendo a dupla podemos abrir mão de uma moto grande, e cara, já que com ela não se pretende percorrer grandes distâncias num só dia. Moto grande e pesada, o motociclista sabe, é ótima para viajar, mas para passeios curtos ou trechos de terra sinuosos não é a melhor opção. Lembro bem de um casal de amigos que tive que resgatar em Campos do Jordão, região montanhosa perto de São Paulo. Estávamos lá de férias e eles saíram para passear numa grande estradeira alemã.

Bom, apesar de ele ser um experiente motociclista, competidor de provas de enduro, acabou por atolá-la e os dois não conseguiam sair dali. Tive que levar corda e arrancá-la de arrasto com um carro, porque o muque dos três não bastou. Já se fosse uma Pop… E garanto que o passeio que deram antes de atolar seria tão bom quanto.

Tanto faz a moto, tipo de veículo que tenho há 48 anos, já as tive de inúmeros tipos e potências, e a conclusão é que para mim tanto faz o modelo e o seu porte. O importante é passear de moto no lugar certo e com a pessoa certa.

Moto e mata

Moto e mata: tanto faz a moto

Testando motos, tenho notado que essas estradeiras estão tão boas que até se perde a noção de velocidade. São muito estáveis, sobra motor e as bolhas para-brisa nos alijam da sensação de vento, daí que quando o sujeito vai ver está a velocidades excessivamente altas. Há perigo nisso. Moto não freia nem desvia do perigo tão rápida e seguramente quanto carro.

A dupla dinâmica

A picape é a Strada Hard Working, que vem com ar-condicionado, vidros elétricos, faróis de neblina, computador de bordo, entre outros itens de série, e tinha todos os opcionais: rádio AM/FM com USB, MP3/WMA e RDS,  sensor de estacionamento e cor prata Bari, que juntos somam R$ 2.060, para um preço final de R$ 55.940.

O motor é o já conhecido Fire 1,4 Evo 8V flex, de 85 cv com gasolina e 88 cv, com álcool,  a 5.750 rpm, e 12,4/12,5  m·kgf  a 3.500 rpm; a taxa de compressão é boa, 12,35:1.

Motor valente que dá conta do recado

Motor valente que dá conta do recado

Anda muito bem, retoma com disposição e mantém sem esforço velocidade bem acima do que é permitido em nossas estradas. O câmbio de cinco marchas está muito bem escalonado, não há “buracos” entre marchas, e se 3.700  rpm a 120 km/h reais (v/1000 de R$ 32,3 km/h) é uma rotação um pouco elevada para quando está vazia ou com pouca carga, deve-se lembrar que ela é uma picape destinada a carga útil bem elevada, 705 kg, o que seria como duas pessoas na cabine e 555  kg de carga na caçamba. Em vista disso, a relação final está perfeita, nada a reclamar. E viaja muito bem entre 3.700 e 4.000 rpm, sem estresse nenhum para motor e passageiros. Vai silenciosa e muito estável, viaja muito bem. Por sinal, notei o bom isolamento acústico em asfalto rugoso, até melhor do que o de alguns carros de certo luxo. A Fiat é boa nisso, sabe como isolar bem seus carros.

Painel simples de comandos intuitivos

Painel simples de comandos intuitivos e uma respeitável “prancha” para o pé esquerdo

A Fiat declara velocidade máxima de 170/173 km/h e aceleração de 0 a 100 km/h em 12,2/12,7 segundos, números que são suficientes. O que notei, e me agradou bastante, foi a grande elasticidade do motor, característica do 1,4 Fire Evo, o que é um bom atributo para quando está carregada.

Consumo: na cidade, 7,5 km/l com álcool e 11 km/l com gasolina. Na estrada só usei gasolina e fez pouco menos de 12 km/l. Não é nada campeã em consumo, mas não deixa de ser frugal. O consumo oficial Inmetro/PBVE é 10,3/10,9 km/l cidade/estrada com gasolina e 7,0/7,6, idem, com álcool.

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Motor Fire 1,4 Evo (foto de divulgação)

A caçamba mede 1.692 mm de comprimento por 1.358 mm em sua parte mais larga. Onde há os ressaltos dos para-lamas a largura baixa para 1.090 mm. A Pop 110i, que mede 1.843 mm de comprimento, entrou e sobrou espaço, como se pode ver na foto. Há quatro alças de amarração nas extremidades do fundo da caçamba, o que permitiu amarração rápida e perfeita. O tanque de combustível é de 58 litros, e diante do baixo consumo isso dá boa autonomia.

