Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que eu não roubei
A jura secreta que eu não fiz
A briga de amor que eu não causei

Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que quero me suprime
Do que por não saber que ainda não quis

Jura Secreta – Fagner

 

Arrepender do que não se fez é doloroso. Ficar por anos especulando o que poderia ter acontecido, o que teria sido vivido se tivéssemos dito “sim”. Às vezes dá pra fazer depois, mas muitas vezes as mesmas portas não se abrem ao mesmo tempo novamente, os planetas não mais se alinham corretamente, as circunstâncias jamais serão favoráveis como foram um dia. Haverá outras oportunidades para algo que não foi feito? É possível, mas aquela oportunidade perdida jamais volta. Ao ler esse relato posso dizer que vivi um dia como queria ter vivido.

Foi apenas um simples passeio de carro, algumas horas sozinho comigo mesmo, o carro e a estrada. Obra em casa ainda por terminar, alguns estudos para concluir e um feriado de 12 de outubro com tempo livre disponível. Mas tudo aquilo poderia esperar mais um dia. Enforcar uma oportunidade dessas seria como deixar de ir ao último dia de uma exposição ou evento para cortar as unhas ou fazer a barba.

foto-1 DIA DAS CRIANÇAS SOBRE RODAS – POR MARCOS ALVARENGA DIA DAS CRIANÇAS SOBRE RODAS – POR MARCOS ALVARENGA Foto 1

Minha quase nova cozinha, aguardando os últimos ajustes; a pilha de papéis e livros com pendências a resolver estava igualmente caótica

Muitos de vocês já me conhecem nos comentários, e alguns possivelmente já leram minhas duas postagens no espaço do leitor aqui no AE. Na última delas, “A primeira vez com duas a gente nunca esquece“, sobre meu primeiro contato com o universo das motos, mencionei uma estradinha sinuosa à qual devo muito das minhas modestas habilidades de pilotagem e possivelmente minha integridade física nesses dois anos de motocicleta. Mas dessa vez o plano foi ir de carro e fazer uma filmagem à altura do prazer que esse pedaço de asfalto me proporciona. Infelizmente o resultado da filmagem foi um pouco decepcionante tecnicamente falando, mas o dia em si foi inesquecível, e rendeu muita reflexão. Deixará saudade e vontade de repetir.

A tal estradinha de que falo, MG-262, fica entre Sabará, uma cidade histórica encostada em Belo Horizonte e Caeté, também muito próxima. Faz parte do roteiro turístico Estrada Real, e passa por uma região tipicamente mineira: montanhosa, com vegetação de cerrado e uma paisagem conhecida por aqui como mar mineiro por razões óbvias. No cardápio curvas predominantes de baixa velocidade, mas sem muitos hairpins nem insossos cotovelos. Curvas, mesmo. Daquelas que têm personalidade, conversam com o carro e com o motorista. Exigem algum grau de negociação para entregarem todo seu potencial de diversão.

Algumas retas curtas e curvas de média velocidade, muitas delas com visão plena da estrada à frente, permitindo avistar quem vem na direção oposta e com isso realizar um traçado mais elaborado com segurança. Velocidades relativamente baixas em todo o traçado, e pavimentação excelente. Palco perfeito para guiar por guiar. Pra completar é muito pouco movimentada, pois o trânsito pesado de caminhões e ônibus prefere uma rodovia quase paralela, mais adequada ao tráfego intenso e engarrafamentos.

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A foto no GPS já sugere diversão; à esquerda, Sabará; à direita, Caeté; no meio a Mina de Morro Velho e sua barragem entupida de lama de minério

Já falei do meu carro aqui. Linea T-Jet 2011, dos últimos. Comprado em 2013, hoje com 156 mil km. Meu companheiro de estrada, cerca de 3 mil km todos os meses. Nunca fiquei na mão. Um carro que me causou estranheza no início, pois vinha de um Marea 2,4 com torque absurdo em baixas rotações. Agora um turbo downsized que apagava facilmente em saídas de sinal (minha esposa o deixou morrer oito vezes na primeira volta, e ela dirige bem), mas depois de 1.500 giros deixaria o antigo Marea para trás com um delicioso assobio da turbina. Punta-tacco telepático, como todo Fiat. Suspensão irrepreensível, mais dura que a do Linea “civil”.

Aprender a lidar com o pequeno lag da turbina se mostrou divertido. Um motor que parece te repreender em altas rotações, meio que perguntando: “Ei, pra que me fazer girar tanto? Troca logo essas marchas”. Enfim, outra forma de dirigir. Já pensei em trocar, mas sempre a vontade acaba indo embora. Ainda mais com a ausência de opções com três pedais em sedãs. Me perdoem o anacronismo, mas me sentiria castrado sem minha alavanca de marchas e meu pedal da embreagem. Pronto, falei.

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La Macchina

Entro no carro, câmera fotográfica, celular, fita isolante, pedaços de isopor para pequenos calços, alguns testes com a câmera no lugar do encosto do passageiro e o celular colado no assento do banco do motorista e rua. Melhor dizendo, estrada. Mas já era por volta de 14h00, sol a pino e barriga começando a roncar. Um almoço no caminho, na até então desconhecida Pompéu, distrito de Sabará. Comida mineira saborosa, sobremesa idem. Tudo plantado ali mesmo, no “jardim” do restaurante.

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Almoço e sobremesa; horta na porta do restaurante; não gostou do seu alface? Trate de ir até o canteiro e escolher outro

Barriga cheia, hora de acelerar. Mas um foco de incêndio fez com que os bombeiros interditassem a estrada. Um balde de água gelada, imaginando que eu perderia a viagem. Mas logo liberariam a estrada. Fato curioso é que o incêndio havia crescido em proporções porque o primeiro caminhão chamado acabou batendo em outro carro em uma curva mais fechada do caminho.

Mais meia-hora de espera, ajustando as câmeras e boa. Acabou sendo bom, porque fui o primeiro a ser liberado pelos bombeiros, pegando pista quase livre de trânsito. Um presente.

Seguem os dois vídeos. O primeiro da ida, apresentando a estrada. Peço desculpas pelo foco, porque na tela da câmera não dava pra perceber.

Vídeo 1: Boa parte da ida e início da volta:

O segundo vídeo foi uma experiência interessante: tentei sincronizar uma câmera nos pedais e outra na estrada. Apenas no final perdi a sincronia entre os dois vídeos. Confesso que dá um pouco de vergonha colocar um vídeo da minha forma de guiar aqui, no meio de tantos apaixonados e conhecedores. Agradeço humildemente qualquer crítica e repreensão.

Vídeo 2: Perdoem os erros e indecisões nas trocas de marchas. Qualquer semelhança com um cara de meias brancas e mocassim marrom num Honda NSX em Suzuka tratar-se-á de mera coincidência:

Agora fico pensando como seria um desperdício silencioso de vida, de tempo de existência ter renunciado um dia como esse. Há tempos queria um dia para fazer esse passeio, mas sempre obrigações e compromissos me fizeram adiar. Não seria diferente se eu não fizesse acontecer.  Mas a vontade foi mais forte. Imaginem quantos momentos como esse não perdemos por coisas irrelevantes, desnecessárias, eletivas, almoços enfadonhos em ambientes e com companhias igualmente enfadonhas. Fica um apelo para que esses momentos sejam vividos sempre e que muitas histórias como essa sejam ainda contadas aqui.

foto-5 DIA DAS CRIANÇAS SOBRE RODAS – POR MARCOS ALVARENGA DIA DAS CRIANÇAS SOBRE RODAS – POR MARCOS ALVARENGA Foto 5

O passeio ainda rendeu um ensaio fotográfico

M.A.

Artigo dedicado à minha primogênita Beatriz. Feliz dia das crianças, minha filha linda!

 

Sobre o Autor

AUTOentusiastas

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  • Mr. Car

    Ok, Marcos, obrigado, he, he! Aqui no Rio não costumo andar muito, prefiro o aconchego do lar.
    Abraço.