Suspensão traseira de amplo curso

Suspensão traseira de amplo curso

A suspensão dianteira é McPherson com barra estabilizadora e a traseira é eixo rígido de perfil ômega com mola semi-elíptica parabólica (lâmina única) longitudinal. A suspensão está no ponto, firme, mas nada incômoda, e os pneus são 175/70R14. E é boa de curva, como todo Fiat. Com 170 mm de distância mínima do solo, ela encara bem estradas de terra. É boa e leve de dirigir, pesa 1.063 kg. Os pedais são bem posicionados e o comando de câmbio, mesmo a varão, é leve e preciso. A direção assistida hidráulica é bem calibrada, tem peso correto sempre. Os freios dianteiros são a disco ventilado de Ø 257 mm e os traseiros, a tambor de Ø 228 mm.

O banco é bom, mas o que particularmente me incomoda é, como na maioria dos carros da marca, a posição do volante, alta para o meu gosto, mesmo ajustado todo para baixo.

Estepe, um intruso na cabine

Estepe, um intruso na cabine

O que é incômodo é o estepe dentro da cabine. Fora a diminuição de espaço para o passageiro, há o odor ativo de borracha do pneu. Deveria haver meio de fixá-lo na caçamba para que se pudesse ao menos optar pelo local onde é mais conveniente colocá-lo. O vidro traseiro corrediço é ótimo, areja bem a cabine. A versão vem com capota marítima de série.

Resumindo, a Strada Hard Working é agradável no dia a dia e boa estradeira. Boa para viajar com uma moto na caçamba. Com a ajuda de uma rampa fica fácil levar (praticamente) qualquer moto.

No caso, encarapitada na caçamba, foi a Honda Pop 110i.

Eu já a conhecia quando do lançamento no final de 2006 e gostei bastante. O motor era de 97,1 cm³ a carburador, 6,5 cv a 8.000 rpm e 0,72 m·kgf a 5.000 rpm. Hoje a cilindrada é 109,1 cm³, 7,9 cv a 7.250 rpm e 0,9 m·kgf também a 5.000 rpm. A grande mudança é a formação de mistura por injeção eletrônica “da casa”, a PGM FI, não mais por carburador.Parece pouca potência, mas garanto que é suficiente para passeios. Sozinho, em posição ereta, atingi 100 km/h no velocímetro e notei que ela viajaria bem a 80 km/h como “velocidade de cruzeiro”. Claro que com essas características ela está longe de ser uma estradeira, mas passeia muito bem. Consome tão pouco que nem me dei ao trabalho verificar quanto.

Ainda prefiro as motos às scooters, por mais modesta que seja a moto

Ainda prefiro as motos às scooters, por mais modesta que seja a moto

E boa de freios. Apesar de continuarem a tambor, estão bem dimensionados para o peso e velocidade. Tem 4 marchas, todas “para baixo”, como dizemos na gíria. Estão perfeitamente escalonadas, mas faz falta uma 5ª marcha, já que é comum “a procurarmos” na estrada. O motor, sem dúvida, daria conta de uma marcha suplementar. Todas ficariam como estão e a 5ª seria para descanso. E tem embreagem manual por manete. Não é que nem a Biz, cujo acionamento da embreagem é no pedal de marchas. E como disse, ele é bastante elástico, dispõe de boa potência desde baixas rotações. O ronco é gostoso, com som grave.

O motor da Pop evoluiu bastante ao longo dos anos

O motor da Pop evoluiu bastante ao longo dos anos

Não há regulagem da pré-carga das molas da suspensão traseira, mas como está, está bem. Está suficientemente macia. Não tem regulagem da posição do guidão, mas, ao menos para mim, de 1,80 m, está bem posicionado. Os pedais de apoio do garupa estão fixados na balança traseira, o que é ruim para ele, já que seus pés recebem trancos das irregularidades do piso. A partida é só no pedal, como no começo, porém ligá-la, ainda mais agora, com injeção, é ridiculamente fácil, leve, a ponto de até as borboletas serem capazes de fazê-lo. A Pop 110i foi feita para ser a mais barata possível; foi isso o que o consumidor “pediu” à Honda, e ela economizou onde pode, portanto, que não reclamem.

Não tem regulagem da posição do guidão

Não há regulagem da posição do guidão

A ciclística é boa, adequada ao desempenho, nada a reclamar. O farol é bom e o painel é de fácil visualização. Tem luz que avisa quando o combustível chega à reserva. Tem o dobro das opções de cores que o Ford Modelo T oferecia, que só saía na cor preta: a Pop 110i tem a preta e a vermelha…

Não tem regulagem das molas traseiras e pedais de apoio do garupa são fixados à balança

Não tem regulagem de pré-carga das molas traseiras e pedais de apoio do garupa são fixados à balança

Bom, como disse, ela é simples, e de tão simples não há muito do que se falar. É montar, dar a partida e zarpar para passear sem preocupações. Preço sugerido: R$ 5.500.

Duas posições de comando

Duas posições de comando e boa viagem

AK

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