  • Maleta de ferramentas da Mayle hein? Enche os olhos, não é? rsrs

  • Estou precisando fazer isso qualquer hora aqui em Fortaleza, mas as condições das estradas e os péssimos motoristas acabam me desanimando nessa tarefa.

  • MA, adorei o modo como descreveu as curvas. A estrada é fantástica e lembra bastante a estarda dos Romeiros. A ideia de duas câmeras foi ótima! Um dia memorável! Autoentusiasmo é receita para stress e chatices! Valeu!!!

  • Luciano Ribeiro

    Perfeito o texto! Passo de vez em quando na estrada, fugindo dos engarrafamentos monstruosos da BR381, que com as obras fantasmas, tem se tornado um caos trafegar ali durante o dia, quando não opto por trafegar à noite, uso esse trajeto, mesmo que ainda saia em Caeté. É uma viagem maravilhosa, sempre subo a serra para o Santuário da Serra da Piedade e fico lá em cima observando o mar de montanhas do nosso estado, pena que meu carro sofre com os quebra molas malditos, mas o passeio vale muito a pena.

  • Roberto Neves

    Vou viajar amanhã a Minas (do Rio a Machado e Aiuruoca, ida e volta) e esse texto é encorajador. A foto do Linea ao pé da ponte é antológica!

    Apenas um reparo: a canção “Jura secreta” foi composta por Abel Silva e Sueli Costa. Fagner, Simone e outros a gravaram. A gravação do Fagner é realmente a minha preferida.

  • Roberto Neves

    Um casal de amigos meus foi de Petrópolis (RJ) à Serra do Rio do Rastro e postou uma série de fotos apaixonante no Facebook!

  • Janos Markus

    Já passei por esse trecho duas vezes mas quando ainda era de terra. Não sabia que está asfaltado. Tenho que ir lá de novo.

  • Marcelo Maita

    Já valeu só pela referência ao mocassim e ao NSX. Qual a sua posição de dirigir? Pela câmera parece que usa o banco próximo com os joelhos próximos de 90 graus. É isso mesmo?

    • Marcos Alvarenga

      Sim, tenho 1,87 m e gosto de guiar com o corpo um pouco mais perto do volante para não ficar com os braços muito esticados. As pernas acabam ficando mais perto do volante.

      • KzR

        Não sei se você o fez, mas podia ter explorado um pouco mais o ajuste telescópico do volante do Linea para ficar um pouco mais confortável.

        Que passeio primoroso! E na companhia de uma macchina fantástica numa estradinha sinuosa e belas paisagens, não tem como não ser inesquecível. Os vídeos ficaram muito bons (o desfoco até dá um ar meio vintage a tocada) e os puntas-taccos se mostraram muito naturais.

        E que macchina! Estou convivendo com um Absolute mk1 e aprecio bastante a relação entre estabilidade e conforto, o interior numa bela mistura de preto e creme, e o volante com pega e pesos deliciosos pra dirigir. Num dos primeiros passeios que tive, pensei logo de cara como o T-Jet deveria ser incrível. Curioso que o ronco do T-jet lembra o do 1.9 quando acima de 3 mil giros, só que mais encorpado. Como dá vontade de colocar esse motorzinho no meu…

  • KzR

    Só pelo aconchego e apoio do banco e o peso e curso da bela alavanca de câmbio do DS3, já fiquei fascinado. O volante é muito bom também. Um tio meu disse simplesmente que é muito esperto para andar.

    Acho que vale ficar com o Linea por um bom tempo ainda.
    Abs.

  • Fat Jack

    Gostei muito do relato, dos vídeos, de tudo enfim!
    “Ainda mais com a ausência de opções com três pedais em sedãs. Me perdoem o anacronismo, mas me sentiria castrado sem minha alavanca de marchas e meu pedal da embreagem. Pronto, falei.”
    Sintetizou perfeitamente o que eu sinto…, tanto que de olho no futuro não sei qual carro comprar, pois as opções mais interessantes carecem justamente disso.
    “Há tempos queria um dia para fazer esse passeio, mas sempre obrigações e compromissos me fizeram adiar.”
    Entendo perfeitamente…, eu mesmo ando precisando de uma “sessão de descompressão” desta já a certo tempo